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sábado, 26 de abril de 2025

Os loucos tomaram conta do sanatório...

 


O lendário show do Cramps em um asilo mental em 78...

Venus Lux, Poison Ivy e banda, completamente soltos tocando pros internos e interagindo com eles...

Imagino se deve ter sido como em "Arkham Asylum", quando o Batman diz que tem medo de entrar no hospital mental de mesmo nome por temer sentir que está "em casa".

No caso da banda, parece ter sido exatamente o que houve. 

Tão em casa. E sorte nossa...



E pra quem quiser saber sobre como essa idéia bizarra virou realidade, tem texto sobre o show lá na Vice. 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Ring the Bell #07: Terrible Ted vs Gene Dubois


Gosto de pensar que esta seção do blog tem um caráter educacional, funcionando como possível porta de entrada pra galera que gostaria, mas nunca acompanhou wrestling. 
Em sendo este o caso, a entrada de hoje tem uma função didática bastante simples: lembrar a vocês que professional wrestling pode ser, e não raramente de fato é, uma parada muito... muito, .... MUITO estranha.
Mas maravilhosamente estranha, preciso dizer.... 

now... ring the bell...



 

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Conversando com o Starman #5

Um pouquinho mais tarde do que de costume, mas aqui estamos, senhores.
E a música do dia é o primeiro clássico Bowieano: Andy Warhol





Contexto: Pintor, filmmaker, trend setter. Um influenciador de fato. E mais um dos heróis pessoais de David Bowie. Andy Warhol apareceu no radar do cantor após este ter contato, via um colaborador, com o clássico disco "Velvet Underground & Nico". Daí pra diante, é história. 

É fácil ver como as principais máximas "Warholnianas" ("No futuro todo mundo vai ser famoso por 15 minutos" e "Todos deveriam ser uma obra de arte ou vestir uma", esta, uma apropriação de Oscar Wilde) iriam influenciá-lo num futuro nem tão distante assim: lembremos que este álbum antecede em um ano o lançamento de seu trabalho mais famoso, "Ziggy Stardust and the spiders of mars". Toda a filosofia de art-pop, as intersecções entre arte e consumismo e esse caráter de não-permanência como estilo o influenciariam não apenas na concepção da mais famosa dentre todas as suas "personas", mas por toda a sua carreira. 
Um dos episódios mais lendários da mitologia "Bowieana" se deu quando finalmente o primeiro encontro entre ele e Andy aconteceu: Depois de apresentados, o músico botou o disco com a faixa para tocar. Relatos contam que, sem esboçar nenhuma reação, o líder da Factory simplesmente saiu da sala. Posteriormente, um interesse do nova-iorquino nos sapatos que o britânico utilizava no dia em questão acabou reaproximando-os, ainda que David, em entrevistas, tenha sempre tido o cuidado de deixar claro que eles nunca foram exatamente "amigos". Décadas depois, ele teria a honra de interpretar Warhol em pessoa na cine-biografia "Basquiat" (de 1996). 

Polaroid tirada por Warhol em seu reencontro com Bowie. De fato, os sapatos dele são lindos. 

Sobre a música: Faixa 4 de "Hunky Dory", quarto trabalho de estúdio do artista que protagoniza esta série. Teve reviews muito bons na época de seu lançamento, mas não teve vendas tão avassaladoras. Claro que, um ano depois, esse cenário mudaria com a chegada na terra do homem das estrelas e sua crônica de vida e morte. "Ziggy ..." e seu sucesso comercial fez com que os fãs de música decidissem conhecer os LPs prévios do músico e, com isso, "Hunky Dory" acabou tendo seu merecido reconhecimento. É preciso dizer que, apesar de eu não dúvidas das melhores intenções que Bowie tinha quando criou a faixa e sua idéia de "homenagem irônica", eu consigo entender perfeitamente pq o homenageado não se sentiu tão honrado. "Dress my friend just up for show"? "He'll think about paint and he'll think about glue?". Yeah. Mas a idéia era bem essa: falar de arte, comercialismo, a perenidade das coisas e.... vocês sabem. Fama. Aquilo que "makes a man, take things over" como ele viria a dizer num futuro próximo. 

Bowie como Warhol para "Basquiat"
Como vai ser o seu dia: Okay, ninguém vai negar a importância de Andy Warhol. Sua pintura da lata de sopa Campbell é histórica (tanto que eu tenho uma latinha aqui guardada como decoração, lá na cozinha. Em tópico relacionado: a sopa é muito gostosa. Nada lendário, mas vale a menção). Sua art-pop e as discussões sobre a intersecção entre comercialismo e produção artística, idem. E afinal, a The Factory lançou pro mundo vários e vários e VÁRIOS nomes, não coincidentemente conhecidos como os "Warhol superstars". Mas, e sempre há um mas..... Pensem que a Factory era um ponto focal da arte nova iorquina da sua época. Onde qualquer proscrito minimamente talentoso se jogava tentando canalizar um pouco da luz local. Então, imaginem que para cada Edie Sedgwick, Paul Morrissey e Gerard Malanga, devem ter havido uns 3 ou 4 sujeitos que só não conseguiram "chegar lá". Para cada Nico descoberta no estúdio, chuto, por cima, que deve ter havido umas 5 ou 6 Valerie Solanas. E isso transcende Warhol: Qualquer entourage que se forma ao redor de algum superstar vai acabar trazendo junto sua cota de parasitas sociais. Aquele bando de rêmoras que tentam ficar com as migalhas dos "alphas" do bando. 
Portanto, chegando ao ponto que lhes tocam, meus ímpios: cuidado com as "Falsianes". 
Meu gibi favorito do Homem-Aranha fala exatamente sobre isso: Os vilões dos mutantes, são mutantes. Os vilões do Hulk, são outras criaturas afetadas pela radiação gama. Os vilões do Homem-Aranha, por sua vez, na maioria, tem também suas imagens públicas inspiradas em animais, tal qual o herói. Lagartos, octopus, Tigres, ratos. A diferença é que estes são apenas impostores, tentando alcançar a mesma "fonte original" que a tocada pelo super-herói. E na incapacidade disto, eles tentam destruí-lo. É aquela máxima encontrada em adesivos em carros populares de que "Se tua estrela não brilha.....etc., etc., etc..".
Novamente: cuidado com as pessoas perto. Saiba distinguir quem, de fato, se importa contigo e quem apenas vê em ti um degrau para ser usado para algum fim.
Uma segunda leitura, menos "negativa"? Fama passa. Tudo, afinal, passa. Exceto pra quem se reinventa. E eu sei que fazê-lo no nosso contexto pós-modernista, eternamente num estado de realidade líquida, pra citar Bauman, é difícil. Mas ninguém disse que ia ser fácil, crianças. 
Do contrário? Aproveita seus quinze minutos sob os holofotes, mas lembre-se que eles estão indo embora. Um segundo por vez. 

Frase do dia: "I'd like to be a gallery and put you all inside my show"

terça-feira, 14 de julho de 2020

Conversando com o Starman #4

Dia novo, música nova, e vamos direto ao ponto.
A música de hoje é: SEVEN YEARS IN TIBET


Contexto: Eu não vou aqui adentrar sobre a complicadíssima situação geo-política do Tibet e sua relação ainda mais tensa com a China porque eu precisaria de livros e mais livros para falar do tema com a devida justiça. Vamos apenas nos manter no superficial: Bowie teve seu primeiro contato com o budismo ao final da adolescência, tendo inclusive escrito canções que abordam a religião já no seu trabalho de estréia ("Silly boy blue")
Um dos pontos de referência para o jovem David enquanto se aprofundava em seus estudos pela religião indiana foi o livro "Seven years in tibet" de Heinrich Harrer. A obra, que deu origem a um longa-metragem com o mesmo nome (e que, por sua vez, não tem nenhuma relação direta com a canção aqui comentada) nos anos 90 narra a viagem do austríaco Heinrich para o Tibet, depois de fugir de um campo de prisioneiros na Índia e é elogiada por mostrar o olhar ocidental para a região, um dos raros registros desse território antes da invasão chinesa. 
Textos resenhando tanto o livro quanto o filme descrevem os dois como aquele típico olhar de fascínio do ocidental diante do "oriente misterioso", com tudo de bom e ruim que vem com isso. Okay, façamos justiça: os mesmos reviews elogiam Harrer por não omitir certos detalhes inconvenientes da sociedade tibetana que podem parecer menos atraentes para o público que pode vir a consumir esse tipo de literatura esperando algo no nível de "comer, rezar, amar". Mas ainda assim, vale a observação. Com os anos, a situação no Tibet só ficou mais e mais tensa.
Paralelo a isso, algumas informações a respeito do autor da obra desconhecidas na época do lançamento, vieram a tona, jogando algumas sombras sobre sua jornada (me refiro a revelação de que Harrer pode ter sido um membro do partido nazista durante a década de 30). Se isso invalida sua jornada rumo a uma suposta "iluminação" ou só mostra o poder que sua viagem teve em um processo de torna-lo um ser humano melhor, deixo que a História e os senhores julguem. 

Sobre a música: "Seven years..." berra anos 90. O começo tranquilo e a súbita mudança para um som que é praticamente uma parede de guitarras berra indie rock noventista (Pixies é o nome que mais salta a memória, além de seu "sub-produto estilístico" mais famoso, o nosso adorado grunge). Além disso, essa foi a década onde vimos o ocidente vocalizando de forma mais explícita sua voz sobre a questão Tibetana, então, acho justo declararmos a canção de hoje como uma filha perfeita de sua época. 
Faixa quatro do disco "Earthling", de 1997, esse é um dos trabalhos tardios da produção Bowieana dos quais eu mais gosto e uma das minhas portas de entrada para esse multiverso que é sua discografia. São 14 linhas de letra antes da música se entregar a repetição (mantra?) das frases
"I praise to you. Nothing ever goes away". Uma invocação em meio ao caos sonoro. Um sutra sobre a finitude das coisas e a permanência de.... algo.  Budismo techno-punk

Como vai ser o seu dia: Segue seu caminho. Construa sua história. Componha sua narrativa da forma que melhor lhe convier. Só lembra que "memento mori". Tudo morre. YOLO. 
Ou, citando Mia Matangi, talvez, TALVEZ, YALA (You always live again). Mas na dúvida, viva uma vida da qual você possa se orgulhar. Mas..... adentremos os paradoxos aqui, okay?
Mesmo com as melhores intenções, ainda é um produto comercial, como toda a arte sendo vendida (e isso não é intrinsecamente ruim, só deixando claro). Um cântico de ordem em meio ao caos de guitarra, bateria, sax, teclado e demais sons eletrônicos. O livro também, coordenava o tal olhar de fascínio com os elementos mais cotidianos, pueris e mundanos daquela sociedade, retratando o custo pessoal daquela busca por elevação espiritual numa comunidade inserida dentro de um mundo capitalista. Meu ponto aqui? Eu não sei se tenho um. E na verdade, acho que este é o ponto da música. Carnal e espiritual, físico e arcano, dialeticamente convivendo e se chocando.
Lembrei de uma sequência em "Invisíveis" do Grant Morrison, onde os personagens discutem o paradoxo do rio Ganges: segundo os mitos locais, mergulhar naquelas águas vai te trazer iluminação espiritual. Morrer enquanto está mergulhado nelas, segundo eles, vai te tirar imediatamente do ciclo de reencarnação. Mas claro, porque, afinal, não existe almoço grátis, há também o fato de que o  Ganges é bastante poluído. Então, é possível que esse processo de limpeza espiritual vá resultar em uma ou duas viroses e talvez alguns parasitas nesse veículo imperfeito que usamos para existir nesse plano de realidade. 
O personagem da canção é alguém literalmente morrendo. O horror dos momentos finais vem mas com o conforto da possível transubstanciação, da sublimação do físico. Paz e terror, de mãos dadas. 
Dicotomia. 
Então, busque a perfeição mas entenda que talvez, no caminho, um ou dois improvisos mais profanos vão se fazer necessários. A jornada até o paraíso envolve descer ao inferno. Confuso? Bom, essa é a filosofia que te questiona sobre o som de uma mão solitária batendo palma. O que você esperava?

Frase do dia:

"The stars look so special 
And the snow looks so old 
The frail form is drifting 
Beyond the yoga zone"


ah sim, um aviso: eu disse que a seção seria de segunda a sexta mas esqueci que quarta eu praticamente não entro na internet (salvo uma ou outra espiadinha em alguma rede social porque ninguém é perfeito e eu gosto de acompanhar nossa coletiva descida ao inferno em tempo real) para passar o dia vendo seriados e filmes com Stella. Então, minhas sinceras desculpas, meus Bowieanos e Bowieanas que já constroem todo seu dia a partir das pérolas de sabedoria que este moderadamente humilde urso compartilha com vocês nesta coluna bloguística, mas.... vocês que lutem. 
São 24 horas, vocês vão sobreviver.
E caso eu esteja errado....bom.... YALA, eu imagino. 
Nos vemos na quinta. 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Conversando com o Starman #3

Nosso primeiro cover, senhores.
A música de hoje é NIGHT FLIGHTS


Contexto: Porque, afinal, nossos heróis também tem seus heróis. Um dos ídolos de adolescência de Bowie, informação que ele tornava pública sempre que possível, era Scott Walker.



O cantor e compositor ganhou fama nos anos 60 como parte do trio The Walker Brothers, antes de se lançar numa bem sucedida carreira solo. "Night Flights" é também o nome do último disco lançado pelo trio. Separado em 3 partes distintas, o disco é visto como, na verdade, uma espécie de compilação de 3 álbuns menores, cada um deles feito de forma isolada por cada membro do trio, não muito diferente do que ocorreu com o Outkast em seu "Speakerboxx/The love below" de 2003. A canção aparece como a faixa 6 do já comentado aqui "Black tie, white noise" de 1993, décimo sexto trabalho de estúdio Bowieano e seu primeiro novo lançamento solo em 6 anos, depois do período em que o artista atuou como parte do Tin Machine. Alguns (eu incluso) diriam que este é o marco zero da retomada da carreira de David Bowie nos anos 90 e onde ele deu a guinada em direção aos sons eletrônicos que marcaram sua obra até o seu trabalho final, Blackstar. 

Sobre a música: Enquanto ambas firmam pé no rock, a original se faz notável pela belíssima orquestração acústica, enquanto seu cover carrega forte nos elementos eletrônicos. Lançada em 78, a faixa, que Bowie ouviria enquanto concebia seu Lodger, já deixaria marcas no artista, influenciando-o em uma das músicas deste mesmo álbum, intitulada "African night flight". "Night Flights" tem o mesmo tom mezzo-apocalíptico das outras músicas das quais já falei aqui nesta série. Desta vez, um casal saindo sem rumo em meio à noite, sem a promessa de que verão um novo dia surgindo. Os perigos rondam. O horror é iminente. Mas pelo menos, existe a esperança de que, enquanto tiverem pelo menos um ao outro, tudo vai ficar bem. 

Como vai ser o seu dia: Tudo bem se, no meio da tormenta que tem sido os dias atuais, você se sentir perdido. É fácil, em meio à tempestade, se sentir sem rumo. O importante é lembrar que não estamos sós. Todos temos nossos nortes para os quais nos voltar em períodos particularmente turbulentos. David Bowie tinha Scott Walker, entre outros. Os protagonistas da música tinham um ao outro. Eu tenho meus salva-vidas emocionais. Vocês tem os seus. E recorrer a eles, de tempos em tempos, não é um sinal de fraqueza. As vezes, é aquela "retirada estratégica emocional" da qual a gente necessita antes de podermos seguir adiante nessa gigantesca "jornada noturna" que chamamos de vida. 

Frase do dia: "Be my love, we will be gods on nite flights. Only one promise, only one way to fall"

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Conversando com o Starman #2



Bom dia, senhores.
Episódio novo do seu fake oráculo mais realista e preciso da interwebz. 
Dia novo, música nova, mensagem nova (um pouco mais curta porque tenho alguns corres para fazer aqui de compras da semana). 

Música do dia: "The pretty things are going to hell"


Contexto: Faixa 7 do álbum "Hours", de 1999. "Hours" surgiu, inicialmente, como trilha sonora para o jogo "Omikron: the nomad soul" (que conta com a participação de Bowie e Iman em cutscenes) e que, se minha memória não me falha, foi disponibilizado gratuitamente pela produtora depois da morte do cantor. 


Sobre a música: Industrial salvou carreiras nos anos 90, não? O estilo com suas guitarras rasgantes, batidas pesadas que lembram as máquinas de uma indústria (daí o nome do estilo) e elementos eletrônicos foi o gênero de escolha de vários artistas que saíram dos anos 80 já com certa curiosidade pela música gerada por máquinas, caso do artista foco deste texto e de outros favoritos aqui do blog como o sempre excelente Gary Numan. De fato, a aproximação com a música eletrônica fez muito bem para David, que vinha de discos, como lembramos ontem, não particularmente inspirados. Além disso, havia também a frustração vinda do fracasso do projeto paralelo dele, o Tin Machine. Por sorte, no começo da década de 90, alguns eventos vieram para mudar os rumos da carreira de Bowie. Além da já citado caso de amor com a música eletrônica (ou melhor, da REaproximação, já que, sejamos justos, o interesse do cantor pelo gênero vem desde a parceria com Brian Eno que resultou na confecção da trilogia de Berlim - Low, Heroes e Lodger -, no final da década de 1970), veio também o matrimônio com Iman Abdulmajid em 92.

Como vai ser o seu dia: Oh boy....  Okay. É uma canção sobre sobre finais, não? Um olhar para o passado (o título retoma músicas como "oh you pretty thing" e "you're pretty face is going to hell" dos Stooges) antes de seguir adiante. 
Em entrevistas, Bowie afirmou ter Evelyn Waugh como referência para o título (tirado do livro "Vile Bodies", originalmente intitulado "Bright young things"), sobre a música ser sobre o nosso mundo e como "as coisas bonitas ficaram para trás". Elas existiram tiveram seu tempo, mas se desmancharam no ar. Então, vamos na direção oposta à mensagem de ontem: se joga. 
Não importa a grandiosidade ou insignificância aparente de seu objetivo, vai de cabeça.
As tais "pretty things" tem esse caráter de não-perenidade, mas lembremos: são elas que nos mantém vivos e sãos. 
Em 100 anos (ou menos) eu e você vamos estar mortos. Em 5 bilhões de ano, o sol vai virar uma supernova e a Terra vai ser obliterada. "Lágrimas na chuva", como diria Roy Batty.
Então, aproveita o seu tempo. Porque como todo ciclo, este também vai acabar e virar uma "coisa bonita" na sua memória. E no final, é só isso que sobra, não? 

Frase do dia: "Life's a bit and sometimes you die" 

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Conversando com o Starman: sua dose diária de Bowie



Eu nunca acreditei em oraculos.
Minto: num momento particularmente frágil da minha vida, recém-chegado em SP, atravessando a semana indo de domingo a domingo no cursinho, vivendo numa pensão pra homens e sobrevivendo com apenas o dinheiro que meus pais me mandavam de Avaré (e exatamente por isso, economizando sempre onde dava), eu confesso que lia com interesse o horóscopo de um dos jornais diários que eram assinados pelo pessoal lá do ACEPUSP, pré-vestibular de caráter popular visando atender pessoal de baixa renda tentando entrar numa universidade pública. E, como eu já narrei diversas vezes, meu pai, tentando me presentear com um livro de ciências, acabou por engano me trazendo obras de ciências.....ocultas. Então, não, não aprendi sobre física e biologia mas, por outro lado, não existem muitas crianças de 8 anos de idade que já tem noções básicas de leitura do tarot e runas (já completamente esquecidas, obviamente). 
Mas meu ponto é: nunca tive uma relação de proximidade com quaisquer métodos de leitura do futuro. Até porque, como vocês sabem, tendo ao niilismo "fofinho". Niilismo em si me soa um pouco frio. Se nada é verdade e todas as formas de ideologia são igualmente falhas, a única verdade é a realidade fria e impessoal. Eu por outro lado penso o seguinte: não, não existe Deus, nem deuses. Nenhum oráculo funciona, tudo é só projeção nossa. E isso porque, obviamente, queremos acreditar que nossa vontade influencia o universo. Palavras e pensamentos tem poder. 
Só que.... não, não tem. E eu estou bem com isso, até porque, se nada existe além da nossa realidade factual, prefiro uma postura de "vamos transformar esse mundo em nosso paraíso para aproveitarmos o pouco tempo que temos nele" do que a alternativa apática. 
Mas claro, existem dias e dias. 
E existem dias em que... bom, vocês conhecem aquela frase do "num avião caindo, ninguém é ateu".
E o mundo de 2020 pode ser descrito exatamente assim: como um avião em queda livre. Um trem desgovernado.
Nessas horas, a parte mais primal e reptiliana do meu cérebro anseia por aquele conforto que a crença em alguma mitologia traz, a de que existe alguma forma de inteligência cósmica ordenando as coisas e que vai garantir um final feliz (apesar de, spoiler alert, eu saber que não).
E aí fica essa dualidade: como aplacar essa necessidade, sem abrir mão da minha capacidade crítica e da minha auto-consciência de que oráculos são apenas o medo da morte somados a nossa necessidade de acreditar que temos algum controle sobre nosso meio além daquele que envolve arregaçar as mangas e ir, vocês sabem, fazer coisas. 

A resposta é óbvia: CRIAR MEU PRÓPRIO ORÁCULO. Exatamente por isso, este é o primeiro episódio da nova seção aqui do Groselha on the Rocks: Conversando com o Starman. 
Precisa saber se vai correr tudo bem, se é um bom dia pra tocar os projetos adiante ou se o ideal é ficar dentro de uma sala protegida com sigilos mágicos desenhados com sangue? É só vir aqui, de segunda a sexta, e ver o que as canções desenvolvidas por David Robert Jones tem a dizer.
Eu sempre disse que vocês podem encontrar todas as respostas sobre as grandes questões da vida dentro da obra Bowieana. Pois bem, este sou eu pondo essa crença à prova. E falando de DEUS. 
O único Deus em que eu acredito, pelo menos. O que é sempre divertido. 
So, como vai funcionar: todo dia, uma música randômica escolhida da discografia do Homem. 
Uma rápida olhada na letra e no contexto da canção e uma reflexão tirada das profundezas da minha orelha sobre como as proféticas palavras redigidas por Ele vão afetar (ou não) o nosso cotidiano.
E ao final, uma frase, tirada da supra-citada canção, que pode (ou não) servir como norte do dia. Ou apenas que foi legal o suficiente pra chamar a minha atenção. 
Okay? Okay. 
So..... pra dar início as atividades: 

A música do dia é: DANCING WITH THE BIG BOYS

Contexto: Faixa final de Tonight, disco de 1984 e o décimo-sexto lançado por Bowie. 
Yeah.... um começo não muito auspicioso. Uma música inchada de um LP inchado e que, sejamos francos, não é um dos momentos mais brilhantes da carreira do artista. E que, em retrospecto, antecipava o tom do seu trabalho seguinte, "Never let me down" (de 87), que receberia críticas igualmente negativas. Da mesma forma que aquele, este álbum teve vendas inicialmente boas mas que foram caindo conforme as críticas saiam. Apesar do tom deste preâmbulo, tem pelo menos 3 faixas bem boas: a título (um dueto simpático com Tina Turner) e os dois clássicos "Blue Jeans" e "Loving the Alien". 
De fato, os anos 80 não foram particularmente gentis com Bowie. Foi a década que o viu encher estádios e atingir visibilidade popular como nunca antes (basta lembrar que a obra anterior a essa, "Let's dance" é seu lançamento que mais vendeu), mas cujo preço foi certa perda de foco, com discos que, apesar de ainda terem algumas faixas boas, careciam de coesão e pesavam na produção excessiva. Esse labirinto criativo só vai ser vencido na década seguinte, com Black Tie White Noise (de 1993). Mas essa é outra história...


Sobre a música:  Bem intencionada. Tem backing vocals do Iggy Pop. E é sobre o apocalipse, o qual é, vocês sabem, um dos meus temas favoritos, narrando sobre um personagem que conseguiu "chegar no topo" apenas pra ser ver esmagado pela indústria e tão solitário e miserável quanto estava antes de atingir seus objetivos. 
A música foi concebida numa jam entre David e Iggy no estúdio, regada a algumas garrafas de cerveja, numa espécie de brainstorming criativo. A idéia era caçar um tipo de som que fosse ao mesmo tempo experimental e referencial ao método criativo de décadas anteriores. Se a experiência foi bem sucedida ou não, deixo que os senhores decidam. 

Como vai ser o seu dia: No improvável caso de que, tal qual o personagem retratado nesta canção, você se veja em meio a uma situação de potencial apocalipse (o que, curiosamente, descreve nossos dias atuais com precisão cirúrgica. Sério, temos inclusive um cardápio de opções para que o cliente possa optar pelo juízo final de sua preferência), eu diria (mesmo que não estivéssemos em contexto de pandemia) que não é um bom dia pra tentar algo ousado. Aquele negócio pedindo por uma decisão final, aquela guria ou guri que parece estar a uma investida mais definitiva de se tornar seu "mozão"? Eu, se fosse você, esperaria por mais 24 horas. Que tal aproveitar a pandemia para maratonar uma série ou ouvir uma discografia inteira? Talvez aprender uma atividade nova via vídeo do youtube. Quem sabe, se juntar ao exército cada dia maior de padeiros amadores caseiros e se aventurar na confecção de um pão "escrito, roteirizado e dirigido" por você? 
Conselho de amigo: Qualquer atividade mais importante que as descritas acima? Melhor não. Deixa pra amanhã. 

Frase do dia: "Where there's trouble there's poetry". ("Onde há problemas, há poesia")

terça-feira, 28 de maio de 2019

and now for something completely different....


....o primeiro filme erótico da história: Le coucher de la mariée. Antes que os senhores achem que o conceito de "erotismo" e "putanheragem" era recatado até pros padrões da época (1896), esses 2 minutos são tudo que conseguiram resgatar do curta. O resto - que os mais escrotos entre nós, poderiam chamar de "a parte boa" - se perderam em virtude da degradação do material, visto que ele tava perdido nos acervos do French Film Archives até ser encontrado em 60. Restaram os dois primeiros minutos, em que a moça mal chega às "roupas de baixo" diante do aparentemente desinteressado amante. Mas fica o registro aqui como curiosidade. 

quinta-feira, 21 de março de 2019

A Verdade, a verdade e as verdades de El Topo



Okay, esse aqui é um texto que vem e volta a atormentar minha cabeça de tempos em tempos, acho que desde 2015. E isso vai ser complicado pra porra, então, se me derem licença, vou me conceder o direito à uma xícara de chá e botar algo adequado pra tocar de fundo (alguém disse Dead Can Dance?)

ok, ok...here we go.....






Um homem de preto num cavalo no meio do deserto, com seu filho, nu, viajando com ele. 
Os dois chegam a um local perdido no meio do nada, onde o pistoleiro ordena ao guri que enterre seu primeiro brinquedo e a foto de sua finada mãe no meio da areia, pois já tem 7 anos e já é um homem. 

Assim começa um dos filmes mais incríveis de que consigo me lembrar. Lançado em 1970 com roteiro, direção, trilha sonora e papel principal do mexicano Alejandro Jodorowski, El Topo é daqueles longas que, na moral, mudam vidas, que pegam a cabeça de quem tá assistindo e desconstroem quaisquer expectativa. É também, um ato de magia, tal qual Grant Morrison faria, 24 anos depois, com seu "The Invisibles". Arte como um ato de ativismo mágico visando mudar a sociedade. Uma mistura de analogia cristã, filosofia oriental e crítica ao establishment. e uma história sobre um homem a procura de respostas.


Vou deixar bem claro uma coisa: eu tenho baixado dois livros sobre o filme e uma pá de artigo e decidi NÃO ler nenhum deles. Se fosse falar desse filme apenas pela arte e elementos técnicos, de boa, ia ler pra me embasar. Mas como a proposta desse texto é tentar mostrar a MINHA leitura dos elementos simbólicos do longa, não faria sentido algum eu borrar a minha interpretação com o input que terceiros fizeram. Diabos, tem um livro de autoria do próprio Jodorowski esmiuçando simbolo por simbolo do longa. E hey, ia ser legal ir lá dar uma olhada e ver que aquilo que eu achei que fosse X, de fato era X. Mas por outro lado, esse também é um filme sobre fé. E no momento que eu tiver lido que o que eu entendi de determinada cena era de fato o que o diretor quis passar....deixa de ser fé pra virar fato. O gato de Schrodinger vai estar vivo ou morto. Eu sei, vocês sabem, todos sabemos que o Pink Floyd não pensou num só segundo em "O mágico de oz" enquanto fazia "The dark side of the moon" e que Edgar Wright tinha tudo na cabeça enquanto fazia seu Scott Pilgrim, menos a idéia de sincronizar o filmme com "Mellon colie and the infinite sadness", clássico álbum de 1995 do Smashing Pumpkins. MAS...... foda, sabe? É legal acreditar que uma força cósmica juntou essas obras num paralelo de coincidências tão grande que mesmo o mais saudável entre nós se vê dando vazão a lampejos de apofenia, enxergando padrões onde não existe nenhum. E isso apenas pq....bom, pq isso é legal, pq confere um caráter mágico ao mundo. E falando de magia, voltemos a El Topo. 



So, fomos apresentados ao pistoleiro El Topo e seu filho, seu hijo, e já de cara temos um rito de passagem para o guri, simbolizando fim da sua infância e o inicio de sua fase adulta. Corta pros créditos de abertura e temos uma locução falando dos el topos, ou, em português, das toupeiras, aquele simpático animal que cava buracos. 

“The mole is an animal that digs passages searching for the sun. Sometimes he reaches the surface. When he looks at the sun he goes blind.”

Você pode resumir o filme inteiro nessa passagem: a saga de um homem em busca da verdade e o efeito desta - impessoal, sem qualquer preocupação em oferecer conforto ou felicidade pra quem a encontra - em alguém. Pro bem ou pro mal.

Em sua jornada rumo a.....algo... Topo e seu "hijo" chegam a um vilarejo onde ocorreu um massacre. mas veja bem: um massacre de categoria.



O único sobrevivente só se mantem consciente por tempo o suficiente para implorar por um tiro de misericórdia. Mais adiante, o protagonista encontra alguns batedores deixados pra trás e antes de queimar um por um, consegue a identidade do mandante do crime: o coronel. E não, ninguém tem nomes no filme. Quando muito, títulos. Sobre esses minions - e toda essa primeira parte, do começo até o encontro com o tal coronel é um grande preâmbulo pra nos apresentar àquele mundo distópico - é interessante notar que dois deles estão fantasiando com elementos remetendo ao sexo feminino apenas para cortar para cenas de violência realizada contra eles: o primeiro minion cheirando sapatos femininos para em seguida treinar tiros usando-os como alvos. O segundo, desenhando a figura de uma mulher no chão para simular sexo - e particularmente violento - com a imagem. A mensagem é clara: mulheres não tem uma vida particularmente fácil nesse mundo (bom...e em qual elas tem?).
Curiosamente, os criminosos estão atocaiados numa missão franciscana, matando gente e estuprando os noviços mais novos.  Aqui vale notar que os criminosos são criaturas violentíssimas, mas particularmente patéticas, pouco impressionantes fisicamente. O lance aqui é: em si, eles não são notáveis. O que os tornam perigosos são suas armas. Com elas, são deuses capazes de apagar um vilarejo do mapa em questão de horas.
Dentro do prédio central, o coronel reina soberano sobre seus animalescos subalternos. A única mulher presente é seu brinquedo sexual exclusivo, intocada pelos demais. Objetos sacros são usados como cabide ou suporte pras vestes militares e armas do líder do grupo. Deus é secundário diante do deus militar e seus falos cromados.




A maldade daqueles homens também é indicada no filme pelos animais associados a eles: percebam que quando os 3 criminosos anteriores aparecem, vem com eles um grupo imenso de cabras. Quando o líder do bando surge soberano já fardado, uma leva de porcos surge atrás. Biblicamente, cabras e porcos são animais associados ao demônio em pelo menos duas passagens notáveis, quando Cristo diz que vai separar os bons dos maus, comparando os bons a ovelhas e os maus a bodes. E os porcos, na famosa cena do exorcismo de Legião, quando Jesus desova a leva de demônios dentro de um bando de porcos nas proximidades, que se atiram de um penhasco logo em seguida..
Aliás, sobre isso, o cavalo preto do pistoleiro de preto tb tem um backstory cristão: um dos cavaleiros do apocalipse, o Fome, é descrito no livro das revelações montado num cavalo negro. Ele traz em mãos, segundo o livro sagrado dos cristãos, uma balança. Algumas interpretações atribuem a ele um aspecto positivo, de que ele vai julgar os bons e maus. Outros afirmam que o instrumento é pra remeter a escassez de alimentos e ao aumento de preço destes. E de fato, El topo julga várias pessoas no decorrer do longa. E quando ao aspecto de fome, mais de uma vez ele é mostrado faminto, seja literalmente ou, usando os termos dele próprio, "com fome de Deus". Inclusive, é essa fome que vai, fundamentalmente, arruiná-lo ao final de sua jornada. 
Confirmando meu ponto de que aqueles homens eram patéticos sem suas armas, o pistoleiro consegue domina-los facilmente. Aqui termina o preâmbulo e começamos o segundo capítulo, "Genesis". 
Considerando que militares são a definição by the book de valores masculinos de força e brutalidade, não é uma coincidência que a punição reservada ao Coronel seja a castração: El Topo capa o sujeito sem dó. Desprovido de seu principal "revolver", só resta ao militar o suicídio via "auto-felação" - ou seja, explodindo os miolos com uma arma na boca. Os demais criminosos são executados sem dó pelos sobreviventes e a guria que morava ali decide "se convidar" a seguir em viagem com o homem de preto, para surpresa do menino. Diante de uma escolha, o aventureiro deixa o garoto pra trás e segue viagem com a mulher, não sem antes mandar feito um tiro pro seu filho "Destrua-me. Não dependa de ninguém".



Sim, El topo é um escroto por abandonar o moleque, mas vale ressaltar que a frase tem uma gênese nobre, remetendo a aquele conselho de Buda de que "se você encontrar Buda algum dia, mate-o". Resumindo: cuidado com teus heróis, com o tipo de pessoa as quais vocês atribuem o status de herói, de figuras de influência, em suas vidas. Com relação à moça, rebatizada pelo pistoleiro de Mara, em refêrencia a um rio de águas amargas que Moisés encontrou em suas aventuras bíblicas: eu sei que ela é uma figura "real", tal qual o filho do atirador. Mas não consigo não enxergá-la como algo metafórico, a personificação do ego e vaidade do personagem. Veio dela, do nada, quase como um impulso, o desejo de enfrentar os 4 mestres de armas. Pq? Orgulho. E ele aceita sem pensar. Por amor? Dessa forma, quando o garoto se coloca entre os dois algumas cenas antes, ele personifica a pureza da busca do seu pai, até então motivada realmente pelo interesse em iluminação pessoal. A partir do encontro com a moça, passa a ser sobre ego, principalmente pq as subsequentes vitórias contra os 4 mestres não parecem lhe trazer satisfação, visto as expressões e toda a linguagem corporal do personagem após suas 3 vitórias iniciais. Podem não ter sido vitórias "limpas", visto que ele teve que usar de trapaças e subterfúgios pra derrotar seus adversários, mas não dá pra negar que elas ocorreram pq, de fato, ele aprendeu algo com cada um de seus oponentes.



Eu falei, no titulo desse texto, sobre várias verdades. El Topo é um personagem fundamentalmente pós moderno, disposto a abandonar dogmas pessoais quando estes se interpõem entre ele e o acesso à Verdade, esta com V maiúsculo. Quando uma trajetória se mostra falha, ele recomeça, contanto que haja uma nova verdade, essa com inicial minúscula, despontando ao longe, quase como uma nova rota que aparece do nada, depois de você se ver perdido em meio a uma estrada desconhecida que vai do nada para lugar nenhum. Antes do encontro com o Coronel, ele era um personagem estóico numa jornada filosófica. Após o confronto no vilarejo franciscano, o lance passa a ser satisfazer sua hubris, alimentar seu ego ao alcançar a posição de "melhor do mundo". A cada vitória, o custo pessoal parece pesar mais e mais sobre os magros ombros do personagem de Jodorowski: os 3 primeiros mestres são calorosos com ele, treinando-o e tentando torna-lo um homem - e um guerreiro - melhor, enquanto o homem de preto responde a isso atirando de forma sorrateira ou trapaceando covardemente. As vitórias são desprovidas de substância. O primeiro mestre, um homem cego, é derrotado ao pisar num buraco com estacas previamente preparado pelo oponente. O segundo, o filho da leitora de tarot é morto depois do personagem principal usar o amor dele por sua mãe como uma arma para distraí-lo. O terceiro, o criador de coelhos - outro animal simbólico, que está associado à fertilidade e fartura. Não coincidentemente, os bichinhos começam a morrer do nada com a chegada do atirador - consegue atingir o inimigo, mas este havia se protegido com um prato de cobre que havia aprendido a fazer no período em que conviveu com o mestre anterior.






Pode se dizer que, de uma forma ou de outra, os 3 homens foram mortos a partir de elementos de suas crenças que foram apropriados e subvertidos de forma egoísta pelo Toupeira. O que nos traz ao último mestre: o caçador de borboletas, o único que derrota de fato o rival por não ter nada, absolutamente nada a perder ou a oferecer para que seja utilizado pelo man in black contra ele mesmo. O homem se mata para provar seu desapego pela existência física e, com ele, leva a segunda chance do pistoleiro de encontrar a iluminação. A primeira, negada pelo mundo violento em que vive e por suas tentações. A segunda, tirada dos seus dedos por um homem tão superior que nem a morte é uma ameaça digna de preocupação.  Começa aqui a sua via crucis. 

PROFETAS

Não sei se eu entendi exatamente quem é a mulher de preto com voz masculina que a partir de certo ponto, passa a acompanhar El Topo e Mara, mas no momento em que ela tortura a amante do cavaleiro, passei a enxerga-la como aquilo de animus e anima, o feminino no masculino e vice versa, do protagonista. De novo: pra mim, Mara é o Ego do personagem. Não coincidentemente, ela perde o interesse nele após ele renunciar à violência depois dos eventos no capítulo anterior do filme: ele mesmo renunciou ao ego, arrependido da jornada de sangue que vinha empreendendo até então. Mara e a mulher de preto partem e o atirador é deixado sozinho. 
A partir daqui, é quase um filme diferente. O elemento de western esotérico dá lugar à uma sátira social ácida sobre a sociedade capitalista ocidental. Resgatado por um bando de pessoas com deformidades físicas, o nosso "herói" moribundo é levado a uma caverna e mantido em meditação por décadas. Quando desperta, já há algo diferente.



As roupas pretas, substituídas por trajes brancos e, posteriormente, pelo manto clerical marrom. Lá, uma mulher anã lhe explica que aquelas pessoas foram aprisionadas naquela caverna há certo tempo, pelos moradores de uma grande cidade próxima e que eles são os filhos renegados dos moradores de lá, ou, citando as palavras da moça "os filhos do incesto daquelas pessoas". Uma passagem no teto é o máximo que eles tem de perspectiva de futuro, tal qual as pessoas na clássica metáfora da caverna de Platão. Com a guria anã nas costa, El Topo parte dali em direção à tal passagem, com a perspectiva de conseguir ajuda para libertar sua nova família dali. O personagem, passa por um ritual de renascimento, onde tem cabelo e barba raspados, podendo adentrar para a nova vida como uma tabula rasa. Nesse ritual, ele devora um besouro, outro animal com forte valor simbólico e mitológico.



De fato, quando o toupeira volta ao local onde deixou os corpos dos 4 mestres, o primeiro deles está com o cadáver mantido intacto, coberto de mel e com abelhas ao seu redor. 

Sooooo....a cidade.



A primeira, sem brincadeira, a PRIMEIRA imagem que vemos do local é um grupo de cowboys armados, seguidos por um grupo de velhas senhoras com placas com imagens do olho que tudo vê.


Em seguida, outros cowboys perseguindo o que parecem ser escravos negros e latinos. Enfim, caçando não-brancos, para o entretenimento das senhoras de vestidos caros se escondendo sob a imagem do olho da Providência. A partir daí é ladeira abaixo. Um ultimo detalhe antes de adentrarmos essa parte do filme: percebam as construções naquele ambiente urbano e como, por todo o filme, vemos refletido aquele lance social de que o prédio mais alto dentro de uma comunidade costuma refletir seu principal centro de poder: a história da humanidade começa com os grandes templos religiosos, que vão ficar menores em comparação aos grandes castelos, mostrando a transição de poder, do núcleo religioso pro monárquico. Depois, com o fim do feudalismo e concretização do sistema capitalista, as grandes construções locais passam a ser empresas. Aí, chegamos aos dias atuais, em que centros bancários costumam dividir poder com grandes edifícios comerciais. Aqui em SP, por exemplo, não é uma coincidência que o maior prédio é o do Banespa, lá no centrão da cidade. Pq o poder transita: não mais na produção de bens e mercadorias, mas na circulação de riqueza imaterial. Quase como uma nova torre de babel, se lançado ao céu, tentando ferir os olhos dos deuses em sinal de desafio. Enfim, voltando ao longa, falemos de cidades profanas:







A cidade é um antro de corrupção e decadência moral com gente rica desumanizando os mais pobres e os tratando como animais, enquanto, longe dos olhos de seus iguais, eles sim adotam uma postura bestial de constante gratificação e saciamento das necessidades mais básicas. Tendo que conseguir grana e sem outras habilidades que lhe permitam outra função, resta a El Topo e sua companheira terem que apelar para a mendicância. O curioso é que ele afirma isso mas o que ele faz é entreter o publico com sketches cômicas e depois "passar o chapéu". O mendigo, na verdade, é um artista. Ou, o artista é um mendigo, o que preferirem. E considerando mais uma vez que é o diretor e roteirista desse filme no papel principal, isso quer dizer alguma coisa, não? A única coisa que as duas figuras tem para oferecer àquelas pessoas é sua arte. Enquanto isso, vemos o dia a dia dos membros da elite daquela comunidade: mulheres velhas estuprando um homem negro que as serve para depois se declararem chocadas e exigirem a cabeça do coitado, reagindo em júbilo diante do enforcamento do homem inocente, tudo diante dos olhos chocados dos nossos dois heróis.



Prevendo o pior, a mulher avisa "A cidade é pior que a caverna". Mas, como eu disse acima, o ex-pistoleiro é fiel às crenças (até deixar de sê-lo), e decide continuar cavando caverna adentro até libertar seus amigos. É visível o desconforto da garota naquele ambiente, mas depois de ter suas verdades destroçadas, vez após vez, esta uma "evolui", se podemos chamar assim, até se tornar um dogma na cabeça do Topo. É o que lhe resta. "Sigamos com o plano". O resto é improviso, suponho. 
De volta à cidade grande, agora eles chegam enquanto uma luta de boxe (entre os escravos, claro) está prestes a começar. Detalhe: as luvas dos contendores são cobertas de arame farpado. 



Diante da população em êxtase assistindo a contenda, o mendigo artista comenta:



Duas interpretações pessoais: a primeira vem do choque do uso de pessoas e da violência entre elas como fonte de diversão. A segunda, que vem diretamente do lado de entertainer do diretor mexicano, é a de que formas de arte mais puras e, grossas aspas, "inocentes" acabam sendo deixadas de lado pelo grande público, mais interessado num escapismo mais sensacionalista e histriônico. Se isso já era verdade nos anos 70, que dirá HOJE em dia, com a tv forrada de programas policiais explorando o pior da humanidade, reality shows que são quase rinhas de galo pra humanos e muito material tentando apelar pro mínimo denominador comum do público. Arte fast food. Sacia momentaneamente mas  é esquecida depois de 30 segundos. Na cena seguinte, e me perdoem se eu soar exageradamente gráfico, o casal, atrás de $$$, é contratado para, literalmente, lidar com a merda de gente branca. Pausa pra uma crítica para os representantes da lei locais, tão corruptos quanto a população que defende e o sistema ao qual servem.



Aliás, pausa mesmo, um comentário: o xerife e seu ajudante são visivelmente um casal gay, até pq eles abusam sexualmente dos presos ali, todos homens. Não acho que eles estejam aqui por homofobia do Jodorowski, acho apenas que o ponto é, de novo, a hipocrisia daquela sociedade, defendendo "decência" e condenando posturas que, longe dos olhos do tribunal social, elas próprias vão reproduzir até a exaustão. Aquela comunidade remete diretamente ao livro do Marques de sade, "120 dias de Sodoma e Gomorra". Cada uma das bases do que vemos como os pilares da sociedade ocidental, vão se mostrando igualmente corruptos, numa cadeia de exploração, violência e morte. O filme volta seus olhos, depois de mostrar os pecados do braço coercitivo do estado, os representantes da lei, para outra das bases de sustentação da capitalismo ocidental e daquilo que comumente nos referimos como "o sistema": a igreja.




Vemos, meio que rapidamente, um jovem novo frade chegando à igreja e sendo recebido pelo padre local. Em seguida, temos um ato religioso, onde, com a principal deidade desse mundo, um revólver, em mãos, o pároco realiza supostos atos milagrosos onde pessoas disparam simulam suicídio (spoiler alert: o padre fala para o rapaz recém chegado que as balas no tambor da arma são de festim). Um milagre vazio, anti-milagre apenas para mais um afago no ego das pessoas assistindo à missa. O recém chegado rapaz, botando pra foder e mostrando a que veio, substitui a bala de festim por uma de verdade. "Creiam e não morrerão" disse o líder religioso, mais cedo. Ironicamente, a fé irrestrita de uma criança diante da arma é exatamente o que vai resultar em sua morte, quando obviamente a pistola dispara, estourando o crânio do guri.  Aparentemente, Deus gastou toda sua cota de milagres com essas pessoas corruptas.



Voltamos para o casal de protagonistas, tendo que levar seu "ato cômico" para entreter homens durante uma orgia. De novo, "o artista vai aonde o povo está" e ocasionalmente, isso pode resultar em ter que adaptar sua obra para o gosto do seu público, mesmo que isso resulte em certa perda de integridade. Forçados pelas pessoas ao redor a copularem e comovido com a vergonha resultante em sua companheira, El Topo pede a mão dela em casamento e os dois vão até a igreja para sacramentarem a união. Chegando lá, são recebidos pelo frade recém chegado e..... Topo o reconhece. Yep, é o Hijo, abandonado anos antes. Como vocês podem deduzir, o rapaz se lembra do "destrua-me" que o pai lhe mandou antes de partir, e a reunião dos dois é menos calorosa do que poderia ser. 

APOCALIPSE

Decidido a matar o pai, o menino adota seus trajes negros.





Com o tempo e a convivência, no entanto, o coração do rapaz se apieda e os 3 - 4, já que a companheira do ex-atirador está grávida - acabam formando uma frágil e mal ajambrada espécie de família. Aí vem a vida e PLEU: finalmente os 3 conseguem abrir uma passagem na caverna, mas antes que pudesse controlar o fluxo de gente e avisa-los do perigo iminente na cidade vizinha, as pessoas aprisionadas ali partem feito uma manada de búfalos, incontrolável, indo em uníssono para o centro urbano nas proximidades.


Como era de se esperar, os moradores da cidade não querem "gente diferenciada" ali e fazem a coisa mais decente e humana que se poderia esperar de bastiões da moralidade como estes: passam fogo em um por um dos "invasores". El Topo chega tarde demais para fazer diferença, encontrando todos os membros da sua comunidade assassinados a sangue frio.



Mais uma verdade, o que lhe conferia propósito e um objetivo de vida, um norte diante dos horrores daquela cidade profana e hipócrita, cai por terra, cravejada de chumbo. Sem deus, sem esperança, sem propósito e sem verdades para as quais fugir, só resta ao personagem resgatar de dentro de si o lado pistoleiro e queimar um por um dos putos naquela cidade maldita, o que ele faz e faz sem dó. GOD em sua essencia. G.O.D. Generator (criador, pai de duas crianças). Ordenator (juiz, juri e executor) e Destrutor (como dito, executor. Passando sem dó quem não fosse digno de sua misericórdia). Tal qual o messias cristão, no apocalipse que batiza este capítulo final do filme, ele ressurge ressurrecto, não mais como cordeiro, mas como leão, separando os carneiros dos bodes. Citando Ferréz, "Paz a quem merece. E aos que não, guerra".








A cidade sofre seu expurgo. A classe dominante é toda executada feito cães. A população explorada, corre em liberdade, como os cavalos selvagens que disparam libertos, antes deles.
Só resta ao homem seguir o caminho do quarto mestre e ir procurar pela Verdade em outras dimensões. El topo se auto imola e encerra assim sua busca nesse plano, imperfeito demais para oferecer qualquer resposta. 





Sua esposa e seus filhos partem, em busca de suas próprias verdades.  
E no túmulo do santo assassino, abelhas, um simbolo de prosperidade e pujança, surgem, tal qual como no local do descanso final do primeiro mestre das armas.





El Topo é um tapa na cara, levantando, 50 anos atrás, questões e defeitos da sociedade que são pertinentes até hoje em dia. Exploração de minorias, supervalorização de armas de fogo, uso de religião e da imagem de Deus para exploração de grupos e ganhos pessoais. Verdades alternativas servindo apenas ao benefício da corja de glutões que as criou e as sustenta como pilares de uma sociedade "civilizada". Tudo ali, tudo igual aqui. 
E o que mais nós somos, individualmente e enquanto grupo, nesse mundo de pós modernidade e de realidades líquidas, citando Bauman, senão aventureiros como o El Topo, pulando de verdade em verdade até encontrarmos aquela capaz de nos satisfazer? Uma puta obra densa, tipo um Rorschach em que cada pessoa vai encontrar detalhes e mais detalhes, que vai exigir múltiplas revisitas para a apreensão de sua mensagem. Cada versão e cada visão pessoal, uma verdade, ainda que com uma Verdade maior conectando todas elas. Entendo se as pessoas acharem o final um pouco negativo, mas prefiro, sendo eu a pessoa copo meio cheio que sou, enxergar certo conforto no fato de que o ex homem de preto encontrou conforto em sua vida prévia com sua primeira esposa, mãe do Hijo e depois, na caverna com aquela legião de proscritos e rejeitados sociais. Não estivesse tão cego diante da própria busca e da sua fome de deus, algum deus, alguma luz, talvez ele tivesse encontrado deus na convivência com aquelas pessoas, naquele tipo de mágica que surge das relações que fazemos durante a vida e dos momentos, tão curtos e fugazes, que passamos juntos uns dos outros. Deus nos fez a sua imagem e semelhança. Quando nos encontramos de fato uns com os outros, estamos também contemplando deus, não? E não é bíblico isso de deus ser a Verdade e a vida?
Não sei, pode ser viagem minha. Mas essa é a minha leitura desse filme maravilhoso.
Essa é a minha verdade. Qual a sua?

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