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quinta-feira, 6 de julho de 2023

Em Rumo a Krakoa: X-men, body horror e a inveja do super humano...


Eu venho já há algum tempo aqui no blog falando sobre os X-men, seus tropes e grandes temas. Todo o tecido conjuntivo dos seus quadrinhos e aqueles aspectos que precisam de um olhar mais debruçado para que possam vir a tona. Aqueles detalhes que podem passar despercebido e que só se revelam lá pela terceira ou quarta revisita.

Dessa mesma forma, eu queria voltar o nosso olhar não mais para os heróis e protagonistas dessa série, mas para seus oponentes. "Todo herói é tão bom quanto sua galeria de vilões", alguns dizem. Então, nada mais natural que se concentrar neles e tentar entender o que os oponentes dos mutantes tem em comum e o que podemos perceber a partir desse olhar sobre tais antagonistas. 

O curioso, ao fazer isso, é notar que isso, por sua vez, acrescenta também novas camadas nos heróis, não apenas pelo contraste com tais vilões, mas também pelos elementos que eles tem em comum. 

Lembremos que nos quadrinhos, existem dois grandes tipos de vilões. O primeiro, é o que é a completa oposição ao herói. O herói é forte? O vilão então é inteligente. O herói é rápido? Seu inimigo é devagar. O herói é aquático? Provavelmente seu nêmesis é representado pelo elemento do fogo. 

O segundo tipo de vilão é aquele que é uma versão distorcida do herói. Não sua negação, mas uma versão deste que fez escolhas diferentes. Superman é um filho de Krypton que representa a esperança. Doomsday é um filho de Krypton que representa a morte. Batman é a epitome da perfeição física e luta por justiça. Bane é a epítome da perfeição física e luta por poder. O Flash é um herói velocista. O Flash Reverso é um vilão velocista. 

Me valendo desses exemplos, apliquemos ambas as situações aos personagens que são foco deste texto. Comecemos pela segunda: os X-men são mutantes "do bem". A Brotherhood of evil mutants é um grupo de mutantes "do mal". Charles Xavier é um telepata que usa seus poderes com responsabilidade (supostamente). Amahl Farouk é um telepata que usa seus poderes para dominar corpos e mentes alheios. 

No entanto, vamos pensar um pouco no caso do arquétipo do vilão que é a negação do herói. Eu sinto que não dá pra pensar nesse aspecto dos X-Men sem falar um pouco de suas origens, como forma de estabelecer as bases do ponto que eu pretendo defender aqui.


Quando Uncanny X-Men começa, em 1963, nosso primeiríssimo contato com aquele universo de personagens vem através do prof. X, sozinho, prestes a recepcionar sua primeira geração de estudantes. 

Em seus pensamentos, vemos um pouco das origens do próprio conceito de Homo Superior que, naquele primeiro instante, Xavier acredita serem fruto dos testes nucleares. O pai de Charles era um cientista envolvido na fabricação de armas nucleares e, supostamente, a proximidade com tais elementos radiativos teria alterado sua estrutura genética e permitido que o dna do professor viesse com o gene-x. 


Posteriormente, isso seria retconado e o gene-x seria algo arbitrário, sem nenhum ponto de origem histórico (até porque os primeiros mutantes tem milhares de anos de idade se considerarmos que Selene e En Sabah Nur são membros da raça). Ou seja: o que inicialmente aparentava ser um exemplo de atomic horror (o gênero de horror em que a energia nuclear, um conceito ainda novo para o mundo naquele momento histórico, era a fonte de monstruosidades e deformações de toda sorte) na verdade, muito rapidamente, se tornaria um exemplo de body horror.

A definição mais simples de body horror determina que o gênero fala de horror que advêm de alterações, espontâneas ou provocadas, no corpo humano, gerando deformidades e consequências imprevistas. Normalmente, há a húbris de se alterar aspectos do corpo humano visando aperfeiçoamento de algum tipo e, como consequência de se tentar alterar leis fundamentais da natureza, vem a punição na forma de mutações imprevistas e frequentemente, monstruosas. O primeiro exemplar de obra do gênero, segundo especialistas, é o Frankenstein da Mary Shelley. De lá pra cá, tivemos vários livros e filmes evoluindo o gênero. Dos lobisomens e do homem invisível, passando pelos filmes de sci-fi dos anos 50 e 60 aos filmes de David Cronemberg, Eraserhead e obras recentes como Titan, Slither, Centopeia humana, e Tusk, entre outros. 

Você poderia afirmar que fundamentalmente, os X-men sempre foram um body horror, desde a primeira cena em que vemos Scott Summers afirmar a dependência de seus óculos, Warren Worthington tendo que esconder suas asas ou Hank Mccoy constrangido por seus pés simiescos. 

Mas, como muito bem nos lembra Raphael Salimena em uma de suas tiras, alguns mutantes são mais mutantes que outros. 


Nestas primeiras edições, o exemplar mais significativo de body horror surge no lore mutante na primeira aparição de Blob. Eu sei, é complicado pensar isso em termos contemporâneos, mas nos anos 60 eles não tinham muitas preocupações a respeito de gordofobia e frequentemente o personagem é apontado como uma monstruosidade ou uma aberração (não coincidentemente ele é introduzido na trama como parte de uma caravana circense). 


A "força" de Blob vem exatamente da súbita percepção de que aquilo que o definia como um monstro aos olhos alheios na verdade era uma fonte de poder. Por mais que o personagem tenha motivações egoístas, você não consegue não sentir certa justiça no ódio que ele tem por aqueles que lhe apontavam o dedo e o recriminavam como monstro. 


Esse é, inclusive, um elemento estrutural de histórias de super heróis. Aquilo que é visto como algo monstruoso, o elemento que é fonte de alteridade e que, portanto, é destacado como algo vil e condenável, na verdade é algo especial e mágico. Meio que aquilo do patinho feio, que na verdade, é um cisne. 

Os membros originais da Brotherhood of evil mutants também tem sua cota de traumas físicos. Desde Pietro e Wanda, malvistos pelas origens ciganas, passando por Grouxo e o Mestre mental, fisicamente repugnantes. 

Voltando ao body horror como metáfora: em um vídeo recente do canal do prof. Phillipe Leão, ele, por sua vez, reage a um vídeo do canal da Carissa Vieira onde ela fala sobre body horror e os exemplos históricos do uso do corpo da mulher como fonte do horror. Resumindo bastante o que os dois dizem: o corpo feminino é transformado no objeto do próprio horror. O que gera empatia e repulsa. 

Por sofrer as alterações decorrentes da gravidez, o corpo feminino já naturalmente gera certa fascinação e asco. Ao mesmo tempo, é a mulher que controla o sexo, é ela que escolhe o parceiro e que determina o consentimento. Isso gera inveja masculina, a tal "ameaça da castração". No body horror feminino, o elemento aflitivo da coisa vem do fato da personagem não ter autonomia sobre o próprio corpo, onde ele é uma "coisa", usada, fetichizada ocasionalmente e deformada, não raramente como consequência das ações de personagens masculinos.

Em Teeth, há o caso de uma garota que literalmente tem uma vagina com dentes. No já mencionado Titan, uma garota engravida de um carro. E para o olhar masculino desacostumado, as alterações físicas que a personagem sofre durante seu período de gestação não são muito mais estranhas e alienígenas do que as que uma mulher sofre em um processo de gravidez normal. Em Martyrs, o meio de alcançar o sagrado é expondo o corpo de jovens garotas a uma brutal (sério, BRUTAL) tortura.

O corpo feminino é ao mesmo tempo, fonte de repulsa, curiosidade e desejo. 

Agora, voltemos aos X-men. O que os torna "monstruosos" a ponto de coletivamente causarem medo social, feito literal nas páginas da hq por meio de seus poderes e mutações?

Qual o elemento em comum entre todos eles?

Simples: eles são JOVENS. Estamos falando da década de 60, onde temos a primeira geração do pós guerra chegando a idade adulta e pedindo por mudanças sociais. Feministas, grupos lgbt, os panteras negras. Malcolm X e Luther King, para ficar em nomes (incorretamente, é preciso dizer) associados aos mutantes. 

Os mais velhos sempre tiveram medo dos mais jovens, mas agora essa juventude foi transformada em arma e combustível para pedir por mudanças sociais significativas. Se o body horror feminista é sobre a falta de poder das mulheres sobre seus próprios corpos, aqui, o lance é como o potencial real e transformador desses jovens é frequentemente podado para que o status quo atual se mantenha intocado. 

Do mesmíssimo modo que, no mundo real, governos e burgueses frequentemente usam seus poderes e o maquinário estatal que tem sob seu controle para calar vozes e focos de dissenção ainda em seus estágios mais larvais.

Eu já vi gente condenando o uso de mutantes, aliens e tals como metáforas de minorias sociais, e eu entendo a origem de tais críticas. Mas é preciso lembrar um detalhe importante: pra um homem velho, branco, hétero, cristão, rico e conservador, um nome como Fred Hampton ou Malcolm X surgindo como líder social É tão perigoso quando um jovem que pode partir edifícios ao meio com raios surgindo de seus olhos. 


Mudanças sociais significativas, como redistribuição de renda, reforma agrária e outras, são impensáveis sem a possibilidade de se pegar em armas. Ou vocês acham que, se amanhã o país se tornar socialista e formos começar redistribuição de terras ociosas para criação de pequenas fazendas, os grandes pecuaristas e especuladores imobiliários vão simplesmente concordar e ceder tais espaços pra quem precisa? Não, kemosabe. 

Eles vão se armar. Ou seja, reformas sociais, pro tipo de parasita que vive se alimentando e se fortalecendo a partir dos aspectos mais grotescos do capitalismo, podem representar MORTE LITERAL, de fato. Ou pelo menos, uma morte simbólica de sua posição de domínio absoluto. E mesmo isso é perda demais para eles. 

Lembremos que nesse primeiro momento, mesmo os adultos que guiam a trama, não são tão mais velhos assim. O prof. Xavier mal deve ter chegado aos 30. E considerando, ainda que isso tenha sido um retcon introduzido anos depois, que Magneto apresentou seus poderes nos últimos dias da segunda guerra, já durante o período da "solução final", e que adolescentes mutantes demonstram seus poderes lá pelos 11, 12 anos, parece razoável concluir que ele tenha nascido mais ou menos em 33 ou 34. Ou seja, nesse momento em que ele enfrenta os X-Men pela primeira vez, ele deve ter 30 e poucos anos, no máximo. E mesmo ele e Charles são frutos direto de eventos relacionados a segunda guerra, então nada mais natural que seja estes "novos homens" que venham a guiar as mentes da primeira grande geração de gene-x que viriam a surgir nos anos seguintes. 


Jovens querem o poder e mudar o status quo. Com suas vozes e mentes. Com suas mãos e habilidades. 

O que Lee e Kirby fazem não é nada mais do que tornar literal o mal estar social que a elite conservadora tinha diante das novas gerações. 

So, voltando ao tópico deste texto, ou seja, falando dos vilões dos X-men, temos a Irmandade. Posteriormente, os Sentinelas. Criados por um cientista chamado Bolivar Trask.

Trask. Um anagrama para Stark. O homem que criou o Homem de Ferro. 

Os sentinelas nada mais são do que a humanidade externalizando seu preconceito e o medo do futuro através de homens mecânicos cuja principal função é deter tal futuro de se tornar real e impedir que os mutantes herdem a terra. 


Robôs são frequentemente utilizados na ficção como metáforas para o fascismo, para a padronização mental e uniformização de pensamento típicas de regimes fascistas, assim como também do processo de desumanização tipica do capitalismo. O robô é o homem perfeito sob a perspectiva corporativa: sem vontade própria, medos ou ansiedades. Sem necessidade de descansar, perpetuamente focado em sua programação e em produzir resultados. 24 horas por dia. E, ao mesmo tempo, um simbolo vivo da humanidade em suas imperfeições. O robô só precisa existir pra suprir as carências tipicas da corporeidade e das "imperfeições" humanas. 

Eu poderia me focar em mais vilões desse primeiro período, mas acho mais interessante avançarmos até a fase que é de fato o foco dos textos aqui do blog: o período solo do Claremont nos roteiros, depois da sua aclamada fase em que co-escrevia os gibis mutantes com o também desenhista principal da série, John Byrne. 

Nesse período de co-autoria, Byrne e Claremont estabeleceriam dois grupos de vilões que retornariam futuramente, na era solo de Claremont e seriam brilhantemente utilizados: o Hellfire Club e a Ninhada. 

Enquanto o Clube do inferno desempenhava esse papel de serem "os X-men do mal", usando seus poderes para guiar os rumos da humanidade de forma não ética, uma espécia de brand ultra-liberal da Escola Xavier, a Ninhada (ou The Brood), tal qual os sentinelas, eram sobre eliminação da alteridade em prol de um sonho de uniformidade, de pensamento de colméia. 


Enquanto a ninhada e sua proximidade com os xenomorfos do filme de Ridley Scott retomam o elemento do body horror no grotesco processo dessa raça alienígena de reprodução e assimilação dos corpos e identidades humanas, quase uma espécie de estupro ao mesmo tempo físico, mental e "espiritual", também é dessa época que temos Proteus, uma criatura "conceitual", sem um corpo físico carnal e que sobrevive parasitando corpos alheios. 


Já sozinho escrevendo os x-comics, bem no começo desse período, temos Claremont narrando o primeiro contato dos protagonistas com os Morlocks. 

Tais mutantes, inicialmente antagonistas dos X-men, também são "vilões" por contraste. Enquanto os alunos de Charles tem uma fortuna a sua disposição, os Morlocks vivem na miséria. Enquanto os alunos da Xavier's School podem se passar por humanos, seja pela natureza discreta de suas mutações, seja pelos privilégios de ter acesso a fortuna do Professor (como no caso de Kurt que tinha sempre a mão seu indutor de imagens), os Morlocks não. Suas mutações eram gráficas demais para poderem ser discretos e, vitimas do ódio dos humanos, só restou a eles se voltarem para as sombras e viverem nos esgotos. 

Em sua primeira aparição, os Morlocks raptam Warren, o anjo. Um mutante bonito, rico e que tinha privilégios a ponto de poder assumir sua identidade mutante publicamente sem grandes consequências. Lembremos que, sem o arcabouço do estado a seu favor, isso não era uma opção viável pra nenhum mutante. Não é coincidência que os outros casos mais famosos de mutantes com identidades publicamente conhecidas eram Pietro, Wanda e Hank. Em todos os casos, gene-x positivos que eram tolerados por terem se "alistado" e decidido trabalhar para o tio Sam junto com sua força policial na comunidade super heróica, os Vingadores. "Don't ask, don't tell" e/ou  "Don't say mutant", imagino. 

É meio que um consenso entre o fandom dos X-men que seria IMENSAMENTE difícil que Xavier não soubesse da existência de alguns dos Morlocks. Então, é razoável imaginar que o prof. tenha CONSCIENTEMENTE decidido não alistar nenhum deles por eles não terem "a cara ideal" para serem seus símbolos, seus porta-vozes, os embaixadores da raça mutante.

Lembremos que é meio que outro consenso entre o fandom que Xavier é um assimilacionista. Ou seja, o tal sonho mutante do professor é que os gene-x positivos sejam não-confrontacionais e quietos o suficiente para poderem passar por humanos e serem "tolerados" por estes. 

Nenhum dos 5 membros originais representa qualquer risco, fisicamente falando. Diabos, são todos brancos. Mesmo Hank e Scott não são ameaçadores, fisicamente.


Agora, compare isso com a própria Callisto. Ou Masque, mutante com as habilidades de mudar as feições alheias com a mesma facilidade de alguém manipulando argila. Mas que, ironicamente, é deformado e incapaz de usar os seus poderes no próprio rosto. 

Para os Morlocks, mais do que para os X-men, o corpo é uma prisão (mas notem: apenas quando esses corpos e seus poderes são vistos dessa forma sob a perspectiva humana. É sempre o olhar externo que coisifica, que deforma, de fato, esses indivíduos). E eles merecidamente se ressentem dos discípulos do prof. X. E eles querem um pouco do que estes tem e que eles só tem porque eles se encaixam nos critérios estabelecidos pelo seu mentor. 

Quando, a seguir, os mutantes entram em novo confronto com o Clube do inferno, temos o elemento de classe ainda mais aos olhos, como na clássica capa da edição 208.


Contraponham o estilo quatrocentão, clássico e, sendo franco, tipicamente cafona das classes mais abastadas, representada pelo Clube do Inferno com o dos X-men, mais urgente, punk, jovem e sem concessões. 

O Hellfire Club sempre simbolizou a tolerância quieta dentro de um contexto capitalista. De certa forma, o grupo É a personificação do sonho de Charles. Mutantes que são tolerados pelos homo sapiens por terem o melhor super poder a seu favor: a aprovação de homens velhos ricos. Advinda de muito dinheiro, claro.

Quando estes, no entanto, são confrontados por Nimrod, a evolução dos sentinelas que veio do futuro para detê-los (é bem mais complicado que isso, acreditem), este não faz distinções. Porque é isso que a lógica fria do capitalismo patriarcal faz. Ela pode permitir pequenas conquistas, mas quando a demanda que grupos minoritários fazem é considerada excessiva ou simplesmente estes se tornam impossíveis de serem ignorados, é hora de lembra-los de seu lugar. Existem coisas que mesmo dinheiro e berço não conseguem comprar. 

Isso posto, chegamos no momento em que podemos falar dos 3 grandes vilões desse período de Claremont nos roteiros e tentar entender como eles funcionam quando colocados nesse perfil estabelecido nos parágrafos anteriores: São eles Donald Pierce e os Reavers, Nathaniel Essex e seus Carrascos e Amahl Farouk, o Rei das Sombras.



De certa forma, você poderia agrupar esses 3 grandes antagonistas dentro do macrotema do body horror sobre o qual falamos aqui (e dá inclusive pra adicionar ao grupo o Mojo, apesar dele ser um vilão do Longshot mais do que um antagonista do time-X, pelo menos nesse primeiro momento). 

Essex, o Sr. Sinistro, é um eugenista que se tornou mutante a partir de experimentos que fez nele próprio. A partir daí, ele vem se mantendo imortal por meio de manipulação genética e clonagem. 

Pierce, por sua vez, não é um mutante, mas um humano "aumentado", um ciborgue, com alterações mecânicas em quase 100% do seu corpo. 

Por fim, Farouk, o Shadow King, é um parasita telepático sem um corpo físico, que vive forçando sua presença em corpos alheios (é, em alguns casos, a metáfora é mais sutil que em outros). 

Em comum entre os 3, temos o fato deles serem todos quase imortais mas inumanos em aspectos morais, quase como se o preço a se pagar por sua super humanidade seria perder tudo aquilo que temos de mais nobre e empático. 

Da mesma forma, os Reavers de Pierce e os Marauders de Essex tem sua vida aumentada, seja por clonagem ou cibernética e transumanismo, mas a ponto de se tornarem criaturas monstruosas e sem qualquer traço de humanidade (não quero me perder em devaneios aqui, mas poderíamos nos perguntar se eles eram pessoas cruéis que aproveitaram suas novas habilidades para demolir qualquer freio social que eles tivessem ou se é a condição pós humana deles que lhes deixou mais bestiais. Also: Os X-Men continuam com uma base moral forte mesmo depois de terem vencido a morte, na atual era de Krakoa. E existem outros imortais no universo Marvel que são heróicos em essência então....??).

A principio, parecia que os Carniceiros eram criações de laboratório de Sinistro e só recentemente, já na fase de Krakoa, tivemos outras camadas dos personagens sendo trazidas a tona, na figura de Greycrow, anteriormente conhecido como o Caçador de escalpos (Scalphunter). 

Também recentemente foi estabelecido que Sinister meio que era o Hyde (de "o médico e o monstro") da terra 616, na verdade o lado mais sombrio e "sinistro" do Nathaniel Essex original em suas primeiras "aparições públicas".

Por fim, Farouk tem o mesmo efeito corruptor, dominando as mentes das pessoas próximas e trazendo os piores aspectos delas a tona. E sempre com a nuance de que isso é contra a vontade destas mas.... não exatamente. Farouk não apenas força as pessoas a se tornarem destrutivas, mas aflora o lado sombrio que todos temos e a tal ponto que elas acabam não conseguindo resistir a seus instintos mais negativos. Há sim um elemento de perda do auto-controle, ainda que existam nuances ali. Mas o resultado final é o mesmo. 

Perda de autonomia, abandono da humanidade e barbárie. 

Enquanto Sinistro é responsável pelo Massacre de mutantes e pelos eventos que vão desencadear em Inferno (o original, dos anos 90) e Pierce, por sua vez, vai causar aos X-men a derrota mais significativa de suas vidas, a ponto de a única saída para os heróis ser atravessar o Portal do destino -  o que poderia ter os resultados mais imprevistos - , Farouk domina os heróis a ponto de quase conseguir concretizar seus planos de dominação mundial. 

É curioso notar que, nos 3 casos, falamos de personagens que não são Homo Superior exatamente, mas conseguiram seus poderes - e, no caso de dois deles, a condição de mutantes de fato - através de manipulação física, deles e de terceiros (no caso destes, quase que em 100% dos casos, sem permissão ou, pelo menos, sem total consciência das consequências reais do processo). 

Eu falei dos vilões dos X-Men mas eu convenientemente deixei um deles de fora. Um dos piores.

E eu me refiro a você, meu caro. E eu. As pessoas lendo esse texto. E os leitores dos X-men.  Eu me refiro aos malditos HUMANOS. 

Como eu disse no começo, uma parte substancial do que faz o body horror fascinante é o lance da húbris, da iniciativa de alteração corporal vir por parte de indivíduos com o conhecimento cientifico de como fazê-lo, de como alterar tais corpos, mas sem a inteligência o suficiente pra ter consciência do que pode dar errado no processo. Ou a ausência de um centro moral a ponto de se importar com tais consequências. 

Eu mencionei Nimrod, um sentinela com consciência humana que, por sua vez, ao atravessar o mesmo portal do destino mencionado acima, "evoluiria" para a forma de Bastion, sentinela humanoide. Quase humano, mas não exatamente, um gigantesco "uncanny valley" ambulante. 


Percebam como partimos do humano (Trask) para o mecânico (Sentinelas) chegando a algo que é um produto de ambos (Bastion). Ou o mesmo pode ser dito de Donald Pierce. Ou de Essex, ainda que o caminho aqui tenha sido diferente.

Eu falei dessa mistura de cobiça, desejo de controle e inveja lá em cima como alguns dos motores do body horror e eles se fazem presentes aqui. Uma parte substancial do body horror nos X-men vem de humanos tentando usar dinheiro e tecnologia para conseguirem uma fração daquilo que faz as pessoas-X especiais. Enquanto o body horror no caso dos gene-x não é uma escolha, mas algo determinado geneticamente, seus adversários se destacam por OPTAR por tais manipulações corporais.

A evolução dos sentinelas chegando a Bastion ou Pierce perpassa também por um grupo de vilões de New X-Men, agora na fase de Grant Morrison escrevendo e vários nomes nos desenhos, entre eles Frank Quitely, Igor Kordey, Marc Silvestri e Phil Jimenez.

Neste run de histórias, uma nova ameaça surge na forma dos U-Men, um grupo de pessoas que captura e disseca mutantes para vender suas partes para que homo sapiens normais (e ricos, sempre válido lembrar #eattherich) possam tê-las implantadas em seus corpos. A inveja do outro aqui ganha ares ainda mais macabros. 







Quando vemos o resultado de tais operações, é sempre algo grotesco, errado, fisicamente repulsivo. O processo de comodificação supremo: o corpo alheio transformado em coisa que você compra e assimila (alguns poderiam dizer que essa é uma definição perfeita do capitalismo em si).

Não que forças externas roubando a autonomia dos X-Men sobre seus próprios corpos seja um conceito novo para eles: desde a força Fenix possuindo Jean Grey, passando pelos nano sentinelas e o coletivo Sublime, chegando ao Dia M, onde Wanda Maximoff eliminou os poderes de mais de 95% da nação mutante.

Já mencionei aqui antes os eventos de Inferno (de 2022) como uma quebra de paradigma dentro do universo Marvel, já que estabelece que no futuro, existirá uma guerra entre mutantes e máquinas pelo domínio da Terra e ambas as raças se encontram em situação de mútuo extermínio nessa luta por dominância: os Homo Superior não podem herdar a terra por causa da ação de Nimrod e das máquinas e vice versa (também já mencionei isso aqui antes, mas eu gosto como este novo fato coloca todo o universo Marvel sob novas cores, desde suas origens com o Tocha Humana, uma forma de A.I. ele próprio, como a pedra fundamental da Terra 616). 

Nesse aspecto, a verdadeira guerra por dominância é entre o orgânico e o sintético, ou o natural e o engenhado. Ou, como as gêmeas cuckoo afirmam em dado momento, a verdadeira e unica guerra é entre In vs Out. 

O artigo genuíno vs os wannabes. Os trend setters vs os trend whores. Ação e reação. Revolução e Contra-revolução. Progresso e backlash. 

Morrison, voltando pra New X-men, não é nem discreto. U-Men? YOU-Men? Porque, afinal, o sistema percebeu que matar líderes sociais pode ser um tiro no pé, já que você pode acabar criando mártires. Muito mais eficiente é comprá-los, assimilar sua ideologia e torná-la parte do sistema.  Esquartejar o que pode ser utilizado e comercializado dela e ignorar o resto (o punk foi de um gênero fundamentalmente anti-establishment para algo mercantilizado). Independente do resultado ser um Frankenstein apodrecido, uma colcha de retalhos bizarra e sem qualquer relação real com o artigo genuíno que lhe deu origem. 


O Projeto Orchis, os grande antagonistas da atual fase dos x-gibis, é a resposta final da humanidade contra as demais espécies na guerra por dominância. 

Ao mesmo tempo, fora dos gibis, você vê uma parte do fandom pedindo pelo fim da era de Krakoa e querendo os mutantes de volta na condição de heróis temidos e odiados, bla bla bla. Nem todo hater da atual fase é um cretino preconceituoso que tá puto porque percebeu que X-men nunca foi sobre ele, mas sobre o menino preto que ele chama de "m*caco", sobre a menina pra quem ele assobia de forma nada discreta na rua ou sobre o menino que ele chama de "veadinh*" porque tá de cabelo preso.

Nem todo.

Mas um monte deles é. Um grande exército de U-Men, que lê o gibi, pega a parte que lhes interessa das tramas e ignora todo o subtexto restante. 

Inveja é o combustível do body horror. Inveja do corpo perfeito. Imortal. Mais rápido. Mais apto para certas funções.

Já preconceito, por sua vez, é sobre cobiça e poder. Sobre o que eu quero ter e não posso. E que, portanto, também não quero que ninguém mais tenha. 

O homem branco, rico, cristão e com mais auto-estima do que deveria ter de fato roubou o poder para si próprio e vive com medo de quem quer que queira se sentar na mesa e queira uma parte do banquete pra si e seus iguais. 

E ele não é discreto a esse respeito. Dentro E fora dos gibis.

Mas novamente, nem tudo você consegue comprar com dinheiro. E esse é um dos aspectos fascinantes da evolução: ela vem de onde menos se espera e sem aviso. 

Os X-Men perceberam isso dentro dos gibis e formaram uma nação-estado pra si, finalmente atingindo todo o potencial, ainda que sob constante ataque e pressão, tendo que manter o que conquistaram com muito sangue, suor e lágrimas.

Aqui do lado de fora, tentamos conquistar um lugar na mesa. Um lugar que nos foi negado por causa de classe, raça, gênero e etnia.

O patriarcado ouve e se pergunta "por quem os sinos dobram?"

Um mar sem fim de vozes de todas as cores, classes sociais e gêneros, ciente sobre o próprio potencial, responde de volta "for you, man"

Por fim, Phillipe, no vídeo mencionado acima, cita que existem formas como o drama lida com a ameaça de castração em filmes femininos de body horror e uma delas é tornar a figura feminina, esse ser "ameaçador e ambíguo", inofensivo. 

Acredito que possamos estender essa idéia para obras do gênero que usam o horror para falar sobre outros tipos de corpos que também representam, para os poderes reinantes, ameaça a sua hegemonia. 

Eu mencionei o punk acima em sua trajetória, de algo anti-sistema para algo que é parte dele (existe um gênero comercial cujo nome é literalmente pop-punk, uma contradição em si própria). O mesmo viria, alguns anos depois da saída de Claremont do título, a acontecer com os mutantes. Eu poderia me debruçar sobre outros exemplos de oponentes dos alunos de Xavier, desde a Falange até a Children of Vault, que também são sobre alterações corporais e perda da autonomia. E não se enganem, eu PRETENDO falar deles no futuro. Mas se vamos falar de eventos traumáticos na história dos personagens e, ao mesmo tempo, nos manter no tema levantado neste texto, só tem um lugar que pode servir, de forma apropriada, como nossa próxima parada.

No próximo episódio de "Em rumo a krakoa", vamos dar um salto temporal (mas depois a gente volta, não se preocupem. Ainda tenho que falar de NXM do Morrison. Até porque seria no mínimo negligente falar de X-men, body horror e não mencionar o run que deu ao mundo personagens como Beak, Angel Salvadore, Ernst e Glob) e vamos falar de quando a Marvel editorialmente decidiu que era hora de castrar a raça mutante quase inteira porque, afinal, não havia dinheiro a ser feito ali. 

Um dos momentos mais sombrios da história dos X-men (dentro e fora das hqs) e um dos eventos mais fascinantes da história dos quadrinhos (pelos motivos errados, valido lembrar).

A seguir: 

terça-feira, 13 de junho de 2023

Em rumo a Krakoa: "A paixão de Logan"




Efeito borboleta: "Expressão segundo a qual uma alteração mínima nas condições iniciais pode ocasionar grandes diferenças na evolução de um sistema."

Uma das coisas mais legais de revisitar a era Claremont para a confecção destes posts é poder perceber como é uma trama coesa e como os eventos se interconectam de forma suave. Admito que este era o episódio de Rumo a Krakoa que, junto com o episódio sobre a primeira incursão dos mutantes a Genosha, me deixou mais ansioso. Porque, apesar de ainda ter certo chão até o final de fato do período Claremont nos títulos mutantes, esse é o payback de tudo que ele construiu aqui, não apenas em seu período solo, mas desde a época em que co-escrevia a série com John Byrne. 

De fato, falando da minha experiência com o gibi, esse pra mim é o momento em que eu me sinto confortável para deixar a era Chris Claremont e seguir adiante aqui no "em rumo a Krakoa". Não no fim da fase, mas no simbólico momento de catarse. Principalmente se considerarmos que é mais ou menos a partir daqui que começam os choques entre o roteirista e o editorial, personificado na figura de Bob Harras, que vão forçar o autor a mudar os rumos que ele via para o gibi. Aqui é o último momento dele, puro, sem filtros, sem estar batendo cabeça com Harras ou com Liefeld, Jim Lee, e outros artistas que entrariam para a história como a primeira geração da Image, com cada vez mais poder criativo dentro da Marvel e com, por sua vez, opiniões distintas a respeito do futuro dos x-comics.

E mais longe, tematicamente, este é o ponto em que vemos o julgamento final dos X-Men e o culminar de seu sua escalada em rumo a posição não mais de superheróis, mas de líderes entre sua comunidade.

Acabemos de sair de Inferno, que por sua vez, vinha imediatamente depois dos mutantes tomarem ciência dos horrores Genoshanos. Espertamente, o time de criadores concede duas edições de respiro com os personagens andando por shoppings e indo relaxar a noite. É um raro momento de relativa tranquilidade tanto para os personagens quanto para a gente.

Passado esse período, no entanto, os golpes vem sem clemência. Primeiramente, o time perde Vampira, que é forçada a se sacrificar, atravessando o portal do destino (finalmente chegou a hora da "chekhov gun" apresentada lá atrás, no final de "The fall of mutants" ser colocada pra jogo), para derrotar um super sentinela. Depois, Longshot discretamente deixa o time. Por fim, Ororo é aparentemente morta em batalha contra a Babá e o Orphan maker. 



O gibi continuamente nos deixa com um tom de final, de conclusão. As perdas do time vem, ao mesmo tempo que vemos Donald Pierce e seus Reavers espreitando (e a coisa chega ao extremo de, no final da edição 247, vermos os vilões espionando os mutantes, enquanto eles próprios eram vigiados sorrateiramente pela Babá e seu Orphan-Maker. E isso enquanto todos eles são vigiados por nós. E em algum momento eu vou provavelmente mencionar o papel da gente, enquanto leitores, como vilões do lore dos X-Men. Caixas dentro de caixas, kemosabe. :-) Bem vindos ao pós-modernismo).

Constantemente, Psylocke é bombardeada com visões de um futuro onde todos os membros do time são massacrados pelos Reavers. Ao mesmo tempo, há a tensão a respeito do local que eles usam como base, ameaçador e cheio de aparentes segredos que impedem os heróis de se sentirem totalmente confortáveis ali.

Depois das "mortes" de Rogue e Storm e da partida de Longshot, finalmente o tal final preconizado vem. E o estranho é como, ao invés do tom grandiloquente das tragédias recentemente enfrentadas por eles, esse fim é sereno.

Psylocke e o time são trazidos por Gateway - a revelia da telepata - de volta para a base australiana. Lá, o time, seriamente desfalcado e exausto, emocional e fisicamente - são esperados pelos Reavers, que preparam um ataque definitivo.




Sentindo a presença dos inimigos, ciente das visões de futuro e do fato de que o time se encontra longe de seus dias de glória, onde poderiam fazer frente a um exército tão preparado, só resta a Elizabeth tomar a decisão pelos colegas e força-los, telepaticamente, a atravessar o portal do destino.

Há alguma resistência, mas ela não precisa ser particularmente enfática para convencer os aliados a cruzarem o portal mágico. Apesar do artefato prometer um novo começo, para efeitos práticos, não deixa de ser uma forma de morte. Eles sabem que vão ser julgados por forças cósmicas e que se considerados dignos, um futuro promissor os espera. Mas eles só tem a palavra de Roma a esse respeito.


Para todos os efeitos, aquele é um salto de fé rumo a um futuro desconhecido. Em outras palavras, os x-men estão partindo em uma jornada rumo "a um lugar melhor". Percebem a gravidade da coisa?

Com um último olhar para seus inimigos, Psylocke atravessa o portal em rumo a...??? E deixa a base para trás.

Os X-Men foram submetidos a um julgamento onde não se consideraram dignos de continuarem a batalha em prol do sonho de Xavier. De certa forma, a decisão não deixa de ser uma espécie de aposentadoria com tons de suicídio coletivo. Paralisados diante do clima de desespero crescente, só resta uma quebra total de paradigmas, mesmo que seja sem certeza dos possíveis resultados disso.

Todos ali foram julgados.

Todos? Oh, não, kemosabe. Resta um deles a ser submetido a esse processo. E se tal julgamento foi relativamente indolor para os demais membros do grupo mutante, os algozes não terão a mesma misericórdia na hora de impor juízo para James Howlett. O martelo vem em direção a Wolverine. E sem nenhuma piedade.

Parte II

Como eu já disse "n" vezes por aqui, entre todos os adversários dos X-Men durante a era Claremont, um que não pode ser desconsiderado é a própria natureza deles enquanto personagens de quadrinhos.

Os tropes típicos de super heróis NÃO são aliados dos mutantes, pelo contrário, mas barreiras, impedindo que os homo superior possam alcançar a posição de liberdade e segurança pela qual lutam, sangram e constantemente morrem. 

Façamos um breve estudo de caso aqui: Wolverine. 

Durante a recente história dos heróis, Wolverine é uma presença inconstante, pra dizer o mínimo. Por motivos extra-quadrinhos, há o fato de que é o começo de sua era de frama, onde ele ocupava o lugar de, provavelmente, personagem mais famoso da Marvel no mundo inteiro. Por causa disso, ele acabava tendo aventuras por todo título da editora, além de também ter o seu próprio, narrando suas aventuras pelas selvas e desertos americanos e canadenses, além de incursões pelo Japão e em Madripoor. 

Dentro da trama das hqs, novamente, Claremont sabia trabalhar os tropes dos quadrinhos e usa-los como um elemento orgânico. Dessa forma, ao contrário do que ocorreu a partir dos 90 e que vem até hoje, onde um mesmo personagem aparecia em 3, 4, 5 títulos ao mesmo tempo, sem grandes explicações, essas aventuras solo do mutante canadense o forçavam a deixar o time. Time esse que ele, em tese, liderava. Ou co-liderava, junto com Tempestade. 

Um dos mutantes mais experientes da equipe, não apenas por ser, tal qual Ororo, parte da segunda geração de alunos de Xavier mas também por sua idade e por todas as suas aventuras pré x-men, ele, em tese, é a pessoa ideal para servir de norte para os demais. No entanto, isso não ocorre.

Quando confrontado, ele deixa claro sua visão a respeito dos demais membros, mais jovens e inexperientes, além de mencionar também suas obrigações com outros personagens, parte de seu conjunto de ideologias e "código do guerreiro". 




Perfeito. Brilhante. Mas isso tudo ainda significa que o time, formado em sua maioria por personagens com pouca experiência de batalha e em uma condição de símbolos e protetores de uma raça inteira, vai ter que se virar sozinho. 

Podemos brisar aqui sobre aquele sempre difícil momento de mudança de liderança geracional dentro de grupos. A hora que os mais velhos precisam passar a tocha pra geração seguinte. Inevitável mas ainda assim assustador. Ninguém quer admitir que chegou o dia de pendurar as chuteiras e que é o momento de deixar sangue novo assumir a linha de frente (não é pra menos que essa fase da hq pós-Inferno abre com a estréia da Jubileu). Principalmente um personagem que, para todos os efeitos, é imortal. Ou seja, alheio aos efeitos mais óbvios da passagem de tempo.

Pensemos em outro personagem visto como durão e edgy: Dredd. Dredd é um juíz em um futuro distópico onde esses agentes do estado, em um futuro onde a Inglaterra se tornou uma nação-policial fascista, tem função de juízes, juris e executores. Dredd é um personagem com um profundo código moral e de conduta. E ainda assim, sua retidão moral não faz dele alguém melhor, mas o mais perfeito agente desse estado fascista.

Morais e valores éticos não necessariamente são libertadores. Eles podem ser também correntes, grilhões te prendendo e te limitando. 

É o caso de Logan. Quando seus colegas de equipe mais precisaram dele, ele simplesmente não estava lá. E isso lhes custou tudo.


Quando a justiça "divina" veio para os líderes mutantes, ela foi cruel. Magneto foi julgado previamente, na clássica edição 200 de UXM, mas sua pena "real" foi substituir Xavier e tentar liderar a nação mutante em direção a um sonho que é o extremo oposto do que ele próprio acredita.

Ciclope sofreu toda sorte de miséria em Inferno.

Tempestade foi morta, supostamente, contra a Babá.

Indo mais além, o próprio Charles Xavier perdeu a própria vida, mais de uma vez. Seu sonho foi estraçalhado, suas falhas, trazidas a público (Legion, os Morlocks, a Fenix Negra...). Seus protegidos, massacrados na guerra que ele mesmo criou. E outras punições viriam para atormentar Charles, nos dias vindouros (Fall of X tá aí pra não me deixar mentir).

Só restava um para ser punido. E como a capa dessa edição não sutilmente deixa claro, a hora de sua punição chegou.

Parte III

A edição 251 abre como um gigantesco "previously on uncanny x-men" mas onde Logan (e a gente) testemunha juntos o fim do time principal dos filhos do prof. X. 


Gateway, inclemente, expõe para o canadense o fim do grupo ao cruzar pelo portal do destino. 

O título "Fever dream" é preciso: deixado ao sol, crucificado e constantemente torturado, Logan foi inquestionavelmente derrotado pelos Reavers. As emocionalmente massacrantes quase 30 páginas dessa edição são o mutante passando pelas fases do luto até chegar ao nível da aceitação, onde finalmente vai começar um rascunho de ofensiva contra seus inimigos.

Mas não sem antes ser confrontado por seus pecados passados. 




O simbolismo aqui é tudo menos sutil, a começar com a crucificação de Logan. Com a diferença de que Jesus, em tese, pagou por pecados que não eram dele, exceto como representante da raça humana. Já Wolverine, esse sim tem coisa pra expiar.

É preciso lembrar que esses eventos, da morte de Vampira até o fim dos X-Men, ocorrem de forma muito rápida dentro da trama. É através do sonho febril que ele tem, fruto dos poderes de Gateway, que ele descobre, por exemplo, que Ororo morreu.

Além disso, observemos seus adversários. Um trope - e já falamos aqui sobre como eles são também barreiras a serem superadas pelos heróis - comum em histórias de super heróis é aquilo de "deixar o vilão fugir para lutar outro dia". Outro: ninguém se importa com os minions do final boss que são deixados mortos ou gravemente feridos no caminho.


Aqui, ambos os tropes vão se combinar para cobrar seu devido quinhão do mutante de adamantium. É o motivo pelo qual menciono o efeito borboleta no começo desse texto. Atos e consequências. Três membros do time de Reavers são soldados do Clube do Inferno que tiveram o azar de serem deixados para morrer na primeira vez que os mutantes enfrentaram os vilões burgueses. 

Três (número cabalístico?) também é a quantidade de membros do time original dos Reavers que fugiram e não foram forçados a passar pelo portal do destino na primeira vez que os ciborgues cruzaram o caminho dos protagonistas. E que agora, voltam para uma revanche. O ultimo trio importante aqui é formado por Donald Pierce, o líder do grupo, que foi gravemente ferido por Logan no passado. Lady Lethal, filha de um inimigo morto pelo canadense. E por fim, nas sombras, mas não menos importante, Spiral, responsável por transformar a maioria dos membros do grupo - incluindo o próprio Pierce - em ciborgues super poderosos. 



Novamente, tropes típicos de aventuras dos quadrinhos, subvertidos e utilizados dentro da trama, como limitadores dos heróis. Quando os inimigos passados de Logan se reúnem e voltam, eles retornam muito mais fortes e capazes de trazer os heróis abaixo.

A arte de Marc Silvestri durante essa edição é algo espetacular, conferindo a devida gravitas aos eventos ali narrados. Não apenas na imagem mais famosa dessa edição e uma das mais famosas de toda a história dos personagens que é a capa, mas em momentos muito particulares como a página de abertura, ou a forma como a morte dos x-men é mostrada nos devaneios febris de Logan. Tudo isso em um crescendo até a tensão atingir seu pico com Wolverine se libertando da cruz em meio a tormenta que se aproxima. 





Enfim, não foi preciso muito tempo para quebrar o principal time gene-x do planeta. E o que isso diz a respeito do grupo? E principalmente, o que isso diz sobre seus líderes?

Esta é uma das várias mortes do sonho de Xavier, onde ele vai "mutar" para algo diferente. Não a primeira e nem a última delas. 

E toda morte é traumática, seja ela literal ou simbólica. 

Mas não coincidentemente, esse é o time que teve como um de seus membros a Fênix. "Evolua ou morra". 

É hora dos X-Men renascerem das cinzas.

Provavelmente uma das minhas edições favoritas de UXM e um dos pontos de virada da série como um todo. Considerando toda a jornada até aqui e os rumos que ela ainda virá a tomar, é um milagre que esse gibi exista da forma como foi publicado. Mas não é pra menos que a era Claremont é um dos nortes que todos os roteiristas depois dele usam como molde-mestre no processo de redefinir os personagens e criar algo novo.

E algo novo e profundamente ousado foi esse período que conhecemos como "the outback era". Se não por nada, esses foram os MEUS X-Men, a era que eu pulei pro título e meu primeiro contato com os personagens, de fato. Assim como foi para uma geração inteira. 

Um dos melhores momentos da longa e rica história mutante. E que termina aqui. 

Outras reflexões

- Outro efeito borboleta: se Jubileu não tivesse ido escondida até a base dos mutantes, não haveria ninguém para ajudar o canadense após este fugir da cruz, depois de dias e mais dias de tortura e, provavelmente, ele terminaria morto pelos Reavers.

- Eu mencionei como a história não é simpática com os líderes mutantes. Vou me adiantar aqui: isso não perdoa nem mesmo Psylocke que, após a morte de Ororo, acabou tomando pra si a função de líder do grupo. Se o portal do destino é gentil com alguns dos x-men (Dazzler e Colossus) e menos com outros (Havok, merecidamente), ele é particularmente sádico com a britânica, que termina caindo nas mãos do Mandarim, arqui-inimigo do Homem de Ferro, e com sua mente presa em um corpo estranho (que seria sua morada por décadas, até a era Krakoa separar Betsy da Kwannon, a dona original do corpo que ela tomou) e sendo usada como assassina em seu exército. 

- Ignorei solenemente as duas edições passadas na Terra Selvagem porque é uma historia menor. Mas preciso mencionar que tem algo profundamente satisfatório em ver Alex Summers se provando mais uma vez como um dos personagens mais incompetentes que já passaram pelas fileiras mutantes, se enfiando em uma missão de resgate e terminando tendo que ser resgatado pela mesma pessoa que ele pretendia salvar. Classic Havok. 

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É isso crianças.

Existe uma parte 2 desse texto, focado principalmente nos vilões dos X-Men durante esse período, mas, por hora, não sei se ainda passo por algum gibi da era Claremont ou se vou para águas ainda mais estranhas (e algumas até apócrifas, se me permitem o pequeno spoiler) e deixo essa época para revisitar futuramente.

Anyway, vocês vão descobrir isso logo. 

Hasta.

A seguir: ???

terça-feira, 16 de maio de 2023

Em Rumo a Krakoa: "Um tiquinho de sorte a mais"

Essa é a segunda parte do texto sobre Longshot publicado semana passada. Era pra ser um textão só, mas ficou tão grande e com tons tão distintos que eu preferi separá-los. Pra acessar a parte 01, é só clicar aqui. 


Cap 01: Theo.

Então, na segunda edição, somos apresentados a Theo. Theo é um pai de família exausto por causa do trabalho mas também, e principalmente, por causa da TV, fonte constante de más notícias e espalhando miséria por toda a sua programação. Absolutamente sem forças, Theo saca uma arma, dá um tiro na televisão e segue noite adentro, decidido a dar cabo da própria vida.



Para sorte - ou azar - dele, ao se atirar de uma ponte, ele acaba caindo em cima do corpo de Longshot, atirando no rio pelo diretor do filme em que trabalhava depois de um acidente onde o protagonista da série foi dado como morto. Recuperado dos ferimentos, o herói decide partir em uma aventura com Theo como forma de provar para o homem que ele não deveria se matar. 

Aqui cabe uma menção a um de meus filmes favoritos da vida, o clássico Blue Velvet, de David Lynch. 

Blue Velvet, resumindo MUITO, é sobre Jeffrey um garoto que vive uma vida suburbana confortável em um ambiente que é a definição do sonho americano: casinha amarela, cercadinho branco, uma namorada loirinha adorável e tals. Jeffrey também é um rapaz PROFUNDAMENTE entediado com a própria vida e vive ansiando por aventuras como as que vê em filmes e tvs. Então, quando um dia, o rapaz encontra uma orelha decepada no chão, ele decide investigar o que ocorreu, tentando trazer alguma excitação pro próprio cotidiano. E essa decisão vai enfiá-lo em algumas das situações mais tensas e sinistras que os senhores podem imaginar. Ao final, Jeffrey volta para sua vida confortável. Não mais ansiando por emoções intensas, mas feliz pelo que tem. 

Blue Velvet não é um elogio ao cotidiano, mas uma obra sobre como só valorizamos uma vida tranquila no momento em que as coisas começam a sair do prumo. Eternamente insatisfeitos, ansiamos, em momentos difíceis, pelos bons e velhos tempos, pelo tal "tédio cotidiano", apenas pra ficarmos irrequietos e insatisfeitos quando finalmente nos vemos em meio a ele. 



Da mesma forma, Theo precisa quase morrer ao lado de Longshot, que vai encontrar seus adversários e ter que lutar contra eles, para valorizar o que tinha com sua família. Ao final, ansiando pela volta a seu lar e agora transformado pela experiência de quase morte, Theo quer apenas uma vida normal. Porque, as vezes, de fato, precisamos viajar pros rincões mais distantes para finalmente atingirmos o estado de iluminação de que o lugar onde éramos felizes era o mesmo lar do qual saímos entediados e pra onde, agora, ansiamos retornar. 

Capítulo 2: Quark

Eu nunca vou esquecer das palavras de Killmonger ao final de Black Panther, a respeito de preferir a morte ao aprisionamento: “Bury me in the ocean, with my ancestors that jumped from the ships, because they knew death was better than bondage.” . Durante sua jornada, Longshot vai conhecer Quark, outro habitante do Mojoverso. Ao contrário do protagonista, cujo visual foi concebido baseado nos humanos, Quark teve suas feições moldadas a partir da de um carneiro ou um bode. O rebelde era um estranho no Mojoverso e continua sendo um, em perpétuo estado de não pertencimento, agora no nosso mundo. 


Enquanto Longshot é profundamente otimista, Quark segue pelo caminho oposto, constantemente lembrando o colega de combate de como a morte está perpetuamente espreitando os dois, ali ao lado, esperando pra finalmente alcançá-los. De fato, se conhecer a terra 616 proporciona esperança por parte do herói, Quark, por sua vez, só consegue notar como ele é percebido como um monstro também aqui e, como consequência, o mundo dos humanos não lhe oferece nenhum conforto ou promessa de futuro. 




Sério, eu não esperava um leve debate sobre interseccionalidade em um gibi pop, mas hey, aqui estamos. Resumindo MUITO, interseccionalidade é a combinação de dois ou mais fatores que fortemente vão afetar e definir indivíduos. Por exemplo: um homem branco gay e um homem negro gay. Ou uma mulher negra e outra mulher negra mas cadeirante. São pessoas que possuem uma característica forte em comum mas ao mesmo tempo, tem outra que os difere e que, por isso, vai tornar suas vidas significantemente distintas. Duas mulheres vão sofrer machismo da mesma forma, mas a mulher branca vai ter algumas vantagens extras que uma mulher negra, por exemplo, não vai ter. 


Quark é um escravo, tal qual Longshot. Mas ele também é um não-humano e que vai se destacar tal qual uma aberração em um mundo de humanos. E esse é um elemento que, pelo menos inicialmente, Longshot vai ser incapaz de entender. 

Capítulo 3: Arize

Eu disse lá em cima que esse quadrinho tem toda a cara possível de anos 80 mas que, ao mesmo tempo ele tem um apelo atemporal, certo? Quando a gente pensa em algumas obras cinematográficas com esse mesmo tom de "magia" nessa época, que mesmo entre outras obras igualmente boas se destacam, tem algumas que vem a minha mente e que guardam fortes similaridades com a minissérie da qual falamos aqui: A história sem fim, o Cristal encantado, Labirinto, Gremlins (só o primeiro). Filmes fantasiosos, mas sérios. Fabulescos mas com os dois pés no real. Mágicos mas sombrios, profundamente sombrios. Passados em mundos igualmente encantadores e aterrorizantes. Mais ou menos como um conto de fadas. E não falo aqui das versões sanitizadas da Disney, mas das versões originais, que envolviam criaturas mágicas e mundos maravilhosos na mesma proporção que falavam de morte, mutilação, canibalismo, abandono parental, incesto e outros tópicos do tipo. 

Em meio a sua jornada, o filho perdido do Mojoverso começa a ter flashes de sua vida passada e um deles fala de seu encontro com "Deus"... de certa forma. 



Buscando informações sobre suas origens, Longshot, ainda no Mojoverso, antes de sua incursão a Terra, acaba encontrando o cientista que criou sua raça, Arize. Em uma história cheia de dicotomias (livre arbítrio vs destino, motivos puros vs motivos egoístas, real vs ficcional, tecnologia vs mundo natural), temos aqui, talvez, a maior delas: Arize vs Mojo. Ambos são apresentados enquanto lifebringers, criadores de vida. Artistas.


Mas enquanto Mojo é o burocrata, o engravatado, o executivo mais preocupado com quanto lucro suas produções vão trazer para os acionistas, Arize carrega em si a persona romantizada do artista. Eu falei acima da dicotomia entre tecnologia vs mundo natural, mas, sendo honesto, isso é um reducionismo. Sim, claramente Mojo e sua raça de spineless ones são usuários de tecnologia que, pelo menos nesse momento da hq, parecem oferecer forte contraponto ao mundo de tons fantasiosos de Arize. 

Mas enquanto este é, também, um cientista, Mojo e sua raça, por sua vez, são usuários de magia. Magia sempre é utilizada, na ficção, como um elemento "natural", uma fonte cósmica de energia que se contrapõe a construtos científicos. De outra forma: não se trata de energias naturais vs construções tecnológicas, magia vs "industrialismo", mas sobre a partir de qual perspectiva tais forças vão ser utilizadas. Arize combina ambas para construir coisas maravilhosas. Mojo, por sua vez, violenta tais conceitos e os dobra para que sirvam a sua vontade, apenas como ferramentas para dominar o mundo. O Mojoverso e seu aspecto corruptor e corrupto, é fruto dessa combinação. Da mesma forma que o próprio Longshot. A diferença entre ambos é a intenção por trás desse uso. 

Capítulo final: Longshot.

O menino que queria ser um humano de verdade. Eu citei várias vezes contos de fada ao longo desse texto e obviamente isso não foi algo randômico. Contos de fadas geralmente são sobre a inocência infantil sendo confrontada com a dureza da vida adulta. "Não vá andar na floresta escura". "Não aceite doces de estranhos". "Não desobedeça seus pais". "Ambição é algo importante, mas ambição demais pode destruí-lo". Apesar de Longshot começar a história já como um adulto, sua condição amnesíaca, além da sua personalidade, conferem a ele certa inocência infantil. E por mais que inocência seja algo valiosíssimo e que precisa ser protegido a todo custo, se tornar um herói, que é o que ele quer, significa confrontar as sombras da vida. Proteger o bem invariavelmente significa confrontar o mal.




O herói é aquele que de forma altruísta, se coloca na posição de ter que abrir mão da própria inocência e enfrentar a maldade, a crueldade e a injustiça de nosso mundo, exatamente para que ninguém mais tenha que fazê-lo. Essa é a natureza, a benção e a maldição de ser um herói. Jesus pregava o amor e terminou crucificado. Hércules corrigia injustiças e terminou matando a própria mulher e seu filho no processo. 

                                     

                                      


"A recompensa do Batman é ser o Batman. De novo e de novo, eternamente" como diria Neil Gaiman em seu clássico "What happened to the caped crusader?". A palavra "milagre" é utilizada diversas vezes nos diálogos dessa HQ. Longshot é um homem de milagres, fruto das ações de um "lifebringer". Seus poderes oscilam entre o humano (tecnológico) e o mágico (espiritual, metafísico).

Tal qual um buda, sua missão final é voltar, trevas adentro, para resgatar seus irmãos perdidos em meio a elas. 







Não dá pra desconsiderar que o próprio Mojo vê o apelo comercial do conceito do herói abnegado que luta contra a realidade que lhe foi imposta, perpetuamente derrotado mas perpetuamente se erguendo de volta. Diabos, isso é um gibi de heróis. Sabemos que eles NUNCA vão salvar o mundo de fato porque a) o mundo não pode ser salvo e b) porque se eles conseguirem, não haverão mais histórias para serem contadas. A máquina precisa continuar funcionando e os acionistas precisam continuar felizes, com suas fortunas em ascensão. 



O mundo é um lugar horrível onde mesmo a rebeldia é comoditizada. É em cima dessa navalha que a figura do herói precisa aprender a dançar. 

Mas a escolha foi feita e a decisão, tomada. Longshot decidiu voltar e resgatar seu povo do domínio de Mojo. Porque essa é a sua natureza enquanto homem livre. E, mais importante, sacrifício é um dos materiais dos quais heróis são feitos. E Longshot é, acima de tudo, um homem livre e um herói.  

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O texto deveria terminar no parágrafo acima. Ele conclui todo o processo de raciocínio.

No entanto eu queria falar sobre o seguinte: 

Recentemente, a Marvel criou um novo título chamado X-Men: Legends, cuja proposta é trazer equipes criativas clássicas dos X-Men para que possam contar novas histórias sobre os personagens que os consagraram e, se quiserem, amarrar pontas que, por qualquer motivo, foram deixadas soltas. 

Um desses artistas convidados foi Ann Nocenti, que decidiu, pela primeira vez em muito tempo, voltar para o Mojoverso e contar mais uma aventura estrelada por Longshot, desta vez com arte de Javier Pina. 

Passada imediatamente após o final da minissérie original, vemos Mojo, Spiral e Longshot portal adentro, de volta ao Mojoverso. 



Apesar de claramente ser uma história menor, é interessante ver os criadores retornando ao personagem, supostamente imerso ainda nos anos 80, mas com a mentalidade de hoje em dia. Piadas sobre o atual estado da industria cultural não faltam. 



Na trama, Mojo rapta Kitty e Logan e faz lavagem cerebral neles para que, adivinhem, possam atuar em suas produções cinematográficas. Novamente, vemos os personagens enfiados em cenas de batalha sem qualquer motivação ou razão evidente, apenas porque....bom... porque violência é legal e vende. 



Com a história sendo produzida em um mundo pós internet e com todo o impacto que o mundo virtual causou no mundo "real", os autores mandam sua cota de jabs contra o vazio cultural de nossos dias e contra os aspectos mais idiotizantes da cultura mainstream.





Achei charmoso o link com futuras aventuras envolvendo Longshot e personagens como os X-Babies que Nocenti deixou no caminho, um presentinho pros fãs que seguem lendo o título há décadas. 

Essas duas edições servem como um apêndice, um epílogo interessante na história do personagem. E uma rápida crítica sobre como, mesmo com todos os sinais e vários artistas berrando a esse respeito, nos tornamos exatamente o tipo de sociedade que a arte criticava nos anos do pós-modernismo desconstrutivista oitentistas. Cheia de pessoas brigando em defesa de corporações bilionárias, fandoms que se definem por aquilo que consomem e pessoas utilizando seu amor por arte como forma de oprimirem outras. 

Se a mini de 85 era um "tomem cuidado", essa aventura mais recente é Ann Nocenti em seu pleno direito de mandar um divertido "eu avisei".

A seguir: 



Os loucos tomaram conta do sanatório...

  O lendário show do Cramps em um asilo mental em 78... Venus Lux, Poison Ivy e banda, completamente soltos tocando pros internos e interagi...