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segunda-feira, 24 de junho de 2019

Doom Patrol s01e15: "Ezekiel Patrol" - "When the shit goes down ya better be ready"


So....this is it.... the end.
O fucking final.
Curioso pensar que agora, enquanto escrevo esse texto encerrando a série de recaps cobrindo o show, eu não consigo me lembrar qual foi o gatilho que desencadeou meu interesse inicial no programa. 
Eu lembro de ler comentários, aqui e ali, lembro de ter asco da idéia de assistir Doom patrol por causa da associação com a série dos Titans, uma das piores coisas que resultaram desse casamento entre tv e quadrinhos (e vejam bem, eu vi aquele desastre que foi a season 2 de Demolidor). Eu lembro de ver as pessoas erradas elogiando o show (o tipo de gente que ainda vê Arrow e  que curtiu Defensores e que vai bater palma pra qualquer coisa com o selo "nerds" pq esse é o parâmetro que elas usam pra se definirem como indivíduos). Mas aí, eu tenho vaga lembrança das pessoas certas elogiando o show. E começaram boatos sobre Flex Mentallo e Danny, the Street. E as pessoas certas começaram a falar mal do show (as mesmas descritas 4 linhas acima). E aí alguém mandou uma comparação com Legion. E quando eu vi, eu estava fisgado. 
O piloto foi bem decente. "Vamos ver qual é que é".
Quinze episódios depois, eis-me aqui, dotado daquela perspectiva que o tempo nos dá, capaz agora de olhar pra temporada de estréia da série à uma dimensão de distância, tal qual o próprio Mr. Nobody faz. E minha opinião dessa história, agora dotado da ciência de pra onde os roteiristas queriam ir e tals?
Eu gostei............ em partes. 
Partes do final funcionaram perfeitamente em mim. Uma parte dele, uma particularmente grande, devo dizer, não muito. Primeiramente, lidemos com o fallout do ep. anterior: como tencionava o Mr. Nobody, o time foi completamente destruído. Larry e Rita terminam morando juntos, num arremedo de vida "normal". Cliff segue aos trancos e barrancos. Jane procura alívio em drogas, completamente entorpecida em seu safe space. Ciborgue continua  no bom combate, mas em uma escala menor, menos "JLA" do que a que ele pretendia no começo da série. E é isso. Até que a força das circunstâncias - e um karaoke particularmente tosco de Eugene - reúnem aquelas pessoas em uma ultima missão de resgate para Niles, o patriarca proscrito daquele grupo. And way we go...



Okay, agora que estamos aqui, um pequeno desvio na rota: afinal, sobre o que diabos é essa série? O que ela quis passar? Qual a mensagem dela? E como esse final funciona dentro desse macro-tema que, supostamente, percorreu cada um de seus quinze capítulos?
Acho que o momento que posso usar como melhor referencia pra começar a responder essa pergunta ocorre bem no comecinho de "Ezekiel Patrol" quando Morden, vitorioso e com sua obra prima completa, indaga um destroçado Niles: "Como é se sentir um ninguém?"
De certa forma, eu consigo encapsular a série inteira nessa pergunta. Doom Patrol sempre foi sobre little people, gente quebrada, reagindo aos mandos e desmandos de gente poderosa. Os nazistas de Fuchstopia, os religiosos da ordem do livro não escrito, o Bureau of Normalcy. Faces diferentes representando a mesma coisa: braços da ordem estabelecida como a conhecemos (exército, religião, estado) impondo sua vontade sobre o "povinho". A Doom Patrol nada mais era do que esse mesmo povinho, ciente do próprio poder, decididos a derrubar esse "sistema" (a escolha de palavras aqui não foi aleatória) em prol de algo melhor pq, afinal, TEM que haver algo melhor.



A Patrulha original e o episódio passado no underground da Jane nada mais são do que o time lidando com as consequências da ação dessas mesmas forças do poder estabelecido em gente como eles próprios. Os restos mortais da ação do establishment, voltando pra morder o pé de seus algozes. O que nos traz ao suposto nêmesis do show, o big black hat, o grande vilão. Mr. Nobody. Mas lembremos que no mundo dos quadrinhos, normalmente o arqui-inimigo do super herói é um reflexo distorcido dele mesmo. De um lado temos Superman, do outro Luthor, ambos funcionando como visões do potencial da humanidade, bom e ruim. De um lado temos o Homem Aranha, do outro temos Norman Osborn, ambos cientistas com uma mente prodigiosa, diferentes apenas em virtude do que decidem fazer com suas habilidades.
De um lado Xavier, do outro Magneto. Batman e Coringa. David Dunn e Mr. Glass. Neo e Agente Smith. E por aí vai. Morden, é, ele ´próprio, também um "little people", uma pessoa que nem a gente, na base da pirâmide social, um boneco de marionete nas mãos de quem detêm o real poder. E como nos quadrinhos, seu masterplan não envolve dominar o mundo, mas tal qual o trickster que é, revelar a verdade diante dos olhos que fogem dela, doa a quem doer. E essa verdade é que o inimigo do grupo estava mais perto dele do que eles imaginavam. Vem a revelação final e todos esses vilões são reunidos na forma de uma figura simbólica, um fantasma na vida daquelas criaturas: a figura do pai abusivo. Pq afinal, o que é o estado fascista além de um gigantesco pai que acredita que sabe o que é melhor pros seus filhos e vai lembra-los disso a base de muita opressão e violência? E afinal, uma parte substancial da dor dos 5 membros do time vem, em parte, do fato de serem maus pais (Cliff, Larry e Rita, que na posição de mentora, foi uma mãe ruim de todas as meninas que "aproximou" do produtor abusivo com o qual trabalhou. E não coincidentemente, o principal trauma que ela vivenciou, consequência direto disso, é relacionado com uma gravidez indesejada) ou de serem filhos de maus pais (Jane, caso mais claro. Silas não foi um mau pai, mas um que tomou algumas decisões particularmente infelizes e que resultaram em um abismo emocional entre ele e Victor).  Os dois piores monstros da série, Niles e o pai da Jane, tem a força que tem e fazem o estrago que fazem pq simbolizam o cisma primordial (o momento em que o que nossos pais querem e o que nós, enquanto indivíduos, queremos, vão em direções opostas) e, como consequência, o ato de rebeldia primordial (quando verbalizamos essa oposição pela primeira vez). Vc, meu ímpio maldito lendo isso, teve seu primeiro momento como indivíduo autônomo e independente quando, pela primeira vez, se distanciou da obediência cega aos pais, quando vc decidiu se afastar das crenças deles. Acontece com todo mundo. Mas é doloroso. Pq os pais, sejam eles indivíduos humanos ou instituições sociais, não gostam de desobediência e eles costumam deixar bem clara sua desaprovação quando contrariados. E, spoiler alert: Eles detêm o poder. Físico e financeiro. E emocional. Nem todo pai é um fascista em potencial. Pessoas diferentes entendem os filhos de formas diferentes, mas mesmo o hippie mais partidário da "auto-gestão" vai deixar claro, ainda que de forma passiva, o desapontamento com sua prole quando esta declara crença em algo que vai contra as deles próprios. E esse é o momento em que pessoas se definem como pessoas. Por isso a cisão é tão dolorosa. E isso com pais normais. agora, imaginem o quanto isso é amplificado quando vc se vê sob controle de um pai abusivo?






Essa é a situação da Patrulha nesse episódio. O que nos traz ao ponto que eu não gostei da história. 
O final. Não os eventos que ocorrem dentro do quadro, aquilo foi pura empatia do grupo para alguém em situação de risco, precisando de ajuda. Aliás, esse é o momento mais catártico de "Ezekiel patrol", quando, contrariando o que seria de se esperar, eles decidem agir como grupo e resgatar a filha de Niles. Essa catarse vem por este ser o primeiro momento deles, como um time em que todos ali tem autonomia real sobre o próprio destino. 
Não os eventos dentro do quadro, pq aquilo foi awesome.
Mas o final mesmo, a cena que encerra o episódio. Aquele sorriso trocado entre os personagens e seu mentor. Pq todas as cisões do tipo vistas na série, foram definitivas e brutais. Jane matando os nazistas, o grupo descriando o DeCreator, a surra que o agente Jones leva e a posterior destruição do Bureau pelas...hã...angry butts.... E claro, a pior de todas, a vitória de Jane e Kay sobre seu pai abusador. Todas foram vitórias indiscutíveis e sem disfarce, momentos em que o band aid foi puxado de uma vez e sem dó. E aí termina o ep. e só faltou a piada final, estilo episódio do He-Man, com todo mundo rindo junto. Pq, não nos esqueçamos, independente das motivações de Caulder, ele foi um monstro que arruinou as vidas de DOIS times da Doom Patrol, que pretendia, caso a atual formação não desse certo, abandona-los como um projeto falho e tentar de novo e de novo e de novo, até ser bem sucedido. Não é o tipo de coisa que se perdoa com 5 minutos de conversa e meia duzia de sessões de terapia coletiva. Um dos riscos de se reverter a situação do grupo ao status original é cair na glamourização da dor com a série deixando implícito que as tragédias impostas ao time pelo seu ex-protetor são responsáveis pela paz de espírito que eles encontraram no decorrer do programa, o que seria algo desastroso. O preço disso talvez seja perder a brilhante atuação de Timothy Dalton no show, mas, hey, cortar o cordão umbilical é sempre um processo tenso. Não seguir adiante seria desrespeitoso com toda a jornada que experienciamos junto com aquelas pessoas. Se o plano for manter Niles numa potencial - e ainda incerta - season 2, vão ter que gastar o devido tempo explicando como - e SE - a relação entre tais sujeitos foi posta em ordem. Não que eu ache isso possível, mas....





Mas vou tentar ser copo meio cheio aqui: aquilo, no final,  foi só uma cena e, no máximo, o time deve continuar a manter laços com o chief por causa do futuro da jovem Dorothy. Mas de forma distante, com a relação entre eles sempre com uma falha, como um cicatriz que nunca desaparece. E apenas pq aqueles indivíduos decidiram que é o que querem pra eles. pq agora, eles se percebem (pra quem pensou que eu não enfiaria a palavrinha percepção em algum lugar do texto final sobre o show, tomem essa) como criaturas donas da própria narrativa, literal e metaforicamente falando.  As feridas estão abertas e duvido que se fechem. Mas o processo de cura começou, o que já é algo. A cena entre Jane, Dorothy e Niles dá sinais de que a retomada de laços não é impossível. O final de "Ezekiel patrol" é o doloroso e hesitante primeiro passo de um longo trabalho e de uma longa e tortuosa jornada. Mas ainda assim, um primeiro passo e, afinal, toda viagem, independente de sua natureza, duração e dos riscos envolvidos, começa com um.





- Sobre o episódio em si: tivemos Danny, the street, tivemos Ezekiel, tivemos Flex, ainda que só indiretamente e tivemos Admiral Whiskers. Não tinha como não ser épico. Sobre os dois kaijus do ep, inclusive: falei acima sobre fascismo e o simbolismo pra este que rola por toda a série e não consegui não enxergar os dois monstros como facetas desse conceito que, inclusive, não é estranha pra ninguém nos dias atuais.




Mr. Nobody usou Danny e Ezekiel o quanto pode e os empoderou, até que eles, grandes demais, voltaram pra morder a mão que os alimentou. Whiskers, um animal associado frequentemente à doença e lixo (white trash?). Ezekiel idem. Ambos abraçaram o fanatismo religioso e a opressão como formas de vingança contra "tudo isso que tá aí". Parasitas usando fé e raiva como ferramentas de se agigantarem diante do mundo, de ganhar um poder que não merecem e que jamais conseguiriam de outra forma, rancorosos pela própria insignificância. Familiar?




- A cena da Jane no seu safe space, completamente letárgica, me lembrou o encerramento de Paranoia Agent. O anime, de autoria de Satoshi Kon, é igualmente cabeçudo e cheio de simbolismos. Recomendo com força.




- Larry parece o que está em melhor situação no começo do episódio, mas roteiro e direção  encontram uma forma bem elegante de mostrar que o personagem se encontra no mesmo estado emocional que seus colegas: o local onde ele vai pra liberar o negative man, onde a casa em que ele e Rita moram fica, é quase idêntico ao safe space da Jane. Não é uma coincidência que a ação e a retomada de poder começa pros dois no momento em que eles dão as costas pra esse lugar. No more hiding. 
- Achei curioso que Mr. Nobody pode redefinir a realidade via narração pq se encontra numa dimensão acima ao dos personagens da série. Ele, por sua vez, vive no white space das hqs. Posso estar lendo demais aqui, mas vejo isso como um sarcástico lembrete de que os gibis são a fonte original dessas histórias e que por mais que o live action faça um bom trabalho de adaptação e por mais que tecnologia de cgi avance e evolua, ainda é uma experiencia secundária. A fonte original ainda são os quadrinhos, o local de real poder daqueles personagens, onde não existem restrições orçamentárias, leis da física a serem respeitadas ou contratos de ator a serem rediscutidos. Papel, tinta e mentes criativas. E o céu é o limite.
- É isso. O final não foi perfeito pra mim, mas foi, indiscutivelmente, muito bom. Pra onde vamos agora, não tem como saber. Hey, nem a season 2 do show ainda é uma certeza. Aliás, nem o futuro da porra da plataforma de streaming para a qual o seriado foi criado é uma certeza. Se houver uma season 2, voltaremos a ela. Senão, foi um bom final, redondinho e cheio de potencial, uma boa história sobre as dores de se virar adulto, de se sobreviver às porradas da vida e de se permitir mudar e adaptar. Evolve or die. A merda sempre vai vir, seja em doses homeopáticas, seja como um tsunami que periga nos engolir. Quando ela vier, como muito bem versaram os membros do Cypress Hill na canção que fecha o ep. e, por sua vez, a temporada inicial da série, o melhor é estar pronto. 


A seguir: Doom Patrol, o gibi. 
And also.... Legion. 

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Doom Patrol s01e14: "Penultimate Patrol" - "What is it that set us free?"



Esse provavelmente vai ser o menor texto da série aqui no blog, cobrindo a primeira - e segundo rumores recentes percorrendo a interwebz, única? - temporada de Doom Patrol. Não pq não tenha rolado muita coisa durante o episódio, mas por que
a) foi um episódio de set up. Quase um prólogo pro episódio seguinte, que encerra a temporada e
b) Pq ele girou quase todo em torno de simulações de realidade criadas pelo Mr. Nobody para despistar seus inimigos, antes da inevitável luta final. Dá pra dizer que o episódio, além da parte um que precede o clímax no seguinte, é um gigantesco preambulo do seu ato final, quando após conseguir superar os labirínticos desafios impostos a eles pelo "vilão", eles finalmente tem seu confronto.
O twist vem, no entanto, do fato de que a "luta" não é física, mas emocional. E o adversário não é o Mr. Nobody, mas o patriarca e fundador daquele time. Pra quem leu a fase de Grant Morrison no título da Patrulha do Destino, não foi surpresa nenhuma a revelação, já que ela rola também na hq. Mas considerando que o Chief da série é bem mais caloroso e humano que o frio e estóico Niles do gibi, o impacto emocional da revelação acaba sendo maior. Caulder foi o responsável pelos horrores que transformaram pessoas quebradas em super humanos igualmente quebrados. 






Há aqui, óbvio e principalmente nos dias atuais, o risco de se glamorizar a dor como mecanismo de desenvolvimento dos personagens. Quem lembra de Sansa Stark quase grata por ter passado por toda sorte de horrores (estupros, inclusive) pq isso a tirou do seu estado inicial de comodismo e a tornou a figura pivotal que ela é ao final de GoT? O roteiro de Chris Dingess no entanto consegue bailar sobre tais questões com a devida graciosidade. Eles não são gratos pelas desgraças que os acometeram, mas já que elas vieram, eles decidem aceitá-las como parte daquilo que os reuniu, que os tornou aptos a salvar vidas e interceder contra injustiças. Eu gostaria de não ter sido exposto ao tipo de coisa pela qual passei quando criança e adolescente, mas aceito esses episódios como partes daquilo que me moldaram e me tornaram a pessoa que sou hoje. Talvez eu seria uma pessoa melhor sem eles? Talvez. Mas talvez, se uma cereja fosse menor e verde, seria uma ervilha. O fato é que é isso que eu sou e é isso que eles, Vic, Jane, Larry, Cliff e Rita são e o que nos resta é fazer a melhor limonada possível com os limões que a vida nos deu. E no processo, salvar o mundo. 
Mas claro que aí vem o final do episódio e o destino reserva uma ultima rasteira bonita para cada uma daquelas pessoas. Era preciso que eles tivessem passado por toda a gama de experiências que viveram desde o season premiere e chegassem aqui já resolutos e seguros sobre as próprias personas para a revelação de Niles ter o impacto que tem (neles e na gente). Uma jornada imensa de auto aceitação reduzida à pó. O grande confronto não ocorre e só veremos o resultado dos eventos ao final de "penultimate patrol" no capítulo final desse primeiro ano do show, mas o que quer que aconteça, houve um "confronto".
E Mr. Nobody venceu. Aquele grupo de misfits é aniquilado. Caulder termina completamente isolado. O que quer que vá surgir dali, vai ser uma besta completamente distinta. 
As peças, se me perdoam pelo uso dessa metáfora clichezenta, estão nos seus devidos lugares. A orquestra, chegou no ponto máximo de seu crescendo. 



Que venha o ato final!!!!

- Cliff, punk até a medula, com camiseta do Bad Brains.
- Episódio, punk até a medula, abrindo com Gimme Danger, dos Stooges



- Adorei os elementos meta do episódio.  Primeiro, temos a menção ao white space, nada mais que o que chamamos de "calha" dos gibis, aquele espaço branco separando os quadros de uma revista em quadrinhos. Segundo vários estudiosos da mídia, entre eles Scott McCloud, é nesse espaço que rola a magia quando lemos HQs. Pq gibi é uma sucessão de quadros e desenhos. Quem transforma aquilo tudo num evento contínuo, sequencial, é a gente enquanto lê, enquanto transitamos entre um quadrinho e outro. 





Rita, por sua vez, literal e figurativamente, decide resgatar de volta a narrativa da própria vida e da história em que está inserida. E claro, não posso deixar de mencionar a frase sobre a real extensão dos poderes de Nobody, capaz de "sequestrar essa plataforma de streaming inteira, se quiser"
- Elegante também o call back do "Booyah" do Cyborg, retomando um comentário de lá atrás, solto de forma completamente descompromissada em "Therapy patrol". 
- "You want to be original". Desculpem, eu preciso falar disso: Mencionei lá em cima, que essa pode ser a última temporada do show, em virtude de boatos que rondam pelas redes sociais. O negócio surgiu depois do súbito cancelamento da série do Monstro do Pântano, depois de UM episódio exibido. Independente das motivações, o lance é que começou uma discussão sobre a Warner, dona da DC e da plataforma de streaming da editora, estar insatisfeita com os programas criados para o site. De acordo com o que alguns sites publicaram, a idéia é algo menos "artsy" e mais "Arrowverse". O que dá um tom melancólico pra frase acima, dita pelo chief a respeito do seu oponente e da resposta dele "I'm not basic". Doom Patrol passa longe de ser básica, sendo uma das coisas mais originais feitas em cima do universo de super heróis em qualquer mídias, mas, assim, DE LONGE. No meu cânone pessoal, depois de mais de dez anos desde que surgiram os filmes da Marvel e as séries da DC na TV, se salvam apenas Pantera Negra, Iron Man 3, Thor Ragnarok, Logan, Capitã Marvel, Infinity War, Endgame, Legion, os dois primeiros filmes do Blade e óbvio, Doom Patrol.
O resto oscila entre o "bacaninha" e o "meh". Se forem verdadeiros esses rumores, estamos de novo diante da típica estreiteza de visão dos executivos, a mesma assassina de preciosidades como Pushing daisies, Firefly, Constantine, Hannibal e outros projetos que acabaram cedo demais, antes de poder atingir seu pleno potencial e contar a história que pretendiam em sua totalidade. Os engravatados da Warner tem uma pérola em mãos mas estão insatisfeitos pq ela não é "básica" o suficiente. 
Espero que os boatos sejam só boatos, mas se não forem, admito: vou ficar decepcionado, mas não surpreso. 

A seguir: Danny. Admiral whiskers. EZEKIEL. Fucking Kaijus. HELL UNLEASHED!!!!!! E o fim....
Also: fiquem com a imagem de Flex, flexionando seus poderosos músculos enquanto segura um gibi....


quinta-feira, 23 de maio de 2019

Doom Patrol s01e13: "Flex Patrol" - "Who's Flex Mentallo?"


Tem algo muito apropriado no fato de estar escrevendo o texto sobre "Flex Patrol" alguns minutos depois de ter visto o trailer do filme novo do Tarantino, "Once upon a time in hollywood". Digo isso pq vi alguns textos e vídeos comentando sobre o fato de Sharon Tate ser uma das personagens do longa. Pelo tom da obra, pelo que ela parece representar, acho seguro dizer que a noite em que a família Manson faz sua trágica visita à casa de Polanski, vai ser o clímax emocional do longa. Meu ponto aqui: Tate muito provavelmente vai representar o espírito vivo do sonho dos anos 60 e sua subsequente morte, o fim desse sonho, desse ideal esperançoso de paz e do futuro como idealizado pelos hippies. Não é pra menos que a morte da atriz é um dos marcos do fim da visão otimista que o flower power pregava, junto com outros trágicos símbolos como a guerra do Vietnã e o show dos Rolling Stones em Altamont, quase um anti-Woodstock. 
Só pra efeitos de perspectiva, se os senhores jogarem 1969 no campo de busca do spotify, a primeira lista de músicas com hits desse ano vem com coisas como "sugar sugar" do The Archies, "aquarius/let the sunshine in" e outras pérolas do otimismo. No entanto, se vcs procurarem por listas de 1970 e 71, o que vem são músicas com títulos como "only the good die young", "joy to the world" (nesse caso, mais um clamor do que uma celebração), "how can you mend a broken heart", "smiling faces sometimes (dont tell the truth)" e outras nesse mesmo tom. Things got dark, meus ímpios. 
Novamente, meu ponto aqui: Fascinante como esse episódio usa essa mudança de tom no tempo, esse processo de desesperança sistemática pra mostrar como a sociedade lida com seus filhos "deviantes". Como fomos de exploradores para caçadores. Pra isso, dá o mesmo uso que Grant Morrison deu para Flex Mentallo quando o criou: ele é aquele espírito vivo do melhor da humanidade e, portanto, imutável. Tal qual o Superman. As pessoas acusam o último filho de Krypton de ser inocente demais mas o lance é o inverso: a sociedade é que ficou excessivamente cínica a ponto de condenar quem pensa diferente. Pq é assim que é e é assim que sempre foi. Só que não. A idéia do Superman é que dá pra ambicionar um pouco mais, querer ser um pouco mais, não é preciso se conformar com injustiças. O mesmo vale pro Flex. 
O problema, e o fascinante com ele - e creiam-me, gastei uma quantidade obscena de tempo e energia esmiuçando isso nos meus artigos sobre a minissérie do Flex - é que o que queremos e esperamos de nossos heróis mudou. A questão é: o que isso diz a nosso respeito, enquanto sociedade?
Sintomático que Flex seja capturado usando o "ato de heroísmo" arquetípico de qualquer super herói, o básico do básico, lição encontrada na introdução do livro "superheroism for dummies": tirar um gatinho da árvore. 



Nada é mais era de ouro dos super heróis que isso. E o fato de terem corrompido isso para capturar Flex é muito carregado, simbolicamente falando.
Nunca existiu uma "era melhor".
Qualquer um que disser pra vcs, meus ímpios, que "antigamente era melhor", fala isso de uma posição de privilégio. Sim, se vc é filho de um homem branco nascido no baby boom dos anos 40, provavelmente pra vc, era uma era idílica. E mesmo assim, é preciso uma conjuntura de fatores absurda pra isso, mas vá lá, façamos um exercício hipotético. Mas se vc era qualquer coisa diferente de um homem branco com $$$, meu amigo...... Talvez suas memórias sejam um pouco mais cruéis. Negros, homossexuais de todo o espectro, mulheres. E mesmo o tal homem branco "ideal", vivia sob o peso e a pressão de ser um bom representante desse sonho americano da casa amarela com cercadinho e a família com mulher e dois filhos esperando em casa. E pressão é a palavra chave aqui. 
Nunca houve um "tempo melhor". Por isso heróis como Kal-El e Flex funcionam tão bem: pq o ideal que eles almejam sempre foi difícil de se alcançar, nos anos 30, 60 e nos 2000. Por isso eles funcionam tão bem como símbolo de suas épocas: o que mudou foi todo o entorno. E essa é a graça deles: como manter seu ideal quando as bases desses mesmos ideais mudaram tanto em sua  essencia, conceitualmente? 

uau.... isso é um preambulo, né? Jesus.



Enfim: peguem uma água, um suco, um guaraná, um toddy, que o texto vai ser longo.

O lance do Bureau e da mudança do foco não é uma coisa só acentuada nesse episódio, mas vem pela temporada inteira. No começo do século, quando o mundo ainda era um local misterioso, éramos exploradores. Daí vem figuras como Gunga Din, como Doc Savage, como Tarzan. Sim, okay, sempre o olhar era o do homem branco e sempre daquela perspectiva de quem enxerga sociedades inteiras da mesma forma que uma criança usando um galho pra cutucar algo desconhecido pra ela. Sim, de forma exploratória em muitas vezes, condescendente em outras, imperialista na maioria delas. Mas pelo menos na ficção, a coisa era uma troca mútua de culturas: Savage e Tarzan conheciam criaturas extraordinárias mas se permitiam mudar com esse contato. É aquela coisa do Doctor Who ou de Tom Strong: quando eu vejo o incomum, meu olhar é de encanto, de "caralho, que coisa legal". No entanto, duas guerras mundiais e uma quase-guerra entre EUA e URSS mudaram o olhar: antes, a porta pro desconhecido prometia mundos maravilhosos e aventuras. Agora, a porta esconde um monstro nas trevas, esperando uma oportunidade pra pular pra cima da gente e nos devorar. O estranho deixa de ser um amigo em potencial e passa a ser o inimigo. De novo: me concentro na ficção e nos nossos heróis. No mundo real, eu sei que o olhar pro "outro", pro "estranho" sempre vem acompanhado de certo medo, historicamente falando.
O Bureau of Normalcy nada mais é que o sonho molhado de todo fascista que tem em Don Draper seu "homem ideal", independente do quanto Mad Men passa um tempo imenso mostrando a dor de ser o tal "Cary Grant type of guy" do qual Tony Soprano sentia falta. Terno alinhado, cabelo idem. Normal. Darren Jones é um desses homens e sua cruzada contra os "abnormals" que encontra vem do fato de que a própria existência desses é uma afronta desse sonho, não apenas pq prova que existe gente diferente desse ideal. A afronta suprema vem do fato de que existe gente que NÃO QUER TER esse ideal, a negação desse sonho de pureza e homogeneidade. 
Não é pra menos que o episódio começa em 64, ano pivotal pros americanos (e aliás, pra gente tb aqui na parte de baixo do continente): Um ano antes, Kennedy é morto. Os Beatles invadem os EUA via Ed Sullivan show, trazendo todo o boom da cultura jovem com eles.  Rolling Stones lançam seu álbum de estréia. Dylan, sempre um visionário, grita: times, they are a-changing. Começam os race riots no Harlem. Lyndon Johnson assina o Civil Rights Act tornando crime qualquer forma de racismo, como resposta ao assassinato de 3 ativistas negros pela KKK. Luther King ganha o nobel da paz.
Sim, os tempos estão, de fato, mudando. E, como testemunhamos recentemente, sempre que os tempos mudam, tem o backlash. As minorias ganham força? A "maioria" chora. Quer pegar os direitos "de volta". Quer tomar a bola e parar de jogar.  A história é um ciclo, né?



Depois de ser capturado, Flex é mantido preso após ver sua mulher, Dolores, cativa. Numa tv. Em branco e preto. A mudança tonal se mostrando de novo: saltamos das insossas novelas americanas dos anos 60 pra imagem em p&b de uma mulher sendo torturada, uma forma bem eficaz e sutil de falar da espetacularização da violência na cultura pop. E se não ficou claro, Jones afirma com todas as letras: 







Cultura pop sempre foi um meio de passar idéias imperialistas. Eu adoro o Superman, mas entendo quando pessoas rejeitam o personagem como uma ferramenta pro governo americano colonizar crianças culturalmente. Diabos, não dá pra falar do uso de cultura pop como ferramenta ideológica sem lembrar o "you can slap a jap" ou do uso de hqs como ferramenta contra comunistas na época do Macarthismo. 



Ou do cinema, ou da tv, etc. etc, etc. Watchmen e Civil War (a hq, nunca vi o filme) falam exatamente isso: os heróis sendo alistados como a mão opressora e regulatória do estado. 
Eu falo de percepção (demorei pra usar o termo, né?) e é isso. Existem dois "vilões" na série até agora. O BoN e Mr. Nobody. O último é mercurial, ainda não está claro o que ele quer. Nos quadrinhos a linha é ainda mais turva: o personagem é menos um vilão e mais um trickster, alguém que não quer dominar o mundo, que não faz o que faz por crueldade, mas por querer balançar as crenças e percepções da sociedade, o que ela tem de estrutural, seus dogmas, botar uma lente em cima disso e perguntar pra gente, enquanto grupo, pq temos tais regras como pétreas e se não dá pra querer algo melhor. Via caos, via choque, mas ainda assim. Falo mais das hqs no futuro, já que quero escrever aqui sobre os gibis da Patrulha, quando essa temporada acabar. 
Sobra o Bureau então no papel clássico do vilão. A anti-Doom Patrol. Se os filhos adotivos de Niles são o bizarro, a corporação representa o apego ao normal, a voz da nostalgia por um "tempo melhor" que, como já afirmei nesse texto, nunca existiu. Percepção. A deles, os fascistas, sendo corroída por dentro. A nossa, dos estranhos, dos weirdos, das "aberrações", lutando pelo lugar ao sol. Por isso a Patrulha, em minha relativamente humilde opinião, funciona melhor que os X-Men ou a JLA como heróis e, mais ainda, como símbolos. Pq eles são os Morlocks, a periferia do universo de super humanos. Eles são quebrados, ocasionalmente patéticos, imperfeitos até a medula. Mas ainda assim, lutando o bom combate, mesmo quando o mais natural seria desistir. 
"Normal é superestimado"
Mais do que isso: Normal nunca existiu. 



- Rita finalmente tem seu segredo sombrio trazido à luz. Mr. Nobody tem um plano. E eu não faço idéia de qual é. 
- Inicialmente, admito, eu não entendi, considerando tudo que tava rolando no episódio, qual é que era da trama do Larry, já que o conflito nunca existiu de fato, posto que era óbvio que o espírito negativo iria voltar e salvá-lo. Mas na segunda "assistida", ficou claro que o lance é deixar claro que o conflito entre ambos acabou e agora eles convivem em harmonia. No ep. passado, Larry abraçou seu inner passenger. Nesse, a criatura voltou por vontade própria. 
- A piada envolvendo soap operas e o fato de Cliff e Jane terem acreditado tão rapidamente nas palavras de Flex parece apenas uma tiradinha engraçada, mas tem algo muito honesto naquilo: novelas são ridículas. Novelas americanas então, fazem até novela brasileira parecer Shakespeare. E quadrinhos, por sua vez, apesar de tudo que o fandom pensa, também, cheios de sense of wonder, mortes e ressurreições, clones evil e os cacetes. E. Tudo. Bem. Com. Isso. Doom Patrol abraça o weird de um jeito que as hqs fazem desde que surgiram e essa é uma das coisas que fazem os gibis minha mídia favorita. O uniforme dos super heróis não funcionam na vida real e sabe pq? PQ ELES SÃO RIDÍCULOS. E TUDO BEM COM ISSO. Homens capazes de mover montanhas tem como inimigos cérebros dentro de jarros, vermes sencientes e criaturas saídas de livros de contos de fadas. Planetas sencientes. Devoradores de mundo usando saias. PATOS DE TERNO. E tudo bem.





- Linda a cena de Cliff finalmente, FINALMENTE, tirando a cabeça de dentro do próprio traseiro e pedindo desculpas pra Jane. Demorou mas o Robot Man entendeu que se aproximar de alguém como ela demanda paciência e, sobretudo, tato. Não se trata de "salvá-la" mas de ouvi-la e simplesmente estar lá pra ela.
- Que foda, que foda, QUE. FODA. ter visto Ed Asner aparecendo na série. Ele apareceu em zilhões de coisas. Talvez, a mais famosa delas, recentemente, tenha sido sua interpretação como a voz original de Carl Fredericksen em UP. Mas sério, o currículo do cara é algo impressionante. E ele esmerilhou aqui. 
- Sério, desculpa, eu preciso retomar um ponto da trama principal que eu já falei e falei falei horrores acima: 



Vejam bem, eu acho o corpo humano um treco asqueroso. Mas mesmo eu nunca entendi essa neurose de gente "normal" com relação ao corpo alheio, pudor, "defesa da decência" e os caralhos. 
- Ainda sobre o agente Jones: "o preço da liberdade é a vigilância perpétua". Eu critico a direita direto, e de fato, fascista bom é fascista morto, mas a esquerda, como o mundo viu nos últimos anos, também tem seus pecados, sendo o pior deles, a crença confortável em achar que suas conquistas são definitivas. Não são. Semana passada, vimos estados americanos recriminalizando o aborto. No Brasil - aliás, em qualquer país sofrendo essa maldita onda reaça que tá tomando o mundo feito um câncer - direitos conquistados a duras penas estão sendo derrubados em defesa dos direitos das elites. A cada nova conquista é preciso lembrar: 







Jamais devemos ficar confortáveis. Esses párias sempre consideram avanço de minorias uma concessão e quando eles acham que "não nos portamos bem" ou que os grupos que hostilizam não estão "suficientemente invisíveis", eles vão tentar desfazer o que foi conquistado à base de muito sangue, suor e lágrimas dessas mesmas minorias. Ainda sobre essa cena, uma leitura alternativa: o óbvio efeito imbecilizante da TV. Irônico, já que Doom Patrol é um exemplo muito bom do efeito oposto que o entretenimento traz, questionando o status quo vigente e provocando empatia por gente diferente do branco médio hétero cristão padrão. 



- Aparentemente os discípulos remanescentes de Von Fuchs não gostaram muito do Animal Vegetal Mineral Man abrindo o bico sobre FUCHSTOPIA e decidiram passar o infeliz, pq, como todos sabemos, lugar de x-9 é no microondas. Por sorte, o..... "super-humano" sobreviveu e aparentemente passa bem. 



- Vai se foder a direção dessa série, né? Olha essas imagens se contrapondo: a primeira, "o bebê de Marybeth", um demônio atormentando a alma de Rita. Na segunda, ela soberana, ciente de que absolvição não é algo que vc ganha depois de fazer algo, tipo um achievement de games que vc destrava, mas um processo pelo qual ela vai passar pelo resto da vida. 
- Aqui eu vou totalmente pro lado pessoal: vcs sabem o quanto eu amo Flex Mentallo. Eu demorei literalmente ANOS reescrevendo aqueles textos que fiz, uns anos atrás. É, provavelmente, a coisa de que eu mais tenho orgulho daqui do groselha. So, vcs devem imaginar o quanto eu estava com medo e ansioso e...e... tudo de bom e ruim, a respeito da potencial aparição do man of muscle mystery na série. Correspondeu as minha expectativas? Não. As superou. Com folga e tranquilidade. :-)
- That's it. The final showdown is coming. O maior fã do grupo, Mr. Nobody, está pronto. Como diria John Cena: "You want some? Come get some!!!"





A seguir: o fim se aproxima. E all hell breaks loose. 

Os loucos tomaram conta do sanatório...

  O lendário show do Cramps em um asilo mental em 78... Venus Lux, Poison Ivy e banda, completamente soltos tocando pros internos e interagi...