"A duração de um minuto" é a nova série do blog, focada na filmografia de um dos maiores nomes da sétima arte: Ingmar Bergman. Resumindo? Um filme do diretor por dia, de segunda a quinta, com textinho sobre aqui. Sem leituras posteriores, sem uma extensa pesquisa de contexto nem nada. Apenas minhas impressões imediatamente após o término do longa - a imensa maioria, sendo vistos pela primeira vez por mim - da forma mais crua e direta possível
Sendo bem direto: gostei não.
Sabia que em algum momento iria me deparar com um longa do diretor que iria gostar menos por quaisquer razões. Bom, this is it. Não clicou comigo.
A história mostra uma trupe de ilusionistas, liderados pela enigmática figura de Albert Vogler, chegando numa cidadezinha e tendo que entreter um grupo de burgueses locais. O filme tem seus momentos: o desprezo do diretor sueco pela "elite" e "intelligentsia" locais fica claro na forma que tais figuras são representadas, lembrando um pouco os arquétipos dessa mesma elite em "Os 120 dias de Sodoma". Burgueses são glutões fúteis, a classe média alta é um bando de burguês wannabe e a polícia é o braço da lei garantindo que esta estrutura permaneça como é.
De resto, um filme okay. Eu, particularmente, preferiria ter visto um pouco mais de Vogler e menos do blablabla sobre amor envolvendo os outros membros da troupe e as meninas que trabalhavam na casa do Cônsul. Mas é o que é e isso resulta num filme que de forma alguma é ruim, mas não é dos meus favoritos dentre os longas de Bergman que assisti até agora, desde que comecei essa série de textos.
Certa manhã, Isak Borg acordou de sonhos intranquilos....
Man, oh man.... O filme mais recente em nossa jornada através da filmografia Bergmaniana continua, tal qual o anterior, "o sétimo selo", a olhar a morte nos olhos. Mas se a jornada de Antonius Block é cheia de bravura e resolução, a do velho professor Borg é melancólica, cheia de vislumbres de rumos não tomados e questões do tipo "e se?"
No filme, vemos o cientista numa road trip existencialista com sua nora e alguns estranhos que encontra pelo caminho, enquanto ruma para um evento em que vão lhe dar um título em sua homenagem como reconhecimento pelos serviços prestados. Outro trabalho magistral, o filme ilustra a vida de alguém que usou da fleuma, das boas maneiras e de sua sofisticação como uma forma de se isolar e, mais além, se colocar numa posição de superioridade moral sobre todas as pessoas com quem conviveu.
Durante a viagem, seja parando em alguns locais que lhe foram importantes durante a vida, seja em flashbacks e sonhos, vemos um pouco de sua história e como sua postura diante da vida lhe tornava inalcançável para todas as pessoas que poderiam ter sido importantes pra sua vida, não fosse a muralha que ele mesmo construiu. Cabe a Marianne, a nora acima mencionada, força-lo a se ver sob uma lente honesta e admitir que a solidão que menciona na primeira cena de "morangos silvestres" é consequência direta das decisões que tomou e da forma que alienou os demais ao redor.
Inteligentíssimo o uso dos caroneiros e do casal acidentado que Borg encontra pelo caminho como forma de mostrar pessoas em diferentes pontos da vida e a diferença que essa distância geracional mostra: Os 3 jovens são puro Id, alegria de viver e energia. Já o casal acolhido é amargo, apresentando as cicatrizes de uma relação infeliz, em que pessoas estão juntas apenas por comodidade, já sem a satisfação da companhia alheia.
E dirigindo o carro, o velho mestre, olhando aquilo tudo quase sob uma perspectiva científica, como um especialista olhando curioso para uma placa de petri. Valido mencionar tb o quão elegante foi a escolha do diretor de jamais mostrar Borg em versões mais jovens nas cenas de flashback: o protagonista se vê como um homem velho mesmo nesses momentos pq ele SEMPRE se viu como um homem velho, mesmo durante a adolescência e começo da vida adulta. Do alto da minha perspectiva de um homem chegando aos 40 anos e que sente que tem essa idade desde os 10, isso ressoou fundo em mim.
Um filme doloroso de se assistir, admito que os olhos marejaram quando sua acompanhante durante a viagem lhe conta sobre a reação de Evald, filho de Borg, ao saber que iria ser pai. A vida não é uma dádiva, mas um fardo. Passa-la adiante, portanto, não é oferecer a outra criatura a chance de explorar suas possibilidades e surpresas, mas um ato irresponsável e cruel. Chega a ser perturbador ver o protagonista percebendo que está dentro de um ciclo: recebendo essa visão de mundo da mãe (percebam a completa falta de qualquer carinho na voz quando a velha matriarca diz que dos seus 10 filhos, apenas Isak está vivo), passando para seu filho único e ciente de que, por tudo que sabe dele, Evald deve seguir com o ciclo adiante. Ou não, já que Marianne parece ser o elemento pronto para oferecer algum calor e doçura à vida do rapaz e quebrar esse padrão de gerações e gerações. Paradoxalmente, um longa emocional sobre gente fria e ilhada emocionalmente, mas que oferece um salva-vidas ao final, conferindo a eles uma mão amiga disposta a resgata-los da própria solidão.
"A duração de um minuto" é a nova série do blog, focada na filmografia de um dos maiores nomes da sétima arte: Ingmar Bergman. Resumindo? Um filme do diretor por dia, de segunda a quinta, com textinho sobre aqui. Sem leituras posteriores, sem uma extensa pesquisa de contexto nem nada. Apenas minhas impressões imediatamente após o término do longa - a imensa maioria, sendo vistos pela primeira vez por mim - da forma mais crua e direta possível
Primeiramente, preciso dizer que falar desse filme vai ser complicado pra mim. Não pq toda sorte de crítico fodão já falou dele de formas mais absurdamente intrincadas do que eu pretendo aqui.
Não pq eu nem crítico sou, meramente um apreciador com ego grande o suficiente pra achar que gente gosta de ler sobre minhas impressões a respeito da vida, do universo e tudo mais.
Nope.
Mas pq, no distante ano de 2009, precisavam de alguém pra uma participação num dos programas de lá da TV USP (o Walk Talk show, programas de entrevistas com o pessoal que compunha a fauna uspiana, de vendedores de sorvete, passando por gente que trabalhava lá e, obviamente, os alunos) para interpretar o foiceiro, o enxadrista sinistro, o grim reaper e.... bem.....
Em retrospecto, eu deveria ter raspado o cabelo no dia anterior.
Enfim, postei isso só pra deixar claro que eu sou mega suspeito pra falar do sétimo selo. Mas vou faze-lo, anyways....
So.... o que eu posso dizer sobre um dos maiores clássicos da sétima arte que ninguém tenha dito?
Provavelmente nada. Mas posso salientar um ponto que eu raramente vejo comentado: a primeira impressão que esse filme me passou foi tão macabra que, vendo agora, anos depois, eu tinha esquecido do quanto ele é engraçado. Na maioria das vezes é aquela risada vinda do mais puro desespero, mas ainda assim. E a cena da morte do ator na árvore continua a minha favorita do filme, só por ser incrivelmente bizarra. Morte trolladora e os cacetes.
Mas a real é que é um filme sinistraço, né?
Pro improvável caso de alguns dos senhores não terem visto: Depois de 10 anos, enfiado até o pescoço nas Cruzadas, Antonius Block e seu escudeiro voltam para a Europa apenas para encontrar o local devastado pela peste negra. Mal botou os pés em solo europeu de novo, o cavaleiro é recebido por ninguém menos que a Morte em pessoa e, diante dela, ele faz o que qualquer pessoa normal faria: relaxa e chama o shinigami pra uma amigável partidinha de xadrez.
O filme tem uma série de temas complexos percorrendo seus pouco mais de 90 minutos de duração. Diante do fim, Block se pega questionando sobre a condição humana e sua finitude, sobre o conflito entre a crença num pós vida e o medo do vazio e os caminhos que temos pra conseguir continuar vivendo apesar dessa massacrante pergunta pairando sobre nós em cada momento consciente. O filme apresenta algumas possibilidades de escape, a maioria terrível: a religião, nesse contexto, de maneira nenhuma é acolhedora, funcionando a partir do medo e da opressão. Sério, a cena da procissão é uma coisa saída dos pesadelos de Clive Barker, sem brincadeira. Puro horror. E aliás, a crença no sobrenatural não oferece nenhum confronto aos personagens. O apocalipse, é descrito como uma cena dantesca na bíblia. Quando aqueles indivíduos discutem sobre o fim, não vem o alívio do fim do sofrimento carnal ou o regozijo de se reencontrar com Deus, mas o horror de testemunhar o fim. O Deus daqueles indivíduos é uma criatura digna de medo, não uma fonte de amor e conforto.
Diante dele, Antonius parece optar pela crença no não-vida, na não existência pós morte, mesmo que essa idéia seja perturbadora e não pela sua natureza em si, mas por negar à nossa condição qualquer propósito. Vejam bem: Block viu os horrores da guerra por uma década. A existência de uma deidade, de uma força maior sobre nós é a única coisa que pode conferir algum sentido diante de toda a morte e sofrimento que ele testemunhou enquanto, aliás, valido lembrar, lutava e matava em nome da Igreja. O protagonista chega a interpelar uma mulher acusada de bruxaria, tentando interrogar o diabo. Pq afinal, se o diabo existir, Deus tb é real, correto? Well..... não exatamente. No começo do longa, Jons, o escudeiro, canta sobre como parece que o Diabo caminha entre nós enquanto Deus vira sua face. Não lembro onde ouvi essa frase pela primeira vez, mas "mesmo quando vc não crê mais em Deus, vc nunca deixa de temer o demônio".
So, Deus é um pai ausente, a Igreja é uma aberração obtendo poder através do medo (certas coisas nunca mudam, não? O que era aquele frade opressor, apavorando as pessoas na cena da procissão senão um Malafaia da sua época?). O que nos sobra?
Bom, o filme apresenta duas formas de superarmos o primordial medo de nossa própria inexistência.
Uma delas é a imortalidade através da arte e sobre isso, preciso dizer: Bergman não tinha muito amor pelo público, né? Esse é o segundo filme, dos 4 que vi até agora pra essa série de textos, em que ele mostra uma trupe de artistas tentando performar e algum pau no c* na platéia atrapalhando o espetáculo, com geral rindo dos performers sendo humilhados. No universo do diretor sueco, o espectador padrão é meio que um imbecil né? Não que eu discorde, vejam bem. Vale mencionar também a discussão, no começo do filme, sobre o papel da arte, através do diálogo sobre o quadro da "Dança da morte". Mais do que foreshadowing pra cena que encerra "O sétimo selo", é uma conversa sobre como a arte não precisa - e aliás, não tem obrigação alguma - de te deixar feliz e, mesmo assim, as pessoas vão prestar atenção nela. Pq "a imagem de uma caveira chama mais a atenção do que a de uma mulher nua".
Anyway, os atores sobrevivem ao final. Não todos, vide o infeliz que morreu no topo da árvore, assassinado pela impiedosa força da gravidade. Mas pelo menos o casal de atores e seu bebê terminaram "bem", graças aos esforços de Block em distrair seu nêmesis. Os contadores de histórias sobreviveram mais um dia para tirar arte daquele contexto de mer** e oferecer algum conforto - ou pelo menos escapismo - a quem tanto precisa.
A segunda forma de superar o horror existencial, segundo o filme, aliás, a principal delas, é através do contato humano, das relações que estabelecemos no decorrer da vida (in a personal note: oh, fuck!!!).
Não que isto também não tenha seus custos, vejam bem. Pessoas confortam, mas pessoas humilham.
Pessoas amam, mas pessoas odeiam. Pessoas te abraçam, mas pessoas te condenam.
No contexto niilista e pré-apocalíptico daqueles personagens, o céu E o inferno são os outros, com Deus e o diabo estando há uma pessoa de distância de cada um de nós.
Filme belíssimo, diálogos antológicos ("Fé é como amar alguém que está no escuro, onde vc a chama mas a pessoa não responde") e claro, direção primorosa. O mundo de Block não deve nada, absolutamente nada aos universos sem vida de Walking Dead ou de Mad Max: Fury Road. De fato, o mais próximo que a humanidade chegou do pré-apocalipse e do vislumbre da completa extinção. Mas em termos de sentir a ação do diretor influenciando diretamente a fruição do longa, uma cena ficou na minha cabeça o filme inteiro. Me refiro, obviamente, a um dos raros momentos de respiro e conforto do longa, quando Block, Jons, Jof, Mia, Karin e o pequeno Mikael estão comendo e cantando juntos na cena dos morangos silvestres, um momento de real conexão e rara felicidade por parte daquele grupo de trágicas figuras...... mas nem tudo são flores. Sorrisos, música, pessoas relaxadas, mas em todo momento, absolutamente durante TODA essa cena, até o corte final no rosto do cavaleiro, quando ele segura a panela cheia de frutas, podemos ver ao fundo a máscara da caveira que Skat apareceu usando no começo do filme.
Um lembrete constante de que a foice paira erguida sob os pescoços deles - e dos nossos - e que na alegria ou na tristeza, na riqueza ou na pobreza, na guerra ou na paz, a morte espera vigilante, prestes a derrubar a ultima peça do oponente do tabuleiro e executar o xeque-mate final.
"A duração de um minuto" é a nova série do blog, focada na filmografia de um dos maiores nomes da sétima arte: Ingmar Bergman. Resumindo? Um filme do diretor por dia, de segunda a quinta, com textinho sobre aqui. Sem leituras posteriores, sem uma extensa pesquisa de contexto nem nada. Apenas minhas impressões imediatamente após o término do longa - a imensa maioria, sendo vistos pela primeira vez por mim - da forma mais crua e direta possível
Okay que essa série ainda está em seu terceiro capítulo, mas preciso dizer, esse foi o filme mais difícil de ver até agora. Difícil nível "fiquei irriquieto durante boa parte dele".
Motivos: ele é sobre gente rica entediada, tentando achar diversão da forma que dá, com seus joguinhos e intriguinhas e ...e...e... sedução...e...... UUUUUUUUUUUUUUUHHHH que coisa BOOOOOOOOORING...
Sério, pega meio quilo de vidro moído, bota duas bolas de sorvete em cima e me dá pra comer antes de me chamar pra algo remotamente parecido com Dowton Abbey, manja? APESAR DISSO, no entanto, o filme vai tipo montanha russa, me ganhando e me perdendo aqui e ali. O final é bem legal, preciso dizer.
A historia começa acompanhando um dia normal na vida de Fredrik Egerman e sua jovem - sério, MEGA jovem - esposa Anne. Tudo muito bom, tudo muito bem, até que ele recebe a notícia do retorno à cidade de um amor antigo, Desiree Armfeldt, atriz de sucesso. Esse retorno e o rebuliço que a volta de Desiree vai causar na alta sociedade local vai desencadear uma série de eventos mudando a vida daquelas pessoas e....se vc está entediado lendo isso, creiam-me, é 1/10 do que eu senti em determinados momentos do longa.
De novo, ele tem altos e baixos: a interação entre Fredrik e Desiree é bem divertida, com diálogos rápidos e tiradas engraçadas entre eles, típico de velhos amigos que se reencontram. O problema é que a partir de um certo ponto, parece que o filme vai encaminhar pra um slice of life sobre a vida de gente rica - envolvendo um plano de Desiree pra separar alguns casais, juntar pessoas que ela quer juntas e conseguir terminar com Egerman. E aí, como eu disse, o filme me perdeu um pouco.
Segue uma cena de jantar entre a elite local e começam os comentáriozinhos dissimulados, toda aquela pomposidade de gente rica, banquetes, vinho mágico com porra de bicho dentro (literalmente porra de bicho.... Mano, qual é que é de gente rica que entra nessas de comer umas paradas sinistras? Esse é o tipo de gente que eu detesto, que bebe vinho com porra de bicho, que toma café cujas sementes foram tiradas de cocô de gato, que come cérebro de bicho, que acha que foie gras é uma parada maneira, saca? Gente assim que termina entediado até o ponto em que caçadas humanas passam a ser uma idéia interessante, manja? enfim...).
O filme me ganha de volta quando o jovem Henrik, filho de Fredrik, tem um surto. O guri, dividido entre a vida monástica, estudando pra ser padre, e os prazeres da carne, vendo aquela putaria de verdades desagradáveis e mentiras dissimuladas toca o foda-se e confronta aqueles indivíduos, jogando na cara deles a própria insignificância e futilidade, num momento de auto consciência do longa em que critica o vazio existencial daquelas criaturas, rendendo minhas duas frases favoritas de toda essa obra:
OUCH.... É bem isso.
E hey, antes que me lembrem do meu teto de vidro: SIM, eu vi cada maldito episódio de cada maldita temporada de "Mulheres ricas". Mas a perspectiva ali é outra: O lance não é a gente invejar aquelas vidas, mas meio que rir daquele show de horrores. Ninguém, NINGUÉM em sã consciência deveria querer ser a mina do frango ou aquela velha com síndrome de Peter Pan que queria ser a Barbie, manja?
Da mesma forma, não é pra menos que Henrik, ultimo bastião moral, ali é o nosso ponto de identificação nessa história. Ainda jovem, capaz de ter certo distanciamento a ponto de poder ver as falhas no estilo de vida da alta sociedade, o jovem decide jogar tudo pro alto, pegar o objeto de sua paixão e partir em direção ao por do sol. HELL THE FUCK YEAH (e não é como se a providência não tivesse sua participação na decisão do guri, vide a cena de seu fracassado suicídio culminando no alvo de suas sentimentalidades aparecendo-lhe quase como num passe de mágica, com uma fuga daquele mundo sendo lhe dada quase numa bandeja). Me lembrou um pouco aquilo daquele poema do.... Fernando Pessoa..... ou um de seus heterônimos? Damn it.... deveria ter prestado mais atenção à essa aula de literatura..... Enfim, quando numa de suas obras ele afirma que se Deus quisesse ser adorado como Deus, ele se apresentaria diante de nós como Deus. Como, no entanto, Deus se apresenta pra gente como Doritos Natchos, gibis do Hickman, dias de menos de 25 graus e jogos de rpg japoneses, ele quer ser adorado como Doritos Natchos, gibis do Hickman, dias de menos de 25 graus e jogos de rpg japoneses e é dessa forma que nós, humildes mortais, deveríamos fruí-Lo.
..... eu tenho quase certeza de que ele coloca isso no poema exatamente com essas palavras..... Tão a frente de seu tempo, não?
.....
... enfim....
O final do filme oferece um arremedo de final feliz praquelas pessoas. Terminamos vendo Petra (a musa de Bergman, Harriet Andersson), empregada de Ergman, e seu "noivo" rolando no feno, carpe diem em seu nível máximo, felizes em achar a felicidade em uma vida simples, sem os luxos de quem tem o $$$ mas distante da fleuma e hipocrisia da elite local.
Um filme interessante. Perdeu minha atenção aqui e ali mas o problema está em mim, não na trama. Até pq, apesar de certo carinho por aqueles personagens, é óbvio, pelo rumo da história, que Bergman divide comigo o asco por aquele estilo de vida e sua superficialidade.
O olhar é sempre crítico, mesmo quando deposita alguma compaixão por aquela "pobre" gente rica.
A seguir: oooooooh boy.......... bora jogar xadrez com a morte!!!!! \o/
"A duração de um minuto" é a nova série do blog, focada na filmografia de um dos maiores nomes da sétima arte: Ingmar Bergman. Resumindo? Um filme do diretor por dia, de segunda a quinta, com textinho sobre aqui. Sem leituras posteriores, sem uma extensa pesquisa de contexto nem nada. Apenas minhas impressões imediatamente após o término do longa - a imensa maioria, sendo vistos pela primeira vez por mim - da forma mais crua e direta possível
Só pra efeitos de contexto, escrevo este texto imediatamente antes de ir fazer as resenhas de "therapy patrol", sétimo ep. de Doom Patrol e um dos episódios mais difíceis, em termos de desenvolvimento de personagem, da série. Meu ponto: I'm in a glass full of emotions aqui.
Plus: hoje mais cedo fui cortar o cabelo e, entre uma história e outra dos barbeiros tendo uma folga pra ir pra praia, um deles disse algo que ressoou fundo em mim e que lembrei no decorrer de "Sommaren med Monika": "Não dá só pra trabalhar, não. A vida tem que ser mais que isso".
O tema do filme de ontem, "Sawdust and tinsel", continua: gente quebrada e na base da pirâmide econômica, tentando, do jeito que der, fugir do seu papel pré-determinado pela posição que ocupam e, no processo, conseguir uma vida digna de ser vivida.
Nesse longa, Monika e Harry são dois jovens chegando na vida adulta, ainda com menos de 20 anos de idade. Já naquilo que chamamos de "trabalho das 9 as 5", os dois decidem jogar tudo pro alto e vão morar no barco do tio de um deles. Aí o que acontece é....bom, o que acontece é a vida, né? A incapacidade humana de estar satisfeito. Uma cisão começa a se formar dentre o casal, e os dois tem respostas diferentes para resolver o problema. Harry quer dar a Monika uma família tradicional, papai, mamãe, casa com cercado branco, vida estável e os cacetes. Já a guria quer... algo mais. E obviamente, essa cisão, somada às duas toneladas de expectativas que um deposita no outro, além claro de uma cota razoável de decisões infelizes tomadas de ambos os lados, leva o casal ao ponto de se tornarem iguais a tudo aquilo de que pretendiam fugir no começo do filme. A partir desse ponto, o final é inevitável.
Destaque, obviamente, para Harriet Andersson e Lars Ekborg, que, como o casal protagonista, tem que carregar o filme nas costas. Andersson, tb presente no filme anterior como a Anna, outra personagem forte e que domina a história, tá incrível no papel título: a insatisfação dela é muito parecida com a da personagem do filme que eu resenhei ontem, aqui. Mas se a Anna terminava um personagem irritante, ainda que digno de compaixão, Monika acaba digna de mais simpatia, sendo alguém muto jovem, levada pelas circunstâncias até o ponto em que precisa quebrar toda a estrutura em que se enfiou para tentar se reinventar de novo. Harry, tb muito jovem, tb digno de simpatia por tentar adotar o papel de "homem respeitável", ainda que o resultado disso seja se tornar indistinguível do tipo de pessoa que olhava com desdem no começo da história e ter que pagar o preço por tal decisão.
A direção aqui é algo de extraordinário. Destaque, obviamente, pros dois momentos distintos em que o casal, em seu ponto mais baixo, olha direto pra câmera, resultando em emoções distintas. O olhar de Monika implica certa culpa e uma busca por cumplicidade. O de Harry, a fuga para o passado, procurando pelo momento em que tudo deu errado. Além disso, claro, as cenas de paisagem, contemplativas, abertas, mostrando o mundo como uma caixa de bombons em que tudo é possibilidade e potencial, contrastando com o cenário da casa dos dois, ao final, claustrofóbica.
Um filme devastador, mas obrigatório.
"A vida tem que ser mais que isso". Monika concordaria.
"A duração de um minuto" é a nova série do blog, focada na filmografia de um dos maiores nomes da sétima arte: Ingmar Bergman. Resumindo? Um filme do diretor por dia, de segunda a quinta, com textinho sobre aqui. Sem leituras posteriores, sem uma extensa pesquisa de contexto nem nada. Apenas minhas impressões imediatamente após o término do longa - a imensa maioria, sendo vistos pela primeira vez por mim - da forma mais crua e direta possível.
So, série nova no blog, Ímpios. Tinha uma pasta de filmes do Bergman juntando poeira aqui no meu hd externo e decidi que é uma boa hora pra conhecer a obra do diretor sueco e entender pq ele é constantemente descrito como um dos melhores - senão O melhor - diretor de todos os tempos. Já vi, obviamente, o sétimo selo, filme que adoro, mas nunca tinha prestado a devida atenção à sua extensa filmografia. Bom..... Como já dito, nenhuma hora melhor que "agora" pra começar, certo?
A idéia é bem o que o resuminho introdutório da série, no começo deste post, fala: um filme por dia, um texto comentando, de segunda à quinta. E ao contrário do que eu sempre faço, não vou ler livros e livros sobre pra tentar fazer um contexto do mundo ao redor do artista e da arte que ele produziu, nem nada do tipo. A idéia é ver os filmes, quase todos inéditos pra mim, e logo em seguida vir aqui deixar minhas impressões enquanto elas estão frescas, em textos mais curtos do que os que normalmente posto aqui. Pra quem quiser seguir comigo, vou em ordem cronológica, okay? Teve uma primeira curadoria (entenda-se: enchi o saco de Stella perguntando quais longas ela gosta e quais não), chegando a uma lista de mais de 30 longas. O resto, agora, é com o papai aqui.
So, bora?
Sawdust and tinsel (1953)
Um belo começo, preciso dizer. O filme é estrelado por aquele tipo de enjeitado social que são o foco do olhar de autores como Nelson Rodrigues ou Tennessee Williams: figuras quebradas, tentando do jeito que der, das formas mais bizarras e/ou moralmente questionáveis possíveis, fugir da prisão em que foram colocadas pelo contexto ao redor. Acompanhamos a história dos membros do circo Alberti, excursionando pelo interior da Suécia no começo do século passado. Nossos protagonistas são Albert, dono do circo e Anna, uma das artistas da troupe, ambas figuras trágicas, tentando abandonar a vida nos picadeiros por uma existência mais "comum". Albert tenta faze-lo voltando para sua esposa, a quem "abandonou" por 3 anos em virtude da vida na estrada. Anna, por sua vez, tenta mudar sua realidade via um relacionamento (com toda a cara de que vai dar errado), com um ator de um grupo de teatro da cidade por onde o grupo está passando.
O tom do filme, citando Nelson Rodrigues lá em cima, é bem o que vcs podem esperar: quase niilista. Aquelas adoráveis figuras trágicas se mostram impotentes em sua missão de resignificar a própria história, estando fadadas a falharem em suas buscas. A tônica do filme, com palhaços tristes, damas desafiadoras e burgueses em desgraça, me lembrou o pouco que eu conheço de comedia dell'arte e suas figuras como o Arlequim, a colombina, o pierrot, etc. A diferença é que comedia dell'arte geralmente termina com final feliz. O final aqui é ligeiramente agridoce.
Incapazes de reescrever a própria história, resta aos personagens, depois da catártica constatação a respeito da própria incapacidade, pintar o rosto e voltar a dançar, como diria Haruki Murakami.
"Dancem, dancem, dancem e nunca parem de dançar". Pq o espetáculo nunca pode parar, certo? E, se continuamos dançando, pelo menos é um sinal de que continuamos vivos.
Vale mencionar também um comentário meta de Bergman sobre a arte em si, na cena da luta no circo, onde o público, disperso - pra não dizer agressivo - durante quase a totalidade da apresentação, só consegue focar naquelas pessoas de vez quando Albert e o amante de Anna saem na porrada. Além disso, temos também o choque entre os artistas circenses e o grupo de teatro residente. Um aceno do diretor sobre o conflito entre "alta arte" vs "arte popular". Certas coisas não mudam, né?