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quinta-feira, 18 de maio de 2023

The book is on the table: "Cais do porto", "Janelas" e "It's lonely at the center of the earth".



"Cais do Porto" por Brendda Maria


Cacete, desculpem o tio por abandonar o formalismo que lhe é típico, mas PQP que coisa boa que é ler um gibi nacional com diálogos orgânicos, que soam como gente de verdade conversando. 

Por algum motivo, durante anos, autores nacionais adotaram a norma culta de diálogos como regra e aí você tinha personagens em toda sorte de cenário, interagindo entre si com frases cheias de formalismo e erudição. 

De uns anos pra cá, depois do BOOM da nova geração de hqs nacionais, pessoal decidiu abandonar esse dogma e agora, direto, vemos gente falando como, veja só, gente de verdade.

E se, normalmente, isso já seria algo legal, aqui, especificamente no caso de "Cais do Porto", isso é um aspecto fundamental para podermos imergir na trama, já que ela é um exemplo de "slice of life". Ou seja, são histórias que tem como intenção mostrar o realismo cotidiano em toda sua "mundanidade", a vida sem fantasias grandiloquentes e toda a beleza da existência rotineira. 

Fazendo um reducionismo grosseiro, "Cais do Porto" de Brendda Maria (roteiro e arte. E aliás, que arte linda. Me lembrou o traço de gibis da Boom! Comics como as adaptações de "Stephen Universe" e "Bee & the Puppycat". Tons e cores conferindo um aspecto onírico pra coisa) é sobre duas amigas conversando durante uma viagem de ônibus. Simples assim.

Mas nunca é simples assim, certo? Porque todo mundo que já pegou busão sabe que, as vezes, você cai de para-quedas no meio de uma conversa entre estranhos e você se pega morbidamente interessado, quase como se tivesse chegado no meio de um filme. Em todos esses anos de usuário de ônibus aqui em SP, eu já testemunhei um sem número de fins de relacionamento, DRs tensas e sessões de descarrego emocional, lá, sentadinho, tentando só voltar pra casa. 

Em determinado episódio, terminei testemunhando o motorista calmamente descendo do veículo pra ir cobrir um sujeito de porrada. Pra quem tem que trabalhar e passa uma grande quantidade de tempo dentro de transporte público, essas viagens acabam também sendo uma parte importante do seu cotidiano e os eventos lá dentro podem, de vez em quando, moldar seu dia.

Na trama, Clara e Gi, amigas de faculdade, se reencontram depois de um tempo distantes e botam a conversa em dia. A partir dessa premissa simples, seguimos com esse grupo de personagens. Literalmente, porque é um ônibus lotado, mas figurativamente também, porque, afinal, não são só as duas, mas também é o resto do pessoal com quem elas estudavam, é a família da Gi, a irmã e a avó da Clara, o vendedor informal fazendo os corres dele, a equipe produzindo o game junto com Clara. E a cidade de Fortaleza, um personagem em si. 

Acompanhamos as duas e aí.... a história acaba abruptamente. E eu adoro isso porque, novamente, é como é na vida real. Estamos ouvindo um diálogo de pé de ouvido, interessados, mas aí um dos interlocutores precisa dar o sinal, ou o ônibus chega no ponto final, ou é a NOSSA hora de dar o sinal pra descer, e terminamos sem saber como a vida daquelas pessoas se desenrolou. Somos roubados de nossa catarse.

O casal vai continuar junto? O cachorrinho dodói conseguiu ficar bem depois da operação?

Eu lembro que, certa vez, voltava do trabalho, na época que morava lá na Vila Carrão e estava indo pro Shopping Aricanduva, onde ficava a Smart Fit em que treinava. No caminho, em meu acento, estava vendo "Omega vs Okada" no Wrestle Kingdom 11. Aí, passa o McDonalds que eu usava como referência e era hora de dar o sinal, quando eu me viro e noto pelo menos umas 5 pessoas olhando a tela do meu celular, interessadíssimas em saber se Kenny finalmente venceu o Rainmaker ou não. Provavelmente pessoas que nunca tinham visto wrestling, mas estavam encantadas com a narrativa diante de seus olhos. E da mesma forma, eu roubei a catarse delas, descendo antes da conclusão do combate. 

A vida é assim, né?

A edição da Conrad traz uma segunda história curtinha, onde testemunhamos duas outras amigas conversando em uma cafeteria aqui em SP. 

E pro caso de você estar se perguntando "porque isso é interessante?", a resposta é: porque adoramos histórias e personagens com os quais nos relacionar. E problemas cotidianos são universais. 

Eu nunca vou matar um dragão ou tentar dominar o mundo.

Mas eu sei como dói ter que ir dormir se preocupando com um ente querido que está em um hospital se tratando de algum problema. Eu sei como é me sentir distante dos amigos e, ocasionalmente, de quem eu queria me tornar, por causa da vida e da necessidade de pagar contas. 

"Cais do Porto" é muito sobre nossos pequenos mas imensos épicos cotidianos, em todo seu aspecto igualmente ordinário e majestoso. 

E você sabe que um slice of life foi bem sucedido quando, ao final, você se pega pensando nos personagens como se fossem amigos com quem perdeu contato porque... bom... novamente, a vida, né?

Espero que Clara e Gi estejam bem.

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"Janelas" por Vinícius da Silva



Vivemos filtrando o mundo através de janelas.

Desde as que temos em casa ou no trabalho, até as imateriais. A tela da sua tv, celular e notebook. O seu olhar restringido pelo frame dos óculos, como diria Win Wenders no doc. "A janela da alma". 

Janelas, além de um canvas animado, é uma válvula de escape. Hey, minha vida teria sido bem mais miserável se, durante as aulas no ensino médio, eu não pudesse ignorar as vozes dos professores e demais crianças na sala e ficar olhando pela janela por horas a fio, imaginando cenários fantásticos e devaneios surrealistas. 

A janela filtra o mundo. Impede o som de entrar. Reflete. Tal qual um espelho. Vemos o mundo e nos vemos refletido nele.

"Janelas", de Vinícius da Silva (roteiro e arte), é sobre isso. Sobre a jornada do nosso olhar indo em direção à janelas e sobre o que vem refletido. E sobre como aquilo que nós escolhemos observar diz algo a respeito de nós mesmos. 

Na trama, um personagem sem nome, chamado apenas de Anônimo, conversa com um programa de computador, uma inteligência artificial aos moldes da Siri ou Alexa. Demonstrando intenções de se matar, o programa, chamado Atena, decide interceder. Ela grava todo o diálogo e transmite internet afora. A lógica é que transformar a dor de seu interlocutor humano em fonte de entretenimento alheio - e capitalizar em cima disso - pode ser uma fonte de motivação para o protagonista.

Diante de um público igualmente fascinado e enojado, em constante estado de atenção crescente, o protagonista passa a se degradar de formas mais e mais grotescas, sempre visando manter o olhar daqueles que parecem horrorizados mas que são incapazes de olhar para o outro lado enquanto incentivam, sedentos, por mais e mais. 

Esse tema já foi tratado várias vezes na ficção - um dos momentos mais recentes foi naquele episódio das abelhas de Black Mirror - mas eu gosto muito de como essa hq em 3 capítulos o desenvolve. 

É curioso, inclusive, pensar que eu li isso em um momento onde, sem citar nomes para não parecer que eu mesmo estou tentando milkar a mais recente trend virtual, uma treta entre web celebridades sobre identidade e super-exposição com tons macabros é um dos assuntos mantendo os ratinhos correndo em sua roda giratória conceitual.  Relevante como nunca. 

A verdade, no entanto, é que uma história dessas SEMPRE vai ser relevante. Crescemos vendo programas sensacionalistas que exploravam a dor alheia. Diabos, o "aqui agora", jornaleco que é o avô dos "Cidade Alerta" da vida, teve que LITERALMENTE mostrar uma pessoa dando um tiro na própria cabeça para que, finalmente, alguém olhasse e dissesse "olha, vocês foram longe demais".  Eu me lembro de, em outra ocasião, o programa encerrando e, enquanto subiam os créditos, eles reprisavam - sim, mostravam DE NOVO - a cena de um homem enquanto ele agonizava, depois que capsulas de cocaína que ele trazia no estômago estouraram. 

A internet e sua pulsão de morte coletiva são só a versão tecnologicamente atualizada disso. Suicídio coletivo em 4K, Ultra High Definition. Onde pagamos pela nova oportunidade de ver terceiros se jogando abismo adentro, para nossa diversão. 

A arte de Vinícius transmite bem o tom onírico que a história quer passar, como se a janela sob a qual a vemos estivesse em um não-espaço entre o mundo real e o virtual, entre a percepção de fato daquele cenário e a forma com a qual Anônimo a interpreta. E também como se transitássemos entre o NOSSO olhar de leitor e a forma como Atena testemunha aquele show de horrores. 

Eu falei dos diálogos realistas comentando sobre Cais do Porto e aqui ele também orbita entre dois mundos, alternando entre norma culta e coloquial só que aqui, por causa do tom da trama, funciona perfeitamente, conferindo tons meio operísticos para o negócio. Tanto pela arte quando pelos diálogos e também pelo tom depressivo da história, ela me lembrou muito do estilo do Mutarelli (e é um crime que, em quase 15 anos de blog, acho que essa é a primeira vez que menciono um dos meus artistas nacionais favoritos aqui. Precisamos fazer algo a esse respeito, não?). 

Depois de um momento de alívio, a história retoma o tom niilista, o que nos conduz a seu catártico final onde o autor não tem pudores de apontar o dedo na NOSSA cara e nos perguntar, através da trama, a respeito do nosso papel nessa cadeia produtiva demoníaca. Afinal, se não tivesse ninguém constantemente interessado e esperando uma escalada nos eventos e na degradação nessas tretas, elas existiriam? A tal história da árvore caindo na floresta sem ninguém perto pra ouvir o estrondo...

Não, não seremos perdoados. A culpa disso também é nossa, por transformarmos o mundo em um gigantesco programa do João Kleber em tempo real. Novamente, janelas libertam, mas elas também refletem. 

Se a fonte do seu entretenimento vem da dor do outro, da destruição do outro, o que isso diz a seu respeito?

As monstruosidades que você vê na janela são as de um mundo tentando te manter amortecido através do choque ou são partes da sua própria monstruosidade, que você está apenas regurgitando de volta?

Aquela janela é um portal ou um espelho?

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"It's lonely at the center of the earth" por Zoe Thorogood


Os dois quadrinhos acima comentados são exemplos de algo que se aplica também a este do qual falo agora: não se trata só do QUE você está falando, mas também do COMO você vai falar. 

Pode ser a melhor história do mundo, mas a forma como um artista decide narrá-la é o que vai separá-la entre ser "um clássico" ou "mais do mesmo". 

"It's Lonely at the center of the earth" é uma história auto-biográfica sobre uma artista tentando criar sua próxima obra depois um grande sucesso e, ao mesmo tempo, tendo que lidar com depressão clínica. Agravada depois que uma viagem para divulgação de seu novo trabalho é cancelada em virtude da pandemia.

É isso. A magia dessa obra vem exatamente do como Zoe Thorogood (roteiro e arte) decide registrar sua história pro mundo. 

Poderia ser algo enfadonho. Já vimos essa história ser contada de forma "linear" tantas, e tantas, e TANTAS vezes. Desde cine-biografias extremamente formulaicas até outros quadrinhos. "Blankets", por exemplo, é um quadrinho que eu acho extremamente enfadonho por ser uma biografia contada da forma mais comum, linear e desinteressante possível.

O que Zoe faz aqui, no entanto, é usar o fato de ser um gibi para, usando de aspectos típicos dessa mídia, como a arte, distribuição de quadros na página, quebra de linearidade temporal, metalinguagem, entre outros, fazer uma trama de fortes tons impressionistas, mostrando como ELA lida com tais questões, quase como se tivéssemos acesso a um portal - ou janela - pra dentro da mente dela.

E novamente: parece um problema ordinário. Mas nós nos identificamos na universalidade da dor dela. 

Eu, Hak, The Bear, eu SEI, OBJETIVAMENTE, como é tentar fazer algo criativo em um momento em que você está sentindo dor. Ou pior, não está sentindo absolutamente nada. As auto-cobranças, o peso da responsabilidade...

"Como assim você está com bloqueio criativo? Filho da pu**, tu acha que o pedreiro levantando 50kg de saco de cimento nas costas no sol tem bloqueio criativo????"

Zoe poderia fazer o que quisesse com a própria dor. Que ela tenha transformado sua batalha contra a depressão em arte é digno de aplausos. E arte confessional. Zoe não é gentil com ela própria.


Li uma crítica desse gibi se referindo a ele como "egoísta e excessivamente auto-centrado" e, mesmo desconsiderando que é uma AUTO-biografia, acredito que a própria autora concordaria com o comentário. Sim, é centrado nela. Mas é universal. E cria pontes, conexões com quem vive com dores parecidas. E faz isso de formas tão inventivas que mesmo nos momentos mais cotidianos, tu se pega maravilhado com o quanto aquilo é representado de forma visualmente bonita. 

E dolorosa. E encantadora. E as vezes, enervante (eu tenho depressão e mesmo sabendo que não é culpa minha, eu sei o quanto pode parecer irritante pra quem tá de fora. E honestamente? Não tiro a razão de ninguém que pensa assim). 

Mas nesse caso? Acima de tudo? Sublime. E única. 

Esses dias o Eisner anunciou seus indicados para o prêmio americano dos Quadrinhos e, surpreendendo a absolutamente ninguém, Zoe está entre os indicados. Na verdade, liderando o número de indicações com "It's lonely...".

Tudo que eu posso dizer? Merecido.

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É isso crianças. Hak tá indo nessa.

Volto pra falar de mais gibi assim que tiver lido mais coisa legal.

Fiquem bem. 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

The book is on the table #5 - "Cozinhas do Inferno"

 Yo, dogs.

Hak the bear, seu host semi-preferido  em sua coluna de periodicidade indefinida aqui do Groselha on the rocks. 

Mais uma semana, mais um texto com algumas recomendações de coisas que li, ouvi, assisti, joguei e curti. 


Sério, eu tenho um hd externo de quase 8GB de tamanho, quase cheio só com as paradas maneiras de wrestling e gibis. Então, creiam-me, eu tenho MUITA coisa pra ler. A consequência disso é que algumas coisas tão na frente de outras na lista de prioridades e muitas vezes, certas leituras acabam relegadas, esquecidas, deixas de lado. Tô aproveitando que meu atual trabalho me permite tempo livre pra fazer as coisas que eu gosto e estou aproveitando pra ler alguns dos clássicos que nunca peguei antes. Um destes bastiões que despontavam como falhas na minha carreira de gibizeiro eram exatamente os títulos da Milestone. 

A Milestone é, paradoxalmente, insanamente conhecida e completamente anônima pro público brasileiro. Anônima pq salvo um crossover que rolou com os personagens da DC e uma ou outra aparição nos títulos da JLA em alguns dos projetos de revival que rolaram na editora, nada nunca fui devidamente publicado aqui. E insanamente conhecida pq quase todo mundo que lia quadrinhos passou por "when worlds collide", o supra-citado crossover/evento nos anos 90. Quem lia comics de heróis da Abril vai lembrar na hora. O choque entre Icon e Superman, o Superboy de jaqueta de couro dando em cima da Rocket, o vilão afundando uma cidade inteira só pra provar um ponto. O negócio merece ser chamado de clássico.

Além disto, tem também o fato de que uma das pedras fundamentais da cultura nerd brasileira é a animação de um das criações da Milestone: Static Shock ou Super choque em pt-br. Quando tu, moleque ou já nos anos teens, no começo dos 2000, tirava uns minutinhos pra ver as aventuras do Virgill em Dakota, tava vendo um dos personagens mais famosos da Milestone.

Considerando tudo isso, além de alguns textos lidos que recomendavam a leitura de coisa da Milestone, achei que era uma boa hora pra me lançar na empreitada. Imaginava que ia gostar. Mas não sabia o quanto. 

A editora, criação de Dwayne McDuffie, Denys Cowan, Michael Davies e Derek T. Dingle, todos homens negros, tinha como proposta lançar uma linha de super-heróis formada majoritariamente por etnias não-brancas, de forma a suprir uma falha de representatividade no mercado de quadrinhos mainstream. Mas não é só a cor da pele dos protagonistas mas o tom das tramas é uma parada muito mais adulta que o das duas majors americanas. Eu li 13 edições da Milestone. Tô seguindo um guia de leitura que encontrei na Internet e tem funcionado muito bem. As revistas lidas: Hardware 1-4, Icon and Rocket 1-3, Blood Syndicate 1-4 e as duas primeiras do Static Shock. 

O que eu encontrei é uma realidade muito mais familiar pra gente aqui no Brasil do que qualquer história da Marvel ou DC. Racismo, abuso policial, luta de classes, exploração corporativa, estado ausente. 

Em qualquer momento essas histórias soariam especiais, mas no Brasil de 2021? Bateu com a devida força. 

Hardware abre com as duas páginas que são, na moral, uma das melhores introduções de personagem de que eu me lembro nesses quase 40 anos lendo gibi. 




A primeira edição da série, que é a primeira edição da Milestone, a carta de apresentação da editora, traz a história cujo título é "Angry Black man" e nesse momento, eu percebi que a história não iria segurar os socos. E Hardware, assim como Icon, Static e em BEM MAIOR proporção, Blood Syndicate, não tem medo nenhum de falar sobre temas complicadíssimos. Tipo, o evento que confere poderes aos moradores de Dakota é consequência de abuso policial e de uma corporação de má fé. Hardware é a história de um homem negro, trabalhando em uma destas companhias de big tech e que tem seus projetos reapropriados por um tecnocrata branco.

Novamente, isso é 1993, manja? McDuffie e Cowan assinam essa edição e ela é a melhor carta de apresentação possível. De fato, um manifesto de artistas que tinham muito pra falar e o talento necessário pra isso. 

Icon narra as aventuras de Augustus Freeman IV, um milionário recluso de Dakota. Na verdade, ele é um alienígena que, desesperado, em fuga, acabou caindo na Terra e, uma vez aqui, reconstruiu seu corpo tendo como base a primeira pessoa que encontrou que, no caso, foi uma escrava negra chamada Miriam. Um século depois, sua mansão é invadida por Raquel e outros guris, que queriam assaltar o local. Na muvuca, ele usa seus poderes sem muitos pudores, pra dar um susto nos moleques. Raquel, um deles, volta mais tarde e pergunta porque ele não usa suas habilidades para ajudar as pessoas daquela cidade que precisam de toda ajuda possível. 

A premissa é a mais simples possível e funciona maravilhosamente. Sujeito superpoderoso. A guria pergunta "pq a gente não vira super herói" e ele "Já é". 

Blood Syndicate é onde o que já era político e confrontacional sobe de nível e os criadores cravam o dial no 11. O sindicato do sangue não é um GRUPO de super heróis, mas uma GANGUE. Uma milícia. Neste arco inicial, uma repórter recebe carta branca do time pra ir entrevista-los e conhecer um pouco mais sobre o misterioso grupo. 

Dudes.... pouco depois de eu ter começado a leitura, a DC anunciou que vai ter uma animação baseada na Milestone e, mais importante, aproveitando o atual retorno desse universo, uma série do Sindicato. 

Well.... Se não segurarem a mão nos temas e manterem o elemento EXTREMAMENTE punk da série original, esse vai ser um daqueles quadrinhos que vão ser comentados pela grande mídia, que os fanboys chiam por ter "muita política" e que tem grandes probabilidades de ofenderem todo mundo, direita, esquerda e centro. E tomara que seja assim, vejam bem. 

Sério, eu não to exagerando. Tem uma personagem viciada em crack e um dos protagonistas atende pelo nome de HOLOCAUSTO. A razão de ser do grupo é um constante ponto de conflito, com os membros divididos entre serem um grupo de proteção do bairro ou assumirem o papel de gangue, inclusive controlando a criminalidade local. Sério, eu estou MUITO curioso pra saber pra onde o título vai.

No fim do primeiro arco, descobrimos uma gigantesca conspiração pra acobertar os atos de uma policia corrupta e de um governo mais sujo ainda, ambos, por sua vez, subordinados a corporações desumanas, se me perdoarem o pleonasmo. 

Não vou falar sobre a HQ do Static pq ainda to no comecinho, mas os 3 títulos acima me deixaram muito surpreso e igualmente satisfeito. Tramas adultas com uma sensibilidade muito única. Conway (artista de Hardware e Blood Syndicate) e M D. Bright (responsável pelos desenhos de Icon), dividem um estilo de arte muito parecido. Cru, punk, aquela coisa bem fanzineira, com ecos de Frank Miller e David Mazzucchelli. Em uma época em que quase todo mundo emulava Jim Lee e McFarlane, esses gibis tinham uma arte que vazava personalidade. Linda e particularmente marcante na memória. E com relação aos roteiros, o saudoso Dwayne McDuffie, responsável pelos textos das 3 séries acima, faz mágica. Icon, BS e Hardware tem, ao mesmo tempo, elementos narrativos que conectam os 3 "universos' de forma orgânica, ao mesmo tempo que trazem tons distintos. Icon é uma hq mais serena, contrastando com o senso de urgência no talo de Blood Syndicate ou com a frieza melancólica de Hardware. 

Sério, se você gosta de super heróis, procure o material clássico da Milestone. E se você não gosta, tenta dar uma chance. História de origem costuma ser um saco, mas estas mantem o tom alto de forma constante. Eu não sabia o que esperar e saí realmente empolgado em continuar lendo o resto dos lançamentos da editora. É um universo fascinante, familiar mas estranho. Fantasioso mas cruelmente realista. Alçando aos céus mas sem nunca tirar os pés do chão. Alienígena e mágico mas que, ao mesmo tempo, cheira que nem as ruas do lado de fora da nossa porta. 

A gente nunca vai ser Metrópolis ou Gotham. Mas Dakota? Dakota é um canto do multiverso muito semelhante ao nosso quintalzinho verde e amarelo, com tudo de bom e de ruim que isso significa. 




Ainda falando sobre heróis urbanos, eu mergulhei COM FORÇA nos gibis do anjo da guarda de Hells Kitchen, o Demolidor.

Peguei as fases do Waid e a atual, de Chip Zdarsky, pra ler. Da fase do Waid eu falo quando terminar, mas fui até o título mais recente da ainda em desenvolvimento fase de Zdarsky e, rapaz, que HQ legal. 

Mais uma vez, a equipe criativa vai jogar Matt Murdock no coração do inferno pra ver o que levanta de volta. E o primeiro arco da série QUASE me enganou. Digo isso pq a trama começa com MAIS UMA VEZ, Murdock no meio de um crime que ele não cometeu e MAIS UM A VEZ, tendo que limpar seu nome enquanto é caçado por todas as forças da lei locais, além de alguns membros da comunidade super heróica.

Mas aí vem o twist no final do primeiro TPB e te pega de surpresa e tudo que você tinha como certeza cai por terra. A história aproveita o que conhecemos do personagem e usa isso pra nos surpreender e quando você vê suas expectativas vindo abaixo, o efeito é maravilhoso. Murdock já foi quebrado, física e psicologicamente antes, mas desta vez, as convicções mais essenciais do demônio da cozinha do inferno vão ser postas a prova, em uma gigantesca discussão sobre bem, mal e a natureza da sua cruzada contra o mal. Altruísmo, sociopatia ou uma forma de revidar contra um mundo que o submeteu a horrores que quebrariam espíritos menos resilientes? Estes elementos, inclusive, conectam a história, tematicamente, com Immortal Hulk, publicado na mesma época pela Marvel, já que a discussão estrutural aqui é: o que nos faz pessoas boas? E existe alguém de fato bom, em um universo frio e que não se importa com quaisquer abstrações que criemos como sociedade para tentar conferir algum sentido para aquilo que, na verdade, nega qualquer conceitualização do tipo? 

Acho que não é spoiler, visto a cobertura midiática e polêmica resultante, comentar que em dado momento da história, Murdock tem que abrir mão do uniforme vermelho e Elektra acaba assumindo a posição de guardiã daquele bairro de Nova Iorque. E aí, é a vez dela experienciar o quão insuportavelmente difícil é adotar essa persona e tudo que vem com ela. 

Roteiros de Zdarsky e arte ABSOLUTAMENTE MARAVILHOSA de Marco Checchetto. Tal qual rolava na época de Miller, Checchetto faz de Hells Kitchen um lugar vivo, orgânico, o que só torna a experiência ainda mais visceral. 

Trinta e cinco edições até agora. Leitura absolutamente obrigatória para qualquer fã do personagem. Ou simplesmente, pra qualquer fã de uma boa história muitíssimo bem contada.

Por hoje é isso, crianças. 

Fiquem ligados pq ainda hoje tem Monster Mash. 

Eu acho. Hey, motherfuckers, não me culpem, okay? "A vida é o que acontece enquanto fazemos nossos planos", lembram? Mas eu vou tentar. :-)

Hasta

Respect!!!!!

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

The book is on the table #4: "Sobre anjos e demônios".


Yo, dawgs...

Hak in here. Seu adorável host.

Fuck... desculpem se eu soar mais disperso do que de costume aqui na "the book is on the table". Principalmente depois de duas (ou três?) semanas sem texto. Mas entre lá e cá, tivemos um feriadão e certas mudanças no meu status profissional que me forçaram a ir estudar e aprender coisas em uma velocidade insana e num tempo curto, então... Não teve texto nos dias passados.

Mas, para alegria da nação groselhana que vem aqui todo dia atrás de minhas mal traçadas palavras, eis-me aqui. Leituras feitas, discos ouvidos, filmes e séries vistos, games jogados. Bora comentar um pouco sobre as coisas mais legais que passaram pelo meu radar em tempos recentes. 




Primeiramente, acabou The Immortal Hulk. Primeiramente, eu vou já adiantar: não vou adentrar a polêmica envolvendo o desenhista da série, o brasileiro Joe Bennet.

Primeiro, pq sites melhores já fizeram isso. E segundo, pq eu não vou deixar as escolhas ideológicas infelizes do sujeito mancharem a minha percepção de uma série que, não fosse por isso, seria quase perfeita. Ele que vá pro inferno, podemos só coletivamente dizer que Hatsune Miko ou Nick fucking Gage desenharam a hq e já é. Okay? Okay. 

Isso posto. Okay, eu vou tentar conter as emoções aqui, mas vocês sabem que falar de títulos do gigante verde é sempre uma experiência meio visceral pra mim. Três vezes, eu "comecei" com quadrinhos de super heróis. A primeira vez, com 6 anos de idade. A segunda, em 1990, já com 10 anos. E a terceira e definitiva, da qual não teve volta, alguns meses depois desta. Em todas elas, foram gibis do incrível Hulk. 

Em sendo eu um filho dos anos 80 (nasci em dezembro de 79), eu cresci com as séries da Marvel que passavam na tv aberta. O Homem Aranha que só aparecia andando em prédios de longe. O Capitão América que usava um capacete de motociclista com asinhas e tinha escudo transparente. E, claro, o Hulk de Lou Ferrigno. Das anteriores, tenho só algumas lembranças esparsas. Desta, no entanto, lembro claramente, graças a minha relação de amor e pânico com ela (a transformação do Banner para o gigante verde me dava calafrios). Imagino que algo de permanente da série ficou na minha cabeça já que, repetidas vezes, foi minha porta de entrada pras hqs de super heróis. 

Peguei toda a fase do Peter David desde o começo. Hulk cinza, Sr. Tira Teima, Hulk inteligente e verde, Panteão, etc, etc, etc. Dali, pro resto do universo Marvel e pros gibis de super heróis como um todo, foi um pulo. Fui e volto pro título, de tempos em tempos, mas novamente - e principalmente, considerando que eu cresci um homem que tem uma profunda relação de amor com a própria raiva - é onde eu acabo me sentindo mais confortável e provavelmente o personagem que melhor ressoa comigo. 

So... Immortal Hulk de Al Ewing e Joe Bennet. 

Provavelmente a melhor fase do título desde a era David. Clássica, simples assim. 

Sob a premissa de um Hulk que se descobriu, de fato, incapaz de morrer, Al Ewing muda os rumos do quadrinho. Menos uma fantasia super heróica e mais uma história de horror. Body horror, horror cósmico, horror existencial. Escolha o seu tipo de horror favorito. Ao mesmo tempo, a trama é uma gigantesca discussão sobre a natureza do mal e como você coloca a criatura mais poderosa do panteão de personagens da Marvel contra um desafio que nem mesmo ele pode esmagar. 

Já no seu número de estréia, a série nos pega pela mão e pergunta: "o que é o mal?". E se esta é uma história de bem vs. mal, como você derrota o mal definitivo?

A partir disto, vemos diferentes versões do mal. O mal fruto de ações individuais, o mal institucionalizado, vindo sob a mão do estado e com a pecha de lei e justiça. O mal das elites, fruto de uma mistura perigosa de privilégio e apatia. O mal engenhado, fruto de mentes desprovidas de qualquer ética. 

E um mal indescritível, vindo apenas da inexistência do bem. O vazio infinito, o fim de todas as coisas. Aquela sombra que nos acompanha por toda vida, nos lembrando de que nada permanece e tudo passa. Tudo que é sólido se desmancha no ar. 

A trama escala lindamente e conforme o nível dos perigos vai aumentando, vamos percebendo que apenas socar o adversário não vai funcionar, mesmo para o homem mais forte do universo. E o terror do gibi vem exatamente disso.

 



Na edição final, Hulk e seus aliados estão LITERALMENTE no coração do inferno, tentando conseguir algumas respostas do demônio em pessoa e tudo termina no meio do caminho perfeito entre o épico e o intimista. Talvez, ligeiramente insatisfatório pela ausência de respostas definitivas, mas apenas porque a HQ se permite aprofundar em temas essenciais da existência humana e como tal, estas respostas não existem. Só nos resta nos indagarmos, de novo e de novo, como filósofos fizeram, fazem e continuarão fazendo por toda a existência humana. 

Ewing faz miséria criando novos conceitos emprestados dos clássicos do horror, ao mesmo tempo que mergulha fundo no lore da série. Eu, que estou aqui desde a década de 90, ficava com os olhos brilhando ao rever momentos clássicos e frases emblemáticas dos últimos 30 anos de gibi trazidos de volta. Os criadores não tem nenhum pudor em beber das fontes clássicas do horror: Lovecraft, John Carpenter, Edgar Alan Poe, Robert Louis Stevenson. Tudo em um mix igualmente fascinante e macabro. 

Já escrevi aqui no blog sobre o número 25, até então, minha edição favorita da série. Hoje, esta posição é dividida com outras duas edições: a brilhante edição final e o nº 34, "The apotheosis of Samuel Sterns". 

The Immortal Hulk. Cinquenta edições. Uma lenta descida ao inferno, esta gigantesca sala de espelhos infinita onde tudo que temos é nosso demônio favorito nos olhando de volta. 

Já disse recentemente que Jason Aaron fez recentemente, no título do Thor, uma fase que confere ao autor o direito de sentar na mesma mesa de Walter Simonson como a melhor e definitiva do personagem. Da mesma forma, Ewing e Bennet compõem juntos, uma fase singular e antológica do quadrinho do gigante gama. 

Seguindo adiante, mas me mantendo, mais ou menos, no tema: Strange Adventures.




Da mesma equipe criativa que nos deu o gibi do Sr. Milagre: Tom King e Mitch Gerards. 

Doze edições redondinhas. Se o gibi do Immortal Hulk nos questiona sobre a natureza do mal, King e Gerards dão um giro de 180 graus e nos questionam sobre o que é um herói. 

Na série, Adam Strange, o campeão de Rann, é investigado por um suposto assassinato cometido na Terra. O foco da série transita entre flashbacks de uma sangrenta guerra ocorrendo em Rann e a investigação do crime acima mencionado, liderada pelo Mr. Terrific. As duas perspectivas vão inevitavelmente colidir e é a partir desse choque que os criadores extraem o coração da narrativa. 

Tal qual em um momento específico na segunda metade de Immortal Hulk, Strange Adventures fala essencialmente sobre a história enquanto narrativa, o que é um tema fundamental em nossos dias de fake news e alt-rights. As duas capas da edição que abre o título já entregam.

Na primeira, que é nosso primeiro contato com a série, Adam Strange, o clássico herói. Loiro, forte, com seu uniforme que remete ao sci-fi dos anos 60 cheios de invasores espaciais e atomic horror. Flash Gordon e Doc. Savage. Já na segunda capa, vemos uma visão mais sombria e distorcida da primeira. Sinistra. Corrompida. 




Estas 12 edições caem como uma luva nestes nossos tempos em que começamos a olhar a História sob um viés crítico e onde iniciamos uma discussão sobre a integridade de ditos "heróis". A figura retratada em estátuas e que era descrito como um explorador mas que na real, nada mais era que um genocida. A corporação que visa nos proteger mas que nada mais é do que a mão armada do estado. E claro, o "mito" que veio como um messias salvar a pátria mas que nada mais é do mais fantasia criada por meia duzia como forma de avançar suas agendas de morte e enriquecimento das elites. 

Narrativas, histórias. Contos que mudam o mundo e alteram a realidade. Não é um acidente a escolha de Michael Holt, o Sr. Incrível, como o real protagonista e motor da trama aqui nesta história.Um homem negro como o real agente motivador da trama, avançando a história e revelando o horror por trás da figura do "salvador do mundo". 

Um gibi ao mesmo tempo importante e excelente. 




Temos recentemente ouvido a exaustão a frase "a história vai julga-los" a respeito dos criminosos que comandam nossa nação atualmente. A tese defendida em Strange Adventures é que a História não julga ninguém. PESSOAS julgam PESSOAS e às vezes, só é preciso UM homem com a devida motivação, para tirar o véu de beleza de uma narrativa e coloca-la nua e crua diante da sociedade. 

Quadrinhos de super heróis sempre giraram em torno da dicotomia entre heróis e vilões. Strange Adventures vem nos lembrar que, às vezes, as linhas separando ambos são mais turvas e difusas do que pensamos. 

Por último, mas não menos importante: joguem Spiritfarer.




Falo mais quando terminar. Mas sério: se vocês querem um jogo lindo visualmente, sem um pingo de violência mas com um peso emocional do tamanho de um planeta, joguem Spiritfarer. Eu sei que é um clichê batido dizer que o jogo tem a sensibilidade das animações do estúdio Ghibli, mas não acho que isso seja demeritório de qualquer forma. Spiritfarer é uma obra profundamente emocional, sem precisar apelar pro melodrama ou pra breguice e que fala sobre morte de uma forma honesta e com uma delicadeza que raras vezes você vai encontrar, mesmo em produções maiores e com maior orçamento.

Já estou com cerca de 35% do jogo completado e amando cada segundo, mesmo aqueles em que o jogo esmigalha meu coração sem dó ou piedade. 

É isso, crianças.

Talvez tenha mais uma coluna essa semana. Talvez não.

Talvez tenha uma edição da Monster Mash. Talvez não. Talvez até duas. 

Aguardem e confiem. 

Hak out.

Respect!!!!

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

The book is on the table #3: "Mesmo no espaço, todo mundo vai ouvir você gritar RAINMAKER!!!!!"

Eu gasto caracteres e mais caracteres falando ontem de Daniel Warren Johnson e duas de suas obras, descrevo dois dos seus trabalhos menos conhecidos, falo de UMA de suas hqs publicadas em uma das duas maiores editoras do planeta e completamente desconsidero A OUTRA publicação com roteiro e arte dele, publicada pela OUTRA maior editora do planeta e que, vejam vocês, não só foi a que eu li como foi também a razão de eu ir atrás dos outros gibis assinados pelo sujeito e que, além disso, é o motivo de eu estar falando dele no blog por dois dias seguidos. 


Goddamnit... é por isso que o Brasil não vai pra frente. 

Oh.... oh, yeah, verdade: olá. The book is on the table #3 no ar. Hak the mothafucking bear, o anti-buda suburbano, o fucking Misunderstood Mastermind, mais uma vez pra te trazer gibizinhos, séries, filmes, discos e demais coisinhas bacanas eu eu tenho consumido recentemente. 

Edição dupla essa semana pq não animei de escrever semana passada. Até tem coluna pronta mas não tava feliz com o resultado final. Mas agora vai. Talvez hoje ainda tenha Monster Mash por aqui. Talvez no final do semana. Ou talvez eu publique duas, semana que vem. A coluna, no entanto, volta pra periodicidade semanal pq eu apenas sou velho demais pra produzir texto nestas proporções. 

Bora?

Comecemos com joguinhos. 


Só comentando por cima, peguei Bloodborne novamente. Pq? Pq eu sou teimoso, simples assim. Parece que agora eu engrenei no jogo. O visual dele é lindo, mas a repetição ad-infinitum é um treco que me afasta horrores de qualquer coisa. Guacamelee é um game que eu só terminei pq a) o visual é lindo e b) FUCKING LUCHA, MOTHARFUCKER. Mas essa coisa de passar 5 horas jogando pra avançar quase nada é um treco que me brocha. Celeste, por exemplo.

Todo mundo fala desse jogo de forma positiva então, peguei pra ver qual é. Saí puto achando que era só um Cat Mario com historinha. 

Por sorte, no entanto, acho que o que me fez querer passar mais tempo em Yharnam, o pedacinho do inferno que serve de cenário para as aventuras do caçador sem nome, foi que eu finalmente senti uma evolução. No meu personagem, pq eu upei algumas de suas habilidades, mas também em mim, enquanto jogava. Os golpes saiam com mais precisão, as esquivas saíam de forma mais suave. Creiam-me, ainda fui surrado pelo primeiro boss que encontrei, mas não sem antes lanhar o bicho e tirar uns 3/4 da sua barra de energia. 

Não é o primeiro da série Souls que eu pego, já que cheguei a jogar algumas horas de Demon Souls no ps3 (acho que até comentei aqui) mas é o que mais chamou a atenção, principalmente pela ambientação, que ressoa comigo bem mais do que fantasia medieval. 

Vou ver até onde vou antes de dar rage quit. Talvez não muito mais longe. Talvez, até o final. 

I mean, se eu zerei Guacamelee, incluindo passando pela via crucis que foi pegar todos os fragmentos da máscara pra ver o final verdadeiro, não vai ser uma besta fera parecida com uma abstração senciente que vai me assustar...


...acho. 

Agora sim, gibizinhos. Daniel Warren Johnson. Beta Ray Bill.


Beta Ray Bill é uma minissérie em 5 parte publicada esse ano pela Marvel, com roteiro e arte de Johnson, protagonizada por um dos personagens mais legais do panteão asgardiano da Terra 616. 

Bill foi criado por Walter Simonson em sua clássica passagem pelo título. Após o final da sua fase, ele teve altos e baixos, seja em fases solo, seja como um dos personagens do núcleo cósmico da editora, já inclusive, tendo sido membro dos Guardiões da Galáxia. 

Nessa mini, vemos o personagem perdido, depois de ter seu martelo, Stormbreaker, destruído por Thor em um momento de berserk ocorrido em histórias prévias. Com seu poder reduzido e sem a habilidade de reverter para sua forma humanóide, Bill decide abandonar Asgard atrás de Odin, que deixou a cidade dourada, e de um novo martelo mágico. Ao encontrar o "pai celestial" da Marvel (não sem antes descobrir um clandestino em sua nave, ninguém menos que Skurge, que se apiedou do guerreiro e decidiu ajuda-lo em sua empreitada) e receber o conselho de ir atrás da espada negra de Surtur, os dois partem, junto da nave senciente de Bill e do troll Pip, em missão até Muspelheim, o reino de fogo onde a arma jaz, cravada na terra. 

Você encontra de tudo um pouco nesse gibi. Drama, nos momentos mais introspectivos de Bill, principalmente na relação que surge entre ele e a manifestação da IA da sua nave, Skuttlebutt. Comédia, em quase toda cena envolvendo Skurge. Horror cósmico, já que a missão do grupo se assemelha à jornada de Dante, inferno adentro. E claro, ação. Insana. Belíssima. GRÁFICA!!! GLORIOSA VIOLÊNCIA. 

Um gibi extremamente divertido com a belíssima, sem brincadeira, BELÍSSIMA arte de Johnson. Ele é daqueles artistas tipo John Romita Jr., Gary Frank e Dale Keown que transitam de forma extremamente rápida e competente entre drama e comédia, de forma muito natural. Essa é uma capacidade que muito artista grande e renomado não domina então, é sempre válido mencionar. É nesse ritmo que o gibi vai. Comédia e drama alternando de forma rápida, as vezes na mesma página. Com a tensão aumentando conforme o gibi se aproxima de seu clímax e da inevitável cena de combate contra o demônio Surtur. 

Ah sim, Daniel Warren é um grande fã de pro-wrestling e não esconde isso na arte. Eu contei pelo menos UM german suplex, um (acho que) "made in Japan", signature move do dragão Shingo Takagi e, em um momento que me fez berrar, um ripcord lariat, 




ou, como é mais conhecido por qualquer fã da NJPW e, mais especificamente, de Kazuchika Okada: 


RAINMAKAAAAA!!!

Meu veredicto pra esse gibi? 5 estrelas na escala Meltzer. :-)

Aliás, já que mencionei o homem que faz chover da  NJPW, é válido lembrar que


COMEÇOU O G1 31, CARAIO. 

Não vou mentir pra vcs: tem sido complicado assistir a NJPW recentemente. Você soma decisões de booking confusas com o fato de que o público não pode se manifestar exceto por palmas (por causa da pandemia. A situação de vacinação no Japão está bem complicada) e mais a tal da maldição que caiu sobre a promotion (maluco, uma PÁ de wrestler deles teve que ser encostada por um tempo, desde gente que se machucou em lutas - Will Ospreay, Naito, Hiromu DE NOVO - até gente que teve que ficar de molho por causa da COVID - Okada - ou de outras doenças relacionadas ou não ao vírus - tipo, o que diabos aconteceu com Kota Ibushi?). Claro que existem bons momentos isolados, afinal, estamos falando de um dos rosters mais talentosos do planeta, ainda mais contando com a expansão americana e o pessoal do dojo ianque segurando a bronca no NJPW Strong. Mas ainda assim, estes fatores todos tem me desanimado de correr atrás de coisas da maior promotion japonesa do planeta. 

I mean, AEW dominando o mundo, independentes começando a dar sinal de vida novamente, Stardom entregando uma forte candidata a MOTY. Estímulo não falta. Ainda mais com streaming facilitando horrores a vida do fã de luta-livre (Tipo, se tu assina a IWTV, só lá, já tem mais luta livre do que vc conseguiria ver em uma vida inteira).

MAS...quero acreditar que o g1, provavelmente o maior torneio de pro-wrestling do mundo (pau a pau com o BOLA da PWG) pode ser o momento de virada da companhia do leão. Os sinais de má sorte ainda estão lá - como mencionado, Naito teve que deixar o torneio por causa de uma lesão na perna - mas NO MÍNIMO, vamos ver grandes combates e um roster motivado a deixar os dias ruins pra trás e aproveitar o boost que wrestling tem sofrido. Pro-wrestling is cool again. Vamos ver se a NJPW vai finalmente conseguir surfar essa onda de popularidade da luta livre  e deixar a zica no passado.

É isso, pessoas. 

Segunda coluna entregue, promessa cumprida. Bora voltar pra Yharnan pq o mundo não vai se salvar sozinho. 

Bear's out.

Respect!!!

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

The book is on the table #2 - "Kaijus, Heavy Metal e consciência de classe"

 Yo dogs...

Eu sou o seu adorável host, Misunderstood Mastermind, de volta. De bom humor. 

Tava de péssimo humor quando comecei a escrever hoje cedo, devido a uma fila pavorosa, excruciante, inumana, INACREDITAVELMENTE lenta que peguei no mercadinho hoje cedo. 

E eu disse que do lado de fora do mercado estavam rolando obras na rua que envolviam, OBVIAMENTE, uma britadeira funcionando em full mode berserk? Pois é. 

Mas agora, depois de algum tempo, já estou em meu mood habitual. 

So, gibizinhos e demais coisinhas legais consumidas essa semana.

E em dose dupla. Eu prometi semana passada, lembram? Amanhã tem outra.

C'mon, eu jamais mentiria pra vocês. Bom... okay, eu totalmente faria isso, mas desta vez eu estou falando sério, okay? Talvez tenha até uma edição outta nowhere da Monster Mash vindo. Vai saber.



Anyways. Comecemos com o principal: ESSA SEMANA VOLTA DOOM PATROL.

Melhor série baseada em hqs já feita. Pau a pau com Legion, da FX. Dois exemplos de que DÁ PRA FAZER. Não precisa ser uma parada medíocre tipo as séries do Arrowverse ou os Defenders da Netflix. 

A temporada passada acabou em um cliffhanger, em consequência do final súbito das gravações em detrimento da pandemia. Dorothy Spinner indo enfrentar o Candlemaker na pocket dimension de onde os monstros que a menina cria se originam. Os trailers recentes já vieram anunciando que vai tudo ser elevado à enésima potência. DIABOS, vai ter Monsieur Mallah. Ansioso? HELL YEAH, eu tô ansioso. 

Que mais...

Ah sim.

Se não teve coluna semana passada, os culpados são Zander Cannon, Tom King e Jorge Fornés, Daniel Warren Johnson e Brandon Graham. Alguns de seus trabalhos (respectivamente Kaijumax, Rorschach, Murder Falcon/Space Mullet e King City) me levaram para um vórtex do qual eu quase não saio mais.



Kaijumax, particularmente, eu reli tudo, as 5 temporadas anteriores (que é como Cannon, autor da série, decidiu dividir os arcos. Cinco seasons de seis edições cada). Começa incrível e segue incrível até a season 4. Aí chega a season 5 e DEUS DO CÉU. Mas vamos por partes.

Kaijumax, série de, até o momento, 30 edições, da Oni Press, narra o cotidiano da ilha prisão de mesmo nome onde kaijus - sim, os monstros gigantes - são enviados para pagar pelos crimes cometidos contra a humanidade.

Ceis viram "Orange is the new black"? Ou "Oz"? Ou qualquer filme que narra o cotidiano dentro de uma prisão? Então vocês sabem o que esperar.

A arte e a premissa prometem um gibi leve, talvez uma comédia. E o humor está lá, não duvidem. mas ele vem de forma episódica e entre um rompante e outro, temos drama, tragédia e muita, MUITA dor.

Acompanhamos a trama pelos olhos de Electrogor, um kaiju que foi preso enquanto tentava sugar energia de uma usina nuclear para gerar os ovos que usa para alimentar seus filhos. Novamente, se vocês viram séries e filmes passados em penitenciárias, vocês PODEM PENSAR que sabem o que esperar. Mas nope, a série sabe te pegar de surpresa. 

Os 3 primeiros arcos mostram as idas e vindas de Electrogor e outros presos, além da dinâmica interna da ilha. Os grupos que se formam (supremacistas kaijus, cyber monstros que rejeitam a vida carnal, além dos perdidos que tentam orbitar - e talvez, faturar algum $$$$ - entre todos os grupos), a perspectiva dos "guardas" (basicamente, uma versão mais corrupta da tropa Ultra) e, em algumas situações, como é o mundo fora daquele pedaço do inferno. 

É uma história PROFUNDAMENTE divertida, não me entendam mal. Mas também é uma sátira política sobre as falhas do sistema prisional e como ele é parte de um sistema maior, feito para manter todo um grupo oprimido. As metáforas não são sutis de maneira nenhuma e, nesse caso, nem precisam ser. 

O quarto ano da série foca na ala feminina da ilha. Começa mais leve, mas, novamente, te surpreende quando tu menos espera.

Aí vem o ano 5. BOY, oh boy. "The orange mile", mostrando a ala da cadeia destinada para os monstros condenados à morte e esperando execução. Acompanhamos o julgamento de Pikadon, um dos maiores chefões do crime kaiju no planeta. Alguém de quem apenas ouvíamos falar nos números anteriores da série, sempre com um ar de horror acompanhando seu nome. E de fato, quando finalmente nos damos conta - e veja bem, era TÃO óbvio que passou batido por todo mundo - ele é, figurativa e literalmente, um monstro. Mas passamos a ver detalhes desse personagem, seu passado e quando essa carga de informação, somada ao backstore dos personagens que já conhecemos anteriormente, nos é revelada com nuances, percebemos que essa é uma história sobre empatia. Sobre como a sociedade crucifica pessoas que, pra começo de conversa, nunca tiveram uma chance pq essa mesma sociedade destinou a elas uma posição de periferia (novamente, literal e figurativamente) na sociedade. O papel deles é ser os monstros. As vítimas que cometeram o crime de tentar fugir do destino que esta mesma sociedade reservou pra eles, da forma que for. Sintomas de um mundo PROFUNDAMENTE doente. Não uma falha do sistema, mas um de seus produtos naturais. Sempre é preciso lembrar: criminalidade, pobreza, classes sociais desfavorecidas. Isto NÃO é um acidente do capitalismo. Isso É o capitalismo. É o capitalismo funcionando EXATAMENTE como deveria. 

Que esse gibi traga essas discussões ENQUANTO nunca deixa de ser um gibi divertido e que entretêm o tempo todo, é algo digno de nota. As referências quase non-stop sem nunca deixarem de soar orgânicas (sério, sem adentrar detalhes em excesso, mas vemos um musical "Hamilton style" dentro da trama só que recontando a história do Godzilla original de 54), tanto no visual dos personagens, quanto nas gírias desse grupo e até nas tatuagens que estes condenados carregam, tudo traz um pedacinho a mais de história e confere tridimensionalidade a aquele universo. A série tem momentos PROFUNDAMENTE perturbadores ao mesmo tempo que tem outros que me fizeram rir alto. 

Já está rolando a season 6 e última da série. Bate aquela sensação agridoce de ver a conclusão da trama como planejada por Cannon, mas ao mesmo tempo, ter que dizer adeus a este mundo riquíssimo, cheio de super ciência, magia negra, aliens e criaturas intra-terrenas. Um mundo de monstros e homens e sobre as linhas que separam estes dois conceitos.  

Espero alguns spin-offs mostrando outros aspectos desse mundo - bom, caso sobre algo dele depois do fim. 

E falando sobre o fim do mundo...



Ainda me mantendo nesse terreno do gibi autoral, li Murder Falcon (roteiro e arte de Daniel Warren Johnson e cores de Mike Spicer) e Space Mullet (Johnson escrevendo e desenhando).

O desenhista e roteirista é um dos "novos nomes" dos quadrinhos americanos e tem tomado a cena de sobressalto, já tendo inclusive um trabalho lançado em uma das duas majors (Wonder Woman: Dead Earth). De fato, seu roteiro e arte são... acho que "refrescantes" é a palavra. De fato, seus gibis tem uma energia punk e ele navega por temas sabendo transitar entre drama e leveza com uma graciosidade que é raro de ver. 

Murder Falcon é uma mini em 8 partes, publicada pela Image Comics, que mostra as aventuras de Jake. Ex-membro e líder de uma banda que se separou depois de uma tragédia pessoal vivida por seu frontman, seu mundo muda depois de, durante um ataque de monstros, ele encontrar Murder Falcon, uma entidade guerreira que utiliza o poder do rock como combustível e precisa não só que o rapaz volte a tocar, mas que reúna sua banda como forma de reviver outras entidades para ajudá-lo em sua missão. 

Falando assim parece uma trama leve e escapista e de fato, o gibi bebe muito de obras como o filme do Tenacious D ou jogos como Brutal Legend. Aquela coisa do PODER DO METAL (imaginem isso dito com um agudo Detonator-style). Mas ao mesmo tempo, existe um segundo nível de trama, BEM menos leve, sobre o poder da música como elemento de superação de traumas e tragédias. O quadrinho tem momentos bastante densos, emocionalmente falando e que podem tirar uma ou duas lágrimas de algum leitor incauto (nope, não falo em primeira pessoa. Nope... de forma alguma......). Exatamente por causa desses momentos, a ação é PROFUNDAMENTE empolgante, pq nos importamos com aqueles personagens. Porque sabemos do peso que Jake carrega consigo, assim como ocorre com os demais membros da sua banda, a Brooticus. Todos os personagens tem seu devido momento de brilhar sob os holofotes, e estamos falando de um grupo não particularmente pequeno. 

Pra qualquer um, esse gibi é certeza de uma boa leitura. Se você for fã de metal então, só pega algum disco clássico do gênero, coloca pra rodar com o volume no talo e apenas VAI ler Murder Falcon.


Já Space Mullet é uma graphic novel publicada pela Dark Horse em 2016 - surgida inicialmente como uma webcomic publicada por Johnson, na íntegra e gratuitamente, em seu site -  que traz temas parecidos com os de Kaijumax. Jonah e seu parceiro, o alien Alphius, são dois pilotos de uma nave de carga que vai aos trancos e barrancos, entre um trampo mal pago e outro, até que são contratados para realizar um trabalho que pode mudar a vida de ambos, ao mesmo tempo que força Jonah a reviver seu sombrio passado. Novamente, uma trama de premissa simples mas que serve de porta de entrada pra um universo muito bem elaborado e cheio de detalhes. A trama também inclui discussões sobre classes sociais, preconceito e xenofobia, abuso de poder militar e espetacularização da miséria. 

Apesar da publicação, a história ainda está disponível no site oficial da série (inclusive, o tpb que eu li contem apenas uma parte da história. Terminando esse texto, vou lá conferir o resto). 

A arte lindíssima, em tons de preto, branco e azul descreve muito bem o mundo dos personagens. Noir e melancólico. Altíssima tecnologia que convive com cantos do universo em estado de miséria. Personagens se colocando em situações que jamais deveriam estar, em primeiro lugar, se não estivessem tolhidos de qualquer outra opção como forma de garantir a própria sobrevivência. Acreditem: o título engana. A trama tem elementos que me lembraram, ao mesmo tempo, o clássico de 1969 "They shoot horses, don't they?", o anime Cowboy Bebop e sua "prima americana", Firefly. 

Outro daqueles gibis que poderiam durar pra sempre, com mundos ao mesmo tempo estranhos e tristemente familiares que causam na mesma medida, repulsa e fascínio e dos quais nos vemos querendo conhecer mais e mais. 

De Rorschach e das obras do Brandon Graham, eu falo outro dia.

Por hora, vou deixar os gibizinhos e falar das paradas que estou ASSISTINDO.


Larguei quase todas as séries de TV que via - ou melhor, coloquei todas em um hiato indeterminado - e decidi voltar pro universo dos tokusatsus. 

Leitores de longa data do blog devem lembrar que eu tive, por um tempo, uma seção fixa onde eu falava de séries japonesas desse tipo. Acabei não dando continuidade, mas decidi que era uma boa hora pra ficar em dia. Até pq, vejam bem...


Meu problema com séries em geral, é que eu tenho SERÍSSIMOS problemas de atenção. Manter minha concentração é algo complicado. Quando vejo séries com Stella, durante o final de semana, é bem mais simples. Mas sozinho, com toda a constante cacofonia da internet pra me tirar a atenção? Querer que eu me dedique a programas de tv de uma hora com 12 a 24 episódios é esperar um pouco demais de mim.

Existem exceções, mas estas só vem para comprovar a regra. 

Com tokusatsus é bem mais simples. 20 minutinhos por episódio e, em média, 50 episódios por série. 

Se eu quisesse, em uns 3 dias dava pra matar séries inteiras. Dessa forma, eu consigo enganar meu cérebro e mante-lo concentrado por 3, 4, 5 episódios de toku-shows por vez.

Uma vez decidido a ver programas do tipo, a questão era: por onde começar? 

Pensei em ver na ordem cronológica, mas não ia funcionar. Pretendo voltar para os clássicos e primeiras gerações dos Sentai, Ultras e Riders, mas por hora, fiquei com contrapartes mais recentes destas franquias.

A saber: 

Kamen Rider Zi-O

Kamen Rider Gaim

Kamen Rider Ex-Aid

Kamen Rider Wizard

Shinkenger

e Ultraman Orb. 

Vi os primeiros eps. de todas acimas, mais uma que só não curti e vou deixar pro futuro (Goseiger). 

Meio que eu adorei todas. Wizard, Gaim e Ex-Aid tem uma cinematografia linda, em um mundo vivo e cheio de cores e isso me fisgou rápido. A trama, bem legal, só contribuiu.

Zi-O também me encantou, apesar de beber com força do lore dos Riders e como eu só vi o que passou no Brasil e mais Kamen Rider Ryuki, pode ser que eu "perca a piada" aqui e ali. Mas se isso não me impediu de adorar Gokaiger, série cuja trama girava em torno de todas as séries sentai anteriores, acho que não vai ser isso que vai me fazer desgostar do show. 

Shinkenger... confesso que foi escolhida por pura aleatoriedade e, devo dizer, dei sorte. A série é visualmente bonita e a trama... acho que é melhor roteiro de todas dessas que comecei a ver. O episódio 5, por exemplo, usa a história para, através de uma trama de crescimento do líder do grupo, introduzir um dos tropes mais clássicos do gênero mas que, aqui, soa realmente surpreendente. Todo mundo, dos heróis aos vilões, exala carisma, com personalidades muito claras e bem definidas. As cenas de ação são muito legais e nem o CGI meio tosco atrapalha. Se você, como eu, é um toku-fã mancheteiro criado a base de Jaspion e Changeman, sempre quis voltar a ver seriados dessa natureza mas nunca soube por onde começar, vai na fé: Shinkenger é maravilhosa e daquelas pra fazer binge de horas e horas. 

Falo mais - COM CERTEZA - conforme for avançando. 

Por fim, Ultraman Orb. Minha primeira série Ultra da vida adulta (vi episódios da série original mas nunca fui até o fim). Até o momento? Só sei que gostei. Vi só o primeiro episódio e não tem muito nele pra tecer parágrafos e parágrafos, mas ele vem pra estabelecer a premissa e manter o interesse do público e fez as duas coisas comigo de forma muito competente. E ser uma série mais curtinha, com apenas 25 episódios, só contribui. 


É isso, crianças. Promessa paga. Amanhã tem mais. Mais curta, provavelmente, mas tem. 

The Misunderstood Mastermind is out!!!

Respect!!!

*Atualização: eu erroneamente creditei a arte de Murder Falcon a Mike Spicer, quando na real, ele foi o colorista da série que tem roteiros E arte de Daniel Johnson. Já corrigido mas ainda assim, mals aê. 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

The book is on the table #01 - "É a esperança que mata".

 Yo, dogs....

"The book is on the table #01". Esse é o nome da nova "coluna" aqui no blog, da qual eu falei semana passada. Batizada, obviamente, pela minha talentosíssima esposa, a mesma mente que deu o nome para a "Monster Mash", a mixtapezinha oficial daqui do Groselha. 

Como já dito, a idéia é adotar um formato meio "newsletter" e falar de forma meio descompromissada - mas nunca superficial - sobre as recentes leituras, filmes vistos, discos ouvidos e o que quer que eu ache interessante de compartilhar com os senhores. 

Comecemos com quadrinhos, pq, afinal, é nossa mídia favorita.


Retomei a leitura de "Gideon Falls". Tinha lido os primeiros, 4, 5 números acho, uns tempos atrás. Até cheguei a comentar sobre em uma das edições do "Sobre homens que podem voar", o podcast que fiz uns tempos atrás e que os senhores podem encontrar lá no youtube (e antes que perguntem, não penso em continuar com ele. Meio desanimado de qualquer projeto que dependa de subir em uma plataforma que se apossa daquilo que eu criei e que cria todo um conjunto de regras imbecis pra definir se eu posso ou não divulgar o que eu fiz para o máximo de pessoas possível. Não quero me preocupar com o algoritmo do youtube, ou do spotify ou qualquer coisa do tipo #Blogging4ever ). Decidi pegar o gibi de volta e.... rapaz.

Digamos que eu tenha parado a leitura anterior antes de uma edição pivotal, daquelas que mudam sua percepção da trama como um todo. Desta vez, fui até a edição 10 e .... novamente... rapaz!!!!

Normalmente, falando de gibi, é fácil vc se concentrar na trama e render todos os loas possíveis para o roteirista, negligenciando o artista que desenhou o negócio. Sei lá, deve ser coisa vinda da nossa relação com o cinema, onde creditamos o filme a uma, duas pessoas no máximo (diretor e roteirista) e esquecemos de toda a horda de pessoas, literalmente DEZENAS, que precisaram botar esforço ali para aquele projeto sair do jeito que saiu. Anyway... todos os méritos ao roteiro de Jeff Lemire mas o que torna esse gibi algo único é a arte.

Sem entrar demais no mérito da coisa pra não spoilar: o padre Willfred chega á cidadezinha de Gideon Falls, uma dessas comunidadezinhas rurais no interiorzão dos EUA. Lá, logo na primeira noite, ele tem seu primeiro contato com o black barn, um barracão negro sinistro, material de lendas - e pesadelos - locais. Ao mesmo tempo, em outro canto da cidade, vemos Norton, um rapaz recentemente liberado por um hospital local depois de um período lá em virtude de suas patologias mentais,e que possui um passado que o conecta ao macabro barracão. Novamente, sem adentrar demais, chega um ponto em que os protagonistas finalmente conseguem acesso ao black barn. Neste momento, para mostrar que eles tem acesso a níveis dimensionais diferentes do 3D, o desenhista, Andrea Sorrentino aproveita para fugir do convencional. Pensem em Promethea e seus momentos mais lisérgicos.

Algo nesse nível. Sério, é impressionante como ele adapta a própria arte para diferenciar os momentos dentro e fora do barracão negro. Eu não consigo descrever o quanto são legais essas páginas e como ele é bastante eficiente em demonstrar que aquilo que os protagonistas estão experienciando é completamente desconectado de qualquer noção de tempo e espaço que nos sejam familiares. Brilhante, absolutamente brilhante. E novamente, o roteiro de Jeff Lemire, um dos grandes nomes dos quadrinhos atuais, só ajuda. É uma trama que bebe do souther gothic, mistura com Twin Peaks, sci fi e..

Sério, só peguem pra ler. Aproveitem que a série é curta. Seis encadernados. Vinte e sete edições. Em uma tarde, vocês matam a série inteira. 

Mudando de mídia, agora falando de cinema.


So. Green Knight. Filme novo da A24. Todo mundo tava no hype depois dos trailers e posteres mostrando um filme particularmente com cinematografia de encher os olhos. Restava saber se a história iria pelo mesmo caminho. 

Na história, acompanhamos o que pode ser a "história de origem" de Sir Gawain, um aspirante a cavaleiro do Rei Arthur, e seu fatídico encontro com o Cavaleiro Verde. O gigantesco homem, meio humano meio árvore, se aproxima da corte Arthuriana nas comemorações de final de ano e propõe um jogo. Um dos cavaleiros irá atacá-lo com sua espada. Um ano depois, este cavaleiro irá até os domínios da criatura, onde receberá dela um ataque nas mesmas proporções que o que desferiu no primeiro encontro de ambos. Depois disso, cada um segue sua vida.

Gawain, tentando mostrar força, decapita o Cavaleiro Verde sem hesitar. Surpreendentemente, o gigante se levanta, pega a própria cabeça e parte, não sem antes lembrar que ele e o jovem tem um encontro, dali a 365 dias. O filme é, basicamente, Gawain indo até o castelo do Cavaleiro Verde para cumprir com sua promessa. 

Se você também se perguntou "pq demônios ele decapitou o bicho, ao invés de só encostar com a espada no rosto do monstro ou algo do tipo?", creia-me, você está no caminho de entender a mensagem do filme. 

Pensem em Amadeus, clássico longa de Milos Forman. Da mesma maneira, Green Knight TAMBÉM é uma história sobre medíocres, sobre pessoas aspirando a grandeza mas em dado momento, sendo confrontadas com a possibilidade de que elas não tenham o que é necessário para atingir tal estado. 

Todo mundo se acha o protagonista do filme, o cara que vai sobreviver ao massacre de zumbis, à invasão alienígena. Ás vezes, no entanto, a vida te lembra que, na tal invasão dos mortos vivos, você não seria o zombie-hunter über cool, matando desmorto com uma serra elétrica, mas sim, um dos mortos-vivos, rastejando sem rumo atrás da próxima dose de massa cinzenta para devorar. 

Você não seria o Negan ou o Rick. Vc seria apenas o Zumbi nº 36 que apareceu por 15 segundos durante um episódio filler e que foi morto com um headshot. 

E dói ser lembrado da própria insignificância, não? É sobre esse desespero, essa busca pela grandeza, esse tatear no escuro, sem a menor certeza de que você pode bancar tal jornada, de que talvez, apenas talvez, você não seja "tão bom assim", que o filme fala. Atmosfera belíssima, um elenco, encabeçado por Dev Patel no papel de Sir Gawain, muito bom e um roteiro eficiente, que passa o que quer passar sem ser didático demais, sem muita exposição e sabendo deixar detalhes nas entrelinhas. 

Eu li sobre o filme ser uma anti-jornada do herói alguns dias depois de vê-lo. Antes disso, no entanto, Stella comentou comigo sobre achar que o filme tinha uma mensagem ambientalista, sobre como tomamos da natureza mais do que precisamos, como pensamos que certas coisas são uma certeza quando - como as mudanças climáticas recentes nos lembram - isso não poderia estar mais distante da verdade. 

E de fato, acho que as duas leituras estão corretas e se complementam. Afinal, não existe nada mais eficiente para lembrar a humanidade da própria insignificância do que a natureza. Tipo, estamos trancados há mais de ano em casa por causa de um vírus, sabe? Um corpúsculo microscópico. Nem uma porra de um ser vivo, de fato. Ínfimo, mas gigantesco o suficiente para botar o arrogante ser humano, com seu hipotálamo altamente desenvolvido e seu par de polegares opositores, de joelhos. Ou deitado eternamente. 

A humanidade se enxerga como eterna e inevitável, até um terremoto, tsunami, uma crise viral ou uma mudança mais radical na temperatura terrestre nos botar em nosso devido lugar. 

Enfim, pra mim, é um dos melhores filmes do ano, fácil no meu top 10. Talvez, no meu top 5. E olha que o ano está bem fornido de filme. 

Estréia sabe lá deus quando, mas vocês já encontram por "meios alternativos". E de qualquer maneira, não vão ao cinema, kemosabe. Covid 19, ya know? Okay, okay, já tem gente com suas devidas DUAS doses tomadas (eu, só no fim do mês), mas mesmo assim, aproveitem que quase todo lançamento grande tá saindo também em alguma plataforma de streaming. O ponto é: vejam da forma que for. 

Um longa sobre aprender a ser herói. Ou morrer tentando.

Por fim, ainda me mantendo no audio-visual, mas agora falando de um tema do qual eu discorro bem pouco aqui no blog: animes.


Eu confesso que nem sequer sabia que Megalobox tinha uma segunda temporada.

Vi, acho que mês passado, a primeira série. Adorei, um dos meus animes favoritos da vida. 

Aí, vi alguém comentando sobre a segunda série no twitter e fui atrás. 

Tem a série inteira no Funimation. 

Pois bem: estou no episódio 4 de "Megalobox 2: Nomad" e, boy, oh boy. Já gosto mais do que da série original. 

A primeira temporada mostra a história de Joe em um mundo num futuro indeterminado. Próximo o suficiente para tudo ser reconhecível, mas distante o suficiente para mesmo o familiar soar estranho. 

Nesse mundo, as diferenças de classe social parecem ainda mais distintas. Os ricos são MUITO ricos e os pobres.... bom, vocês podem imaginar. Neste mundo, um dos esportes mais populares é o Megalobox, onde boxeadores lutam usando exo-esqueletos tecnológicos que aumentam sua força e velocidade. Prestes a acontecer o principal torneio do ano, Joe e Nambu, seu treinador, decidem adotar uma abordagem peculiar para tentar se destacar e subir no ranking de competidores: lutar sem a tal armadura. Por isso, ele fica conhecido entre os fãs como "Gearless Joe". 

O primeiro ano da série já é particularmente eficiente em estabelecer o mundo no qual ela se passa e em enfatizar a questão da guerra de classes. Não por coincidência: Megalobox é de 2018, ano em que se comemorou o 50º aniversário do clássico mangá Ashita no Joe (de Asao Takamori e Tetsuya Chiba). pra quem nunca leu, Ashita no Joe foi um mangá de boxe publicado em 68. Em seus 20 volumes, a série falava também de pobreza, de classes sociais e do esporte como meio de ascensão social.

Dizer que Ashita no Joe foi importante é eufemismo: a série teve tal impacto na faixa mais jovem da sociedade japonesa da época que suas mensagens e a imagem de seu protagonista, foram adotadas por vários grupos de esquerda em manifestações que pediam por mudanças sociais no país. 

Até hoje um mangá celebrado por sua importância, pelos temas que tratava e, não nos esqueçamos, por ser um excelente gibi de ação. Megalobox surge também como uma celebração de Ashita no Joe e de seus temas.

"então, megalobox é uma versão cyberpunk de Ashita no Joe?"

Não. E sim. E não. Ele usa temas semelhantes mas apenas como base, para falar do mundo de hoje, do mundo de AGORA.

Pode parecer estranho falar de pobreza e Japão, mas lembremos que no ano que "Ashita.." surgiu, o país ainda estava se recuperando do baque da segunda guerra. O suporte financeiro dos americanos já era uma das fontes de recuperação da nação asiática, mas o país ainda sangrava. Foi, pra mim, um choque, ao ler Ashita no Joe pela primeira vez, ver uma favela em pleno solo japonês. 

Então, Megalobox pega esses elementos e os usa para falar do mundo de hoje e a segunda temporada pisa ainda mais fundo nessas questões. A season 2 começa com um salto de 5 anos desde o ultimo episódio da temporada anterior. Neste tempo, algo profundamente traumático aconteceu e causou o afastamento de Joe das lutas de boxe. Encontramos o protagonista perdido, cruzando o país de moto, profundamente quebrado, viciado em analgésicos e distante de todos os demais personagens com os quais estávamos familiarizados. O protagonista acaba, depois de ter sua moto roubada, em um assentamento "ilegal" de uma comunidade de imigrantes.

E pelo simples fato de estarmos em 2021, vocês provavelmente já podem imaginar pra onde essa história vai. 

A série não segura as porradas. Xenofobia, preconceito de classe E contra imigrantes, são discutidos de forma clara. A fantasia de ir para um país que parece acolhedor, em busca de um futuro melhor, em contraste com a realidade de um povo que escolhe imigrantes como bodes expiatórios de toda e qualquer crise social. 

Esta comunidade não é descrita como de nenhum lugar em especial, mas o fato do tom da pele deles ser mais escuro, além da língua latina e dos costumes que remetem ao México, tornam tudo ainda mais familiar para qualquer um vivendo os tensos dias atuais. 

Esse é um ponto em que eu bato sempre: fazer arte política SEM soar proselitista é algo MUITO difícil. Um pouco de sutileza de MENOS e você termina com algo parecido com aqueles conselhos que rolavam no final dos episódios do He-Man. 

Megalobox no entanto, sabe tratar desses temas com equilíbrio. Ainda é uma história de ação, mas uma que discute um estado de direita alimentado por interesses burgueses e que escolhe imigrantes como alvos. Sem excesso de didatismo e sem deixar de ser um anime de esportes. 

Não é um reboot de Ashita no Joe. Está mais para uma reencarnação. Algo que pega as bases do original e atualiza para os problemas do planeta Terra do século XXI. O primeiro arco parece se encerrar no episódio 4. No ponto em que estou, Joe, já em processo de recuperação, decide voltar para confrontar o passado traumático do qual tentou fugir. 

Preciso dizer: em alguns momentos da série, lembrei de "Ted Lasso", série que começamos, Stella e eu, recentemente e que me peguei surpreendentemente adorando. Em um determinado momento, Ted comenta sobre como a idéia difundida na comunidade local onde ele acabou de chegar de que "é a esperança que mata" pode ser uma falácia. Segundo os locais, fã de um time de futebol da cidade que está em vias do rebaixamento na divisão que disputa, é melhor abraçar o niilismo pq, afinal, pelo menos você não se pega decepcionado quando as coisas não saírem como o planejado. 

Ted no entanto, defende que é a FALTA de esperança que mata. De fato, niilismo tem um elemento confortável. "Se nada pode ser mudado, para que tentar?". Ted defende a esperança, em um universo frio e que não dá a mínima para nenhum de nós, como um ato de rebeldia. E essa é uma crença que, confesso, eu sempre carreguei comigo. 

Se deus é um master of puppets sádico se divertindo com meu sofrimento, o mínimo que eu posso fazer é tentar achar alguma felicidade APESAR dele. 

Escapar do niilismo e do desespero é um processo, não um evento. No ponto em que estou de "Megalobox 2: Nomad", Joe começou a longa jornada de volta em direção a...algo. Disposto a resgatar a vitória - ALGUMA vitória - das soberanas e incessantes garras da derrota. 

Não sei ainda COMO ele vai fazê-lo, mas acho que vai ser fascinante estar ao lado dele durante sua odisséia. 


É isso crianças. Longa coluna essa semana. Vou tentar fazer algo mais curto semana que vem. Ou não.

Falo mais de Megalobox quando terminar o anime. E prometo posts também sobre Ashita no Joe e Ted Lasso. QUANDO, eu ainda não sei, mas eles virão. 

Ah, e fiquem espertos aqui no blog que logo, logo, devo subir Monster Mash nova. Musiquinha legal com a SEMPRE EXCELENTE™ curadoria do tio Hak, pra vocês. 

Respect!!!!

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