Primeiro, a má, para já tirar da frente: O episódio de ontem foi o fim da "Conversando com o Starman".
"O QUE? Mas você disse que o projeto foi bem recebido"
Sim, kemosabe, foi. E exatamente por isso, decidi acabar com o negócio, pelo menos, nos moldes atuais.
Mas não veja como um final, mas como o último da primeira temporada.
O que nos traz à boa notícia: Eu comecei esse projeto como um desafio pessoal, para testar se
a) eu conseguia escrever um post médio todo dia (salvo quartas-feiras)
b) se eu conseguia escrever sobre música, mesmo sem entender de linguagem musical, tendo que me concentrar em análise das letras e elementos históricos ao redor dos discos.
E sim, estou bem satisfeito com os resultados. O número de acessos, mesmo considerando que são textos que, em tese, tem a vida útil de exatas 24 horas, era bem grandinho para um blog das proporções do Groselha. Aparentemente vocês curtiram, eu curti, então, vamos ao próximo passo lógico.
Um dos meus maiores medos sempre foi me meter a fazer uma discografia comentada da obra Bowieana porque, afinal, como eu disse, eu tenho zero conhecimento em teoria musical. Mas confesso que o "Conversando..." me deu certa segurança. Em mim, nos meus textos (alguns cacoetes típicos da minha escrita foram sumariamente abandonados, espero que os senhores tenham notado) e no resultado final.
Então.... acho que eu estou pronto. Eu tenho o "know how" de mais de 15 anos sendo fã do Starman, eu tenho referências - desculpem, senhores, se vocês acharam por um momento sequer que eu tirava todas aquelas informações da memória. Para quem estiver interessado, minhas referências vem daqui, daqui, daqui, daqui, daqui e, quando eu preciso de um ou outro detalhe que possa, por mais improvável que seja, ter passado despercebido para os autores anteriores, sempre tem o santo wikipedia - eu tenho a vontade de passar pela história do Homem em seus 26 discos. Então.... por que não?
E caso tenha ficado a dúvida: sim, a idéia é, conforme for passando pelos discos, falar de forma aprofundada, música por música, como eu já fazia na "conversando com o starman", analisando contexto histórico e o conteúdo das letras.
Ah sim, para aqueles dentre os senhores que se sentirem abandonados, eu pretendo trazer a coluna de volta, um dia. Até então, minha sugestão: abracem o mistério. Caso a vida moderna e seus constantes gatilhos de ansiedade forem demais para os senhores, pensem assim: nenhum oráculo funciona. Vocês não precisa de Jesus, de Buda, de Zeus, Odin, Joseph Smith ou L. Ron Hubbard. Qualquer tentativa de prever o futuro é tão falsa quanto todas as demais, então criem as suas próprias.
Na dúvida? Abraça o caos e a aleatoriedade. Tira um cara ou coroa, joga uma pedrinha e vê a direção para onde ela vai, olha como as folhas de uma árvore caem, procure jornais velhos ou qualquer papel jogado com um texto legível que possa ser interpretado como um sinal. Incorpora o aleatório e a serendipitía.
Se nenhum deles funciona, você pode dizer que todos tem o mesmo índice de sucesso, então o que diabos tu tens a perder?
Então, é isso. Continuo postando um post - seja em forma de texto, vídeo ou podcast - por dia (ocasionalmente, até em alguma quarta. E se eu estiver de MUITO bom humor, talvez possa aparecer aqui em finais de semana). A diferença é que os temas variam: além de música, voltam posts sobre filmes, hqs, séries e pro-wrestling. Porque eu sentia falta desse caos, dessa bagunça por aqui. Da próxima vez no entanto, que vocês virem a palavra de nosso senhor sendo professada por aqui, será na introdução da "discografia comentada - David Bowie". Muitas pessoas já fizeram algo do tipo. Mas eu não sou uma delas e, só por isso, já acho válido tentar.
Eu perguntaria se vocês estão comigo, mas vocês nunca me abandonaram, mesmo nos momentos de hiatos mais longos desse diário virtual. E eu sou muito grato por isso, não tenham dúvidas.
Mas, mesmo assim, me permitam uma pequena auto-indulgência só para validar a inserção de um gif do Rocko com o Vacão aqui:
Contexto: Disco já comentado aqui antes (na nona entrada desta seção) então, como de praxe: 笑うノームに従ってください
Sobre a música: Eu gosto do quão referencial "Queen Bitch" é, mas da forma correta. Existem formas e formas de você colocar suas influências na arte que produz, algumas mais ou menos óbvias, algumas mais ou menos sutis. Não coincidentemente, essa faixa se encontra no mesmo LP que "Andy Warhol" e aí, quando somamos os temas Nova Iorquinos, a presença de uma travesti como musa, e a acima citada canção batizada com o nome do líder da Factory, chegamos a óbvia conclusão que, para surpresa de ninguém, Bowie era um grande fã de Velvet Underground. De fato, a partir das visões de New York concebidas a partir da audição do trabalho de estréia do revolucionário grupo liderado por Lou Reed, viria o fascínio de David com a cidade americana, que futuramente seria seu lar por quase toda a segunda metade da sua vida.
Como vai ser o seu dia: bom, um grande potencial desperdiçado já que, considerando o conteúdo da letra, meu conselho óbvio seria para irem passear pela cidade, aproveitar o local onde vivem e se permitirem ser parte dessa grande teia que é a existência num grande centro urbano. Mas aí lembramos que, apesar das pessoas aparentemente terem se esquecido deste detalhe, ainda estamos em meio a uma pandemia e quarentena é indicada. Então, NÃO TIREM O PÉ DE CASA.
Moro em SP já há mais de 20 anos (ninguém é perfeito) e, nesse momento, amar essa cidade, lembrando que todo grande centro urbano é formado por cada um dos seus indivíduos formadores, como uma grande colméia sustentada por cada um de seus habitantes, é tomar todos os cuidados possíveis para garantir a própria integridade física, assim como a dos demais fios que compõem essa gigantesca colcha. Então se cuidem, se puderem, fiquem em casa, usem máscara, lavem as mãos, já sabem de todo o processo. Sejam responsáveis.
E, uma vez que o apocalipse acabar, aí sim, compensem todo o tempo perdido. A cidade que amamos (qualquer que seja a sua), essa grande entidade transgênero, igualmente classy e trashy, hostil e acolhedora, vai estar lá fora, esperando pela gente quando o pior passar.
Frase do dia: "If she says she can do it then she can do it/She don't make false claims"
Sobre a música: Como eu a) me concentro nas letras das composições Bowieanas já que b) não entendo notação musical o suficiente para descrever como a melodia é utilizada para contar essas histórias, geralmente acabo restringindo essa seção a figura de David Bowie em si, parecendo que este foi um gênio absoluto que construiu a mítica ao seu redor de forma solitária e, obviamente, nada poderia estar mais distante disso. Falar do cantor britânico e suas décadas de carreira é também falar de personagens como Kenneth Pitt, Tony DeFries, Tony Visconti, Carlos Alomar, Angela Bowie.
E claro, Mick Ronson.
Apesar dessa canção ser creditada apenas a Bowie, é um consenso entre todos os textos que li, que esta é uma composição coletiva, sendo concebida à "8 mãos" (Além de Bowie e Mick, Woody Woodmansey nas baterias e Visconti no baixo). Mas vamos ser honestos: essa música é aquele momento do show em que todos os holofotes vão para o guitarrista e seus 50 dedos perdidos num solo maior que a vida. E, de fato, quando "She shook me..." entra em seu segundo minuto, ela se entrega a um solo maravilhoso de quase 120 segundos, onde podemos ver porque Ronson merece todos os créditos pelo seu papel na mítica Bowieana, principalmente neste momento formativo da história dela (Ronnie estava lá quando "Ziggy" e suas aranhas de marte catapultaram Bowie e sua banda para o status de deidades). Altamente influenciada por bandas como o Led Zepellin e Cream, "She shook me cold" foi provavelmente o mais próximo que o Starman chegou de compor uma faixa de metal.
Como vai ser o seu dia: A canção descreve o encontro romântico entre duas figuras, perdidas no frenesi romantico que, por sua vez, ganha tons ligeiramente sinistros conforme ela avança e....
Okay, honestamente, eu vou fazer o extremo oposto do que normalmente ocorre aqui e vou ignorar a letra. Só ouçam a melodia e se percam naquele solo belíssimo, naquela colaboração que berra anos 70, naquela jam onde, no final, eram 4 pessoas se divertindo num estúdio.
E se quiserem tirar algo da experiência - e devo presumir que vocês querem, afinal, os senhores estão aqui - pensem o seguinte: se quiser chegar "lá", onde quer que "lá" for, escolha bem seus companions para a jornada. Hey, eu defendo a lógica do lobo solitário tanto quanto qualquer um, mas vamos aos fatos: arte é um processo coletivo. E as vezes, de fato, compor com alguém permite uma visão mais fresca ou a correção de um detalhe que, sozinho, você seria incapaz de notar. É aquilo de mangás para garotos tipo One Piece: você precisa de um crew, uma tripulação que complete seu time, com qualidades diferentes da sua.
A soma dos fatores, de fato, pode ser maior que seus elementos isolados.
Frase do dia: "I'll give my love in vain/ to reach that peak again"
Nova semana, nova entrada em sua seção oracular favorita deste weblog..
Hoje, temos um capítulo particularmente diferente dos demais, o que é maravilhosamente adequado, considerando o caráter disruptivo do disco de onde a faixa que iremos comentar vem. Vamos todos para Berlin, enquanto ouvimos a instrumental (eu disse) e gélida ART DECADE.
Contexto: Então, "Station to Station" era passado. O Duque havia vindo e deixado a vida de Bowie em estado de "terra arrasada" e ele precisava de um recomeço, um sopro de ar fresco. E principalmente, de distância da cena de drogas de Los Angeles. O cantor nunca escondeu seu amor pela Alemanha, desde sua visita inicial a Berlin em 1969. A decisão parecia óbvia e ele (e Iggy junto) foi para a capital germânica.
Como consequência, não apenas da mudança geográfica mas também do desejo de distanciamento do próprio passado e de uma mente aberta as influências locais, Bowie se viu curioso com as características da música pop de vanguarda produzida na cidade: era a época de bandas como Tangerine Dream, Kraftwerk, Can e Neu!. Em comum entre todas, o minimalismo, as vezes em menores tons, dividindo palco com sons mais grandiloquentes, as vezes tomando o papel de protagonismo.
Com a parceria com Brian Eno veio também o interesse por sons mais ambientes. A idéia era rejeitar a história de "storytelling", de narração, que é característica da música americana em gêneros como o folk e o blues e se aproximar da criação de "cenários" sonoros. De fato, o primeiro LP resultante desta nova página na vida do artista, "Low", seu 11º trabalho de estúdio (1977), era dividido em duas metades distintas: o lado A tinha composições em que o rock e o eletrônico coexistiam em músicas com letras, mais próximos do passado de Bowie. Já o lado B era de faixas instrumentais, o mais distantes o possível do que se esperaria de um trabalho de "música pop".
Não surpreendendo ninguém, "Low" dividiu opiniões do público e crítica da época. David, por outro lado, encontrava uma nova "caixa de ferramentas" pra brincar e estava particularmente "confortável" nela. Tanto que seus próximos dois lançamentos teriam fortes semelhanças estilísticas com este disco, daí o hábito de se reunir os três trabalhos sob o epíteto de "a trilogia de Berlin".
Sobre a música: Okay, faixa instrumental, não temos o norte das letras para comentar. Mas o título da canção, "Art Decaded" é, na verdade, um trocadilho com "art decayed" (arte decaída), um comentário de Bowie sobre o estado estéril da cena artística do lado ocidental de Berlin na época, isolada criativamente do resto do mundo. A faixa, de menos de 4 minutos, evoca sensações de estranheza, certa tensão e ao mesmo tempo, conforto. Bebendo das influências locais, a faixa é econômica em seus sons, com os sintetizadores criando um canvas de texturas sonoras ao mesmo tempo agradáveis e estranhas. O final, catártico, parece nos pegar pela mão, e nos levar para um lugar seguro.
Como vai ser o seu dia: Toda mudança é difícil. Eu sei, vocês sabem. Aliás, todo mundo, em escala global, se não sabia disso, aprendeu do pior jeito possível, com esse ano provocando quebras de paradigma de escala global. Adaptação é sempre importante. Absorva o que você puder do melhor do seu novo contexto e se permita se transformar. Toda mudança traz elementos positivos e negativos e cabe a cada um de nós, filtrar o que funciona e o que não. Se tornar algo diferente mas sem abrir mão daquilo que, por sua vez, temos de mais fundamental em nós. Porque, se afinal, mudar é inevitável, equilíbrio também o é.
Frase do dia: Qual parte de "faixa instrumental" você não entendeu? Mas okay, okay, se você precisa de uma frase pra servir de norte, que tal: "Todo mundo quer mudar o mundo mas ninguém pensa em mudar a si mesmo".
Mais um dia, mais um episódio desta seção. E mais uma vez, retornamos para um álbum que já teve uma de suas faixas comentadas aqui. O disco em questão é "The man who sold the world" e a música é "SAVIOUR MACHINE"
Sobre a música: Essa talvez seja uma das representações mais cínicas e niilistas encontradas na obra artística de David Bowie, e considerando que, anos depois, iríamos entrar na cabeça do artista, mas sob o filtro do olhar do monstruoso Thin white duke, isso quer dizer alguma coisa.
A letra é uma história com começo, meio e fim e é facilmente compreensível: No alvorecer do apocalipse, a humanidade, através de seu líder (o "President Joe" da primeira linha) resolve criar um computador cujo objetivo é, em resumo, resolver todos os problemas do mundo.
E ele sucede. O problema é: e depois?
"They called it the Prayer, its answer was law
Its logic stopped war, gave them food"
O que acontece quando a máquina que foi criada para nos salvar de nós mesmos é bem sucedida?
"How they adored till it cried in its boredom
'Please don't believe in me Please disagree with me
Life is too easy
A plague seems quite feasible now
Or maybe a war
Or I may kill you all'"
O Agente Smith já havia cantado essa pedra, só pra ficarmos numa referência que todo mundo vai pegar, no primeiro "Matrix":
A humanidade se define pela sua capacidade de sentir dor. Eu li em algum lugar alguém dizendo que o motivo pelo qual todo sonho longo acaba virando um pesadelo é porque temos a tendência de enxergar as falhas naquele cenário. O efeito de "uncanny valley" leva à suspeita. A suspeita, ao medo. O medo, ao horror. E temos aí, um cenário propício para a manifestação dos nossos temores.
"Don't let me stay, don't let me stay
My logic says burn so send me away
Your minds are too green,
I despise all I've seen
You can't stake your lives on a Saviour Machine"
Só piora quando o deus ao qual entregamos nossos destinos nota esse mesmo detalhe. O quão preguiçosos ficamos sem dificuldades, sem adversidades e com tudo entregue em nossas mãos.
E esse deus se ressente. E ele planeja. E, mais uma vez, os elementos para a tragédia estão todos lá.
"I need you flying, and I'll show that dying
Is living beyond reason, sacred dimension of time
I perceive every sign,
I can steal every mind"
O final da canção é um prenúncio do que vai vir: O que acontece quando o deus ao qual nos voltamos decide que não somos dignos dele?
Se essa premissa lhes soar familiar, principalmente para a parcela dentre vocês que é fã de literatura sci-fi, é porque, de fato, a referência é óbvia: esta música foi composta 3 anos depois de Harlan Ellison publicar, na edição de Março de 67 da revista IF: Worlds of Science Fiction seu clássico conto "I have no mouth, and I must scream" ("Não tenho boca e preciso gritar).
No conto, tal qual como em "Saviour Machine", a raça humana, num mundo pós Terceira Guerra, entregou seu destino para um computador que, depois de assimilar outros sistemas de IA parecidos da China e Rússia, desenvolveu consciência e, como seria de se esperar, erradicou completamente a população da Terra, com exceção de 5 pessoas, que ele mantém vivas. O computador, que se autodenomina AM, usa os sobreviventes em sádicos jogos de tortura como bodes expiatórios, pagando pelos crimes de toda a sua espécie. Não vou entrar nos méritos da história aqui para efeitos de concisão (se quiserem bem mais detalhes, cliquem no vídeo acima que fala de forma mais aprofundada sobre o conto de Ellison e o contexto em que ele surgiu), mas depois de serem torturados física e psicologicamente diversas vezes, o grupo de personagens consegue escapar por tempo o suficiente para que 4 deles consigam morrer, única forma de "fuga" possível.
O último dos humanos é interceptado por AM e tem seu corpo alterado para uma "coisa" disforme, sem braços, pernas, boca, nariz, ouvidos e genitais, incapaz de se suicidar e com sua percepção de tempo alterada para que cada segundo de tortura pareça uma eternidade. Nessa condição, num último momento de sanidade, ele profere a frase que intitula a história.
...e todos foram felizes para sempre.
Como vai ser o seu dia: Essa idéia de "cuidado com seus heróis" não é nova de forma nenhuma. Para ficarmos em obras recentes, na ficção temos esse tema abordado em trabalhos como "O fim da infância", "Batman: the dark knight rises", "Fight Club", "Watchmen", "Superman: the red son" , entre outros.
Principalmente nesse mundo pós-me too, em que várias figuras públicas tem sido expostas como abusivas, é válido termos cuidado com quem vemos como ídolos. Não é o caso apenas de escolher de forma sábia, mas sim de se perguntar: "eu devo adorar essa pessoa incondicionalmente, apenas porque eu gosto da arte que ela produz?"
Todos temos heróis, exemplos, que usamos como bússolas morais naqueles momentos complicados da vida. Diabos, essa coluna aqui só existe porque David Bowie é minha deidade pessoal.
Mas eu não fecho os olhos para os momentos mais sinistros da história dele. O uso de drogas, as relações abusivas com suas ex-esposas, a acusação de ter relações com uma menor de idade nos anos 70, no auge da época do consumo de cocaína (o negócio foi resolvido extra-judicialmente e ficou nisso).
E você também não deveria, independente de quem são seus heróis pessoais.
Dizer "não tenha ídolos" é ridículo, porque sempre nos miramos em exemplos. É apenas humano isso de endeusarmos sujeitos que possuem qualidades que achamos admiráveis. De fato, é assim que alguns dos deuses antigos surgiram. Mas lembre-se que toda moeda tem dois lados e todo mundo tem sombras que mantém longe do olhar público.
Então, tome cuidado antes de se jogar nas mãos daquela "fada sensata". Toda sereia soa linda. Toda planta carnívora parece encantadora para sua presa, antes de revelar sua face letal.
Frase do dia:"You can't stake your lives on a saviour machine".
Minhas 4 coisas favoritas da vida reunidas: Bowie, música, quadrinhos e Doctor Who (só faltou um Kaiju ao longe e alguém segurando um copo de Toddy com Nescafé)
Achei aqui (tentei achar o nome do artista, sem sucesso.)
Senhoras, senhores, mais um dia, mais uma sexta chegando, mais uma semana na qual sobrevivemos (continuamos em quarentena aqui, mas como todo mundo sabe, tem muita gente tendo que se jogar nas ruas graças a irresponsabilidade dos "nossos" governantes. Tem também a galera negacionista sem noção, mas pro inferno com eles). Seu oráculo über-pop já está aqui para oferecer alguma luz pelas próximas 24 horas e vamos direto ao ponto: a faixa do dia é FALL DOGS BOMBS THE MOON
Contexto: Primeira faixa do "Reality", vigésimo terceiro lançamento da discografia Bowieana, e aquele que, por muito tempo, foi visto como o álbum final do artista, até que, 10 anos depois, "The next day" viria pegar o mundo de surpresa. Os elementos eletrônicos, protagonistas nos seus trabalhos da década anterior, ainda estão presentes, mas cedem espaço ao rock . Segundo trabalho seu feito pós 9/11, o disco não esconde que é um fruto de seu tempo (a faixa comentada aqui hoje sendo um exemplo perfeito disso). O título, "Reality" vem quase como uma elegia, uma memória perdida num mundo pós-realidade, pós-filosofias, em que a maioria das crenças e certezas que tínhamos como sociedade ruíram junto com as torres do WTC.
Sobre a música: Para uma canção que possui uma letra tão críptica, é curioso notar como seu sentido é tudo, menos sutil. Mais uma vez, o eu-lírico adotado por Bowie é o do déspota que, deitado em berço esplendido, reflete sobre o próprio poder.
"Hope little girl
Come blow me away
I don't care much
I win anyway
Just a dog
I'm God damn rich
An exploding man
When I talk in the night
There's oil on my hands
What a dog"
Não um déspota qualquer, mas um barão do petróleo, explorando garotinhas e vendo pessoas explodindo como rojões sem se importar muito.
"Devil in a market place
Devil in your bleeding face"
É o período de George W Bush e Tony Blair no poder, o ano em que Saddam Hussein seria capturado e onde seria "encerrada" a guerra contra o Iraque. As aspas presentes já que, de fato, as consequências dela e seus efeitos podem ser vistos até hoje, no mundo pós-Trump.
"These blackest of years
That have no sound
No shape, no depth
No underground
What a dog"
Nestes anos, tão pretos quanto o óleo que esses homens vendem e pelo qual países democráticos foram, são e serão transformados em cinzas, não existe forma. Mercurial e líquida, nossa realidade está em constante revisão, num perpétuo estado de "não-ser", de "pós-verdade", de "alt-truth". Mas os cães da guerra, continuam gordos e felizes.
Como vai ser o seu dia: provavelmente, muito ruim. Ou você é alguém em isolamento, e vai continuar assim se puder e apenas se você tiver condições disso, ou vai ter que sair de casa para garantir comida na mesa. Em ambos os casos, pode agradecer ao fascista miliciano na cadeira presidencial. Lembre-se disso nas próximas eleições, e não apenas para o cargo maior da nação, mas em todos os demais, do senado, passando pelos deputados, dos prefeitos aos vereadores. Mas mais além, repense sua relação com a política como um todo. Votar certo é obviamente importante, mas não é tudo. Votar certo é política, nossa relação com o mundo é política, como e contra o que protestamos é política.
Tudo na verdade é. Repensar a própria vida e se enxergar como um sujeito político é um processo que leva anos, mas se queremos derrubar a besta maior que sustenta todo esse Sistema, é o que precisa ser feito. Cada ato seu, da cultura que você consome, passando pela comida que você decide comer, de onde você vai comprar as coisas que precisa, que projetos você apoia ou deixa de apoiar, financeiramente ou não, tudo isso é política. Parece óbvio, mas é importante ter isso em mente e, uma vez, cientes disso, correr atrás de informação. De novo, citando novamente uma frase que já usei aqui: toda jornada de 1000 quilômetros começa com um passo.
Tá, tudo lindo, mas deixemos abstrações de lado: dois bons lugares pra começar? Aqui e aqui. Não precisa agradecer.
Frase do dia: "There's always a moron/Someone to hate/A corporate tie/A wig and a date". Porque o Sistema precisa de um inimigo constante, um bicho papão novo todo dia pra manter as pessoas assustadas. Antes, eram os terroristas. Agora, são os imigrantes e os "comunistas". Amanhã, vai ter outro e outro e outro. Enquanto isso, os cães da guerra dormem tranquilos. E tudo "segue bem".
Mais um dia, ímpios, mais um episódio do único oráculo com 100% de garantia de NÃO funcionar e que, ainda assim, pisa em todos os demais, mesmo com uns 1000 anos de existência a menos e....
o que?
Surpresos? Sim, amigos, a seção tem tido uma recepção tão legal que decidi (não sei se em caráter definitivo ou não), ajudar a guiar as quartas feiras dos senhores.
E, por uma gigantesca coincidência (ou não?), a música de hoje vem do mesmo cd da faixa comentada ontem. E que já tinha rendido outro texto semana passada. Universo mandando mensagem? (spoiler alert: não. Apenas uma mistura de "coincidência" com a lógica interna dos algoritmos do spotify)
Então, sem mais delongas: THE STARS (ARE OUT TONIGHT)
Sobre a música: Faixa 3 do "The Next Day", a canção, tal qual a faixa da qual falamos ontem, não esconde suas metáforas de forma sutil, já entregando seus temas nas duas primeiras linhas:
"Stars are never sleeping
Dead ones and the living"
Mantendo os temas dos quais já falamos antes nos textos sobre "Love is Lost" e "If you can see me", mais uma vez o artista olha para o passado e reflete sobre a fama, os custos, luxos e efeitos dela.
Estrelas, artistas, pessoas famosas, nunca dormem, porque, afinal, suas vozes estão sempre ressoando de novo e de novo, pela eternidade. Artistas são imortais por todo o período em que sua arte se mantiver no inconsciente coletivo. Por consequência, as mais brilhantes dentre estas irão ressoar pra sempre, enquanto houver alguém redescobrindo sua obra.
"We live closer to the earth/Never to the heavens"
Estes contadores de histórias podem ser maiores que a vida, ídolos, gigantes. Mas sua pena é jamais voar alto demais, sob o risco de se distanciarem excessivamente do seu público. Citando Chili Peppers, "se você me ver subindo alto demais, me derrube. Eu não sou maior que a vida".
O problema de tratar alguém como se fosse um deus é que há sempre o risco de que a pessoa em questão acredite nisso.
Citando o "Dig", documentário recentemente visto cobrindo a ascensão (e queda) dos Dandy Warhols e do Brian Jonestown Massacre, "o elemento comum entre todas as religiões é que não existe pecado maior do que se auto-declarar um Deus sem condições de agir como tal". Aquilo que os americanos dizem: you can talk the talk. Can you walk the walk? Da boca pra fora, todo mundo é "o melhor". Mas você consegue bancar com a sua arte?
"They watch us from behind their shades/Brigitte Jack and Kate and Brad
From behind their tinted window stretch/Gleaming like blackened sunshine"
Estrelas eternamente em movimento e protegidas por seus óculos escuros e vidros de carro cobertos por filme. E ainda assim, brilhando de dentro de suas limousines como um sol negro (não, a mórbida presciência das palavras escolhidas aqui não me escapou).
"Waiting for the first move
Satyrs and their child wives
Waiting for the last move
Soaking up our primitive world"
O trocadilho esperto entre "move" (movimento) "movement" (é como, na música, se referem a uma parte independente dela, aquela parte da composição que, sozinha, poderia funcionar como uma obra completa) e "movie" (filmes) deixa aquela alfinetada nas celebridades da música e cinema, saltitando por aí como entidades míticas ao lado das suas namoradas-troféu com décadas de idade a menos, afogando o mundo com seus novos trabalhos.
"Their jealousy's spilling down
The stars must stick together
We will never be rid of these stars
But I hope they live forever"
O paradoxo supremo: adoramos celebridades. Mas adoramos também vê-las desabando, lembradas da própria pequenez. Tem algo de doentio na nossa relação, como sociedade, com as pessoas que se destacam no campo artístico: nós as elevamos à condição de super-humanos, apenas para nos ressentirmos delas. "Por que elas e não nós?"
Lembram-se do mórbido fascínio que as pessoas tinham na época das notícias sobre o lento processo de destruição de Amy Winehouse? Tudo visto em tempo real, transformado em piada.
Sejamos honestos: existe um motivo pelo qual o Buzzfeed vive recomendando notícias do tipo "lembram de (insira o nome de uma celebridade aqui)? Você não vai acreditar em como ela está hoje em dia". Amor e ódio.
Existe muita arte sendo produzida, todo dia, o tempo todo. Todo dia, uma nova voz se lançando, querendo jogar o jogo lado ao lado com os grandes. Elas são odiadas e invejadas por terem esse "algo" que a maioria das pessoas não possui. Mas o que seria da vida sem elas?
Quer seja pela arte que produzem, quer seja pela promessa de que "se deu certo para elas, pode dar certo para mim também".
"And they know just we do/That we toss and turn at night"
"Here they are upon the stairs/Sexless and unaroused"
"They're broke and shamed or drunk or scared/But I hope they live forever"
Em entrevistas na época de "Ziggy..", Bowie afirmava que seu objetivo, com a escolha de adotar personas artísticas, era compor o astro pop de plástico perfeito. Um teste de Rorschach que pudesse alquimicamente se transformar naquilo que o público quisesse, o tempo todo. Como uma Barbie, "sem gênero e impassível", entidades que falam direto com nossas almas porque, e esse é o detalhe que procuramos ignorar no máximo de tempo possível, eles são EXATAMENTE como o resto de nós, com as mesmas aspirações e ansiedades. "Quebrados, envergonhados, bêbados e assustados", num eterno estado de limiar entre o divino e o mundano, nos conectando com algo maior, universal. Mágico, de fato. E as vezes, aparentemente ou de forma factual, inatingível.
Dessa dicotomia vem, ao mesmo tempo nosso ódio por eles. E também, nosso amor irrestrito.
Como vai ser o seu dia: Eu sempre recomendo que vocês façam arte porque, sejamos francos, é o que nos mantém vivos. É o que nos separa de uma vida ordinária e medíocre. Mas, vamos retroceder alguns passos: nunca se esqueça que a vida normal, seu dia-a-dia em toda sua aparente insignificância tediosa, é o que vai dar combustível para sua mente criar. É dessas conexões entre o mundano que surge toda a arte. Pense em "Ulisses" de Joyce. "A day in the life" dos Beatles. Então, faça arte, se quiser.
Mas tire seus momentos pra ser o mais comum e "pé no chão" possível, sem culpas ou ressentimento por não estar alimentando aquele gigantesco demônio chamado "produtividade" ao qual todo mundo parece se ajoelhar hoje em dia.
Existe beleza em escrever, em cantar, em compor. Mas ninguém deveria menosprezar a beleza também presente naquele momento pra você ficar simplesmente olhando pro teto, pensando se o Goku é mais forte que o Superman.
Frase do dia: "Nós nunca vamos nos livrar dessas estrelas. Mas espero que vivam para sempre".
Terça-feira. Bem vindos de volta, sobreviventes de 2020.
Mais um dia, mais uma mensagem do grande homem das estrelas que nos espera, universo adentro.
A música de hoje, sem mais rodeios, é "IF YOU CAN SEE ME".
Contexto: De volta para o "The Next Day", seu vigésimo quarto lançamento de estúdio, obra da qual já falei aqui antes. Podemos pular essa parte.
Sobre a música: "Sonoramente falando", "if you can see me" não é o momento mais agradável do disco, o que não é, de forma alguma, uma crítica. A idéia é causar, de fato, certo incômodo no ouvinte, seja pela parede sonora da instrumentação, seja pelas vozes que ouvimos, a de Bowie e a dele próprio, distorcida, harmonizando. O jogo de significados já começa no título. "Se você consegue me ver" é uma via de mão dupla. Você olha para o abismo e, como consequência, ele te olha em resposta.
Não é dito de forma literal, mas o "eu lírico" da faixa é, ao mesmo tempo Bowie e uma figura de liderança, um governante ou mesmo um deus, olhando seus fiéis de seu trono. Essa relação é, simultaneamente, de gratidão mas certa distância raivosa. Toda relação entre uma deidade e seus fiéis é de simbiose (alguns diriam parasitismo, mas deixo que os senhores decidam). Você entrega sua fé para a tal entidade e ela, em troca, te dá algo. A moeda corrente é a fé, a adoração, seja ela por meio de sacrifícios, seja apenas por meio de orações ou pura crença.
Na época, já um senhor de 66 anos, David tinha dificuldades em se ver acessando o público mais jovem, os fãs de Lady Gaga, Taylor Swift ou qualquer outra artista pop que reinava, reina, ou venha a reinar nas listas de mais ouvidos do mainstream. O jeito, portanto, é mais uma vez se reinventar:
"I could wear your new blue shoes
I should wear your old red dress"
Fora com os "red shoes to dance the blues" que lhe serviram tão bem em outras épocas. De volta ao campo de batalha.
"And walk to the crossroad, so take this knife
And meet me across the river"
"Just chutes and ladders"
Uma descrição perfeita da vida de quem se predispõe a viver da arte, a tirar seu sustento dessas águas turbulentas. Uma subida lenta, via escadas, e uma descida rápida e tensa, de paraquedas. Altos e baixos. Surfar sobre o inconsciente coletivo e entender como o zeitgeist funciona é uma arte que poucos artistas dominaram.
"American anna fantasticalsation"
Aqui a gente tem dois jogos de palavras interessantes. Não vi nenhuma versão definitiva ou explicação vinda da fonte original em lugar nenhum então, só nos resta especular. "American anna" soa como "Americana", palavra que, em inglês, se refere a coisas tipicamente estadunidenses. Não apenas no sentido geográfico, mas todas as coisas que remetem ao folclore, cultura e que falam com o que é mais estereotipicamente americano: Norman Rockwell, a torta de maçã, Elvis, as camisetas "T-Shirt", o jazz, as histórias em quadrinhos de super-heróis. "Fantasticalsation" parece agregar "Fantastical" (de origem fantástica) e "causation" (causa, motivo, razão ou circunstância), paradoxalmente unindo o que é mítico e super-humano com aquilo que pode ser racionalmente explicado de forma cartesiana.
Acessar o "Americano" - ainda mais sendo o cantor que protagoniza esta seção, um homem inglês, ainda que vivendo em solo norte-americano há décadas - no sentido de "mainstream", de "universal" e orbitar entre o fantástico e o "real" não é um trabalho dos mais fáceis, e poucos sabem se equilibrar em cima dessa navalha.
"Children swarm like thousands of bugs
Towards the light
The beacons above the hill
The stars to the West, the South, the North And to the East"
O deus criador fala de seus fiéis, não com gratidão, mas como se estes fossem uma peste, numa relação de amor e ódio. O líder que vive para agradar seus seguidores, mas ciente que essa admiração pode ser converter em desafeto em dois tempos, quer seja por que tentou demais, seja por tentar de menos. E os inimigos espreitam, querendo uma fatia do bolo, ao norte, sul, leste e oeste.
Para o artista, a competição não é mais local. Com plataformas como youtube e spotify cada vez mais onipresentes, sua voz disputa com a de pessoas no planeta inteiro.
"Now you can say I've got a gift of sorts
A fear of rear windows and swinging doors
My love of violence and tenants' sighs"
De fato, Bowie, o artista e o eu-lírico da faixa que analisamos hoje, pode dizer, sem medo de arrogância, que ele possui "certo conjunto de talentos". Mas é curioso ver como ele os coloca lado-a-lado com o "medo de janelas traseiras e portas giratórias". O medo de olhar perpetuamente para trás e ficar girando em torno dos mesmos temas é, simultaneamente, um terror constante para ele - e para qualquer artista que se pretenda relevante e não queira apenas viver recriado a mesma obra de novo e de novo - e uma das fontes de seu poder. Citando o texto de ontem, "evolução ou morte".
"I have seen these bairns wave their fists at God
Swear to destroy the beast, stamping the ground
In their excitement for tomorrow"
Ser um artista relevante envolve, obviamente, ser um iconoclasta: você pode ter seus ídolos, mas você precisa ter ciência, se quiser de fato poder tomar lugar entre eles, que eles são só homens e mulheres e nada além disso. Saber dosar o fato de que você, como criador, está andando em caminhos já trilhados e que está "nos ombros de gigantes", ao mesmo tempo em que quer fazer sua voz ser ouvida em meio a destes mesmos ídolos. O que ainda é mais aterrador quando você quer soar novo mas já é visto, merecidamente no caso de Bowie, como um destes "deuses entre mortais". Mesmo considerando o aspecto mercurial da sua obra, mudança constante é algo difícil e se fazer novo, já sendo um artista com certa história, mais árduo ainda, principalmente diante do escrutínio dos jovens leões, hostis e famintos, querendo a posição de alpha, sua posição na mesa e seus nomes no livro de história.
"I will take your lands and all that lays beneath
The dust of cold flowers, drizzle of dark ashes
I will slaughter your kind, descend from belief
I am the spirit of greed, the lord of theft
Burn all your books and the problems they make
If you can see me I can see you
If you can see me"
Diante deste cenário, o artista - que aqui soa perigosamente como o Thin White Duke, em outro aceno a mais um dos temas constantes da obra tardia de Bowie: a de que ele precisa acessar lugares perigosos e destrutivos da própria mente para achar o tipo de fogo de que precisa para se conectar com as multidões. - promete apenas "terra arrasada". Ele é um destruidor, um deus furioso, um ladrão - como todo artista, aliás, que está sempre bebendo de outras fontes - um "espírito cobiçoso", que vai tirar nossa atenção dos nossos problemas mundanos.
A frase título, que antes soava com algum afeto, agora vem como uma ameaça e uma promessa.
"Se você me vê, eu te vejo de volta". Nós abrimos essa porta e agora, não tem volta.
Gritamos ao abismo e agora, ele vai se fazer ouvir de volta porque ele sabe que, por mais aterradora que seja sua voz, é o que queríamos. E o que vamos querer, de novo e de novo.
Então "pegue seus sapatos azuis, seu vestido vermelho". E se prepare para dançar.
Como vai ser o seu dia: Ele disse. Ele te vê e você a ele de volta. Sim, é sobre arte e sobre se fazer relevante, mas também sobre nossa relação com a arte que existe, sejamos nós mesmos outros criadores ou apenas na posição de "consumidores fiéis". Então, só tira o dia para "dançar o blues".
Todos os seus medos vão estar te esperando quando você voltar.
Frase do dia: "From nowhere to nothing and neither way back".
"Do nada para o lugar nenhum e sem caminho de volta".
Mais uma semana, mais 4 novos episódios da coluna para tentar jogar alguma luz sobre a vida dos senhores e oferecer certa iluminação ultra-pop advinda do labirinto fractal que foi a mente de David Robert Jones.
E a música do dia vem de uma das fontes mais obscuras de sua discografia, um CD da trilha sonora de uma minissérie da BBC que pouca gente viu (eu, incluso). A música é "BLEED LIKE A CRAZE, DAD"
Contexto: Okay, esse vai ser um texto complicado para dar o devido entorno temporal já que ele é baseado numa série que não vi, adaptação, por sua vez, de um livro que eu não li. Mas nada que uma pesquisa no google não possa resolver: O livro, "TheBuddha of suburbia", escrito em 1993 por Hanif Kureishi, narra o dia a dia de Karim, um adolescente crescendo na periferia de Londres no começo da década de 1970, ansiando por uma vida melhor. O rapaz, conforme a obra avança, vai conhecendo outras pessoas e se embrenhando na cena cultural inglesa da época. Num determinado momento, seu pai é abraçado pelas elites locais como um guru e vemos os conflitos que essa bizarra nova realidade vai desencadear no jovem. O livro foi bem sucedido, o que levou a conversas com a BBC sobre a adaptação dele para tv, resultando em uma minissérie em 4 episódios. Numa conversa durante a turnê do "Black Tie White Noise", Bowie e Kureishi discutiram sobre a possibilidade do cantor criar uma OST para a adaptação. Não é muito difícil imaginar Bowie empolgado com a idéia, já que o livro trata de temas que são frequentes em sua obra como a insatisfação com uma vida ordinária, os efeitos da fama, budismo, negação dos limites estabelecidos pela sociedade, conflitos geracionais, etc.. A primeira versão do disco não agradou o artista. Uma nova versão, agora com a parceria do músico turco Erdal Kizilcay, teria melhor resultado, resultando no seu lançamento em Novembro de 93. Segundo David Bowie, "The Buddha of Suburbia" é seu trabalho favorito.
Sobre a música: Este é um cd conceitual sobre um programa de TV que soma quase 5 horas de duração. Confesso que é um dos álbuns bowieanos com os quais não tenho muita familiaridade então não posso falar sobre como a faixa se relaciona com o resto do LP, mas a letra cita Hollywood, desejos materiais e motivos urbanos. Como dito no parágrafo anterior, esse é "mundo" de Karim no começo de "Buddha...": anseios e sonhos. Anseios por coisas materiais, por uma vida melhor, por estar imerso numa cultura e numa realidade e num conjunto de experiências que lhe são, neste momento pelo menos, distantes.
O olhar é de estranheza e medo mas também de fascínio, sensação que vai soar familiar a qualquer guri ou guria de cidade pequena que já se viu sozinho no coração de algum grande centro urbano (como este que aqui escreve, por exemplo).
Como vai ser o seu dia: Nem tudo que reluz é ouro. Não tenha medo de se jogar em novas experiências mas tenha cuidado para reconhecer se aquele corpo brilhante à sua frente é a tal "luz no fim do túnel" arquetípica ou se, na verdade, é um trem vindo para cima de você. Lembrem-se dos contos de fada sobre o canto da sereia ou das histórias sobre os efeitos encantadores que as plantas carnívoras tem para suas presas. A cidade é uma selva cheia de predadores e você, uma vez nela, está no meio da cadeia alimentar. Agora, é "evolução ou morte".
Frase do dia: "Living on a movie/All the Shirley/Charley films on film/Come together, party"
Antes de Blackstar, antes de Berlim, de Ziggy, do Scary Monster, do Duke e de todo o resto, havia um guri de 20 anos que tinha conseguido um contrato com uma gravadora para o lançamento de 3 singles e um disco. Um guri talentoso mas que ainda estava tentando encontrar a própria "voz artística". Essa é a história de uma dessas 3 músicas que foram sua rota de entrada para a Deram e, a partir daí, para os livros de História da música: RUBBER BAND.
Contexto: Então. Este é um disco complicado de se comentar. De fato, se você é um fã de Ziggy ou de qualquer das personas futuras e vai ouvir o primeiro lançamento dele.... eu não diria que "frustrado" seria a o saldo final da empreitada. Mas, "David Bowie '67" carrega muito da época em que ele se inseria e de um conflito entre o que fazia sucesso + as influências que ele tinha versus quem de fato ele queria ser. Comparemos, por exemplo, essa música com os outros dois singles lançados no acima mencionado acordo com a Deram: "London boys" é uma canção folk, gênero que reinava supremo e que seria o estilo mais presente no seu álbum de estréia, fortemente influenciada por Anthony Newley, ator e cantor de quem Bowie era fã.
O outro single lançado foi "The laughing gnome".
Nenhum dos 3 singles - ou o disco resultante desses trabalhos - seria bem recebido por público e crítica. Mesmo o cantor renega em parte "David Bowie 67". Mas preciso confessar que tenho um grande carinho por esse LP. Sim, ele é irregular e poderia ser um pouco menor. Mas tem grandes faixas ali: além da descrita nesse capítulo, temos "Sell me a coat", "Little bombadier", "Uncle Arthur", a belíssima "Love you till tuesday". É uma obra que fecha com o conto de terror "Please Mr. Gravedigger". De fato, pode ter fortes referências folks e acenos para a cultura mod, mas os elementos que viriam a se tornar a assinatura do artista já estavam ali.
Sobre a música: "Rubber band" narra a história de um veterano da Primeira Guerra que volta do combate ansioso para reencontrar a mulher amada. O personagem descreve suas memórias, enquanto ouve uma dessas bandas de coreto que existem em toda cidade pequena tocando e conclui a narrativa revelando que a amada em questão se casou com o condutor do grupo.
Novamente, é interessante observar como, mesmo ainda um artista em formação, Bowie já traz aqui os elementos que vão marcar sua discografia: a teatralidade forte, o elemento de storytelling e a figura do narrador como uma figura trágica, revisitando o passado e fazendo aquela que é a pergunta mais cruel da existência humana: "e se...?". Curioso também é notar que alguns dos medos e ansiedades que viriam a atormenta-lo pelo resto da vida, já se manifestam neste momento ainda insipiente de sua produção artística. Mesmo considerando que são temores primordiais e que estes - medo do fracasso e da própria irrelevância - são presentes em todo mundo desde que o primeiro homo sapiens se tornou senciente, é fascinante ver que seja no jovem artista do qual falamos aqui, anos antes do sucesso e de se tornar a figura maior que a vida que viria a ser, seja no contador de histórias consagrado de "Blackstar", certos demônios nunca nos abandonam.
Como vai ser o seu dia: Uma constante aqui é a mensagem de faça arte. Por várias vezes, eu já fechei essa coluna praticamente pegando os senhores, leitores, pela mão e dizendo pra vocês lançarem a própria voz ao mundo, certo? Bom, o lado menos bonito disso é: aceitem seus fracassos.
Okay, não duvidem do próprio talento mas lembrem-se de que todo mundo precisa de um certo período de incubação até se tornar o criador de pleno potencial que pode vir a ser. "Roma não foi feita em um dia" e não é como se um infante Da Vinci, entre uma garatuja e outra, tivesse concebido a Mona Lisa. Sim, vão fazer arte. Mas saibam respeitar sua própria curva de aprendizado.
Sim, estamos todos morrendo e o tempo está contra todos nós. Mas paciência é uma virtude.
Tem que se engatinhar antes de andar e andar antes de correr, certo?
Mais uma quarta de hiato se passou e rumamos novamente ao final de semana, senhoras e senhores.
O mundo continua acabando, quem pode, continua na quarentena, quem não, é jogado aos lobos pelo sistema capitalista e as engrenagens continuam se movendo, ainda que em velocidade reduzida.
E mais importante do que a lenta degradação das estruturas sociais que sustentam o ocidente de 2020 é o retorno do seu oráculo bad vibe ultra pop predileto.
A música de hoje vem do penúltimo disco de David Bowie e é, de fato, uma das faixas mais interessantes daquele trabalho: LOVE IS LOST
Contexto: Desse eu posso falar com tranquilidade já que tá fresco na memória (inclusive, eu, definitivamente um não-convertido quando falamos em colecionismo de mídias físicas, vejo a capa do meu CD me olhando de volta, na seção da minha estante que funciona como um pequeno altar Bowieano). Dois mil e treze. O mundo, doente há eras, começa a apresentar de forma gritante os sintomas visíveis do mal que viria a acomete-lo nos anos seguintes (inclusive, para aqueles que forem acessar esse texto num tempo posterior ao de sua concepção, estamos em 2020 e o paciente segue em estado grave). Posicionados naquele momento histórico, no entanto, tudo seguia relativamente normal quando, de repente, não mais que de repente, sites de música e cultura pop em geral anunciam o release surpresa de "The next day", vigésimo quarto lançamento de estúdio de Bowie. Todo mundo foi meio que pego de guarda baixa, já que pensávamos que ele estava aposentado da vida artística. Seu trabalho anterior, o "Reality", de 2003, havia recebido boas críticas e vendas significativas e foi, inclusive, na tour de shows de divulgação do álbum que o cantor sofreu seu primeiro ataque cardíaco. O sucesso da obra , os efeitos de uma turnê mundial no artista que já beirava os 60 anos e esse período sem novos CDs indicavam o final de sua carreira então, vocês podem imaginar o quão bombástica foi sua chegada. De fato, o disco esteve no topo de quase todas os charts de mais vendidos de 2013. Foi a primeira vez que um lançamento de David Bowie esteve no topo das listas de vendas britânicas desde "Black tie, white noise", de 1993.
A escassez de entrevistas, aliada à declaração de que não haveriam shows de divulgação, novamente, cimentaram no fandom a certeza de que dessa vez, sua carreira havia terminado de fato.
E como tal, estávamos bem, já que, como eu mesmo dizia depois de ouvir a obra, esse teria sido o fim de carreira artística mais digno do qual conseguia me lembrar.
Claro, que novamente, estávamos todos errados, como viríamos a perceber, 3 anos depois, quando uma estrela negra apareceu no céu, mas...
Sobre a música: Uma das faixas mais "diretas" do "the new day". Uma canção de rock, com toda a crueza e simplicidade que esperamos de uma composição do tipo. A letra narra as reflexões de um artista lembrando de seu passado: jovem, aos 22, tudo é novo. Novo país, nova vida, novos amigos. Citando a frase-tema do filme "Scarface", "o mundo é seu".
"But your fear is old as the world"
Porque por toda a história humana, qualquer artista que se joga na aventura de tentar conseguir validação e reconhecimento protagoniza um conto com tons de horror: o medo de julgamento, o medo do não-reconhecimento, de ser irrelevante e de terminar enterrado numa lápide e descrito postumamente como "uma grande fonte de potencial não-concretizado". Para cada história de sucesso, dezenas e dezenas de talentos ignorados. O que não é o caso do protagonista dessa canção (e lembremos, a idade do personagem não é uma coincidência: aos 23 anos, um ano mais velho portanto do que o narrador de "love is lost", o artista lançaria "The man who sold the world").
"Say goodbye to the thrills of life
When love was good, when love was bad
Wave goodbye to the life without pain
Say hello, you're a beautiful girl"
Com a fama e a fortuna, o artista-narrador desta faixa abre mão dos elementos que compõem uma vida "ordinária". Vai-se embora o amor e os altos e baixos de uma realidade em que as coisas são conquistadas com dificuldade. Agora, você é uma "estrela" e tudo (inclusive a "beautiful girl" da letra) está ao alcance da mão. Fica a questão: um cotidiano sem adversidade alguma vale a pena ser vivida? A dor é um inimigo a ser derrotado ou é o que, paradoxalmente, confere valor as conquistas que alcançamos no decorrer de nossa existência?
"Say hello to the lunatic men
Tell them your secrets, they're like the grave
Oh, what have you done?
Oh, what have you done?
Love is lost, lost is love"
Quem são os homens lunáticos da letra? A gente, tomando qualquer declaração dos artistas como se fossem os mandamentos esculpidos nas pedras de lei, desesperados, tal qual viciados procurando por um novo "pico"?
Nessa troca, algo se perde. O artista em questão, ganhou o mundo, o universo e a imortalidade. Mas, nesse pacto faustiano, ele abriu mão do amor e se vê perguntando se o preço não foi alto demais.
O único consolo é que isso não é uma escolha:
"You know so much, it’s making you cry
You refuse to talk, but you think like mad"
Todo artista vai te dizer isso e é fato. Diabos, todo escritor, famoso ou não, vai corroborar essa afirmação e eu, do alto da minha insignificância, posso dizer que é uma verdade: não escrever DÓI. Quase literalmente.
Se você tem algum amor pelo ato de sentar na frente de um papel em branco, seja ele físico ou digital, e se auto-imolar no ato de tentar criar "algo", qualquer coisa que seja, você sabe que não escrever dói e eu juro que estou dizendo isso sem tentar injetar nenhum romantismo nesse ato.
Eu já fiquei períodos sem postar nada e eu sempre me sinto irrequieto depois de alguns dias.
Você sente como se quisesse pegar um megafone, subir numa caixa e sair vomitando opiniões a plenos pulmões.
Foram 10 anos entre o álbum anterior e esse. Bowie ainda tinha algo a dizer. E não fazê-lo se tornou doloroso.
No clipe maravilhoso de "Love is lost" (em versão remixada pela DFA de James Murphy), David, o homem, se vê num prédio vazio (de fato, o apartamento do artista em NY). Sozinho, perdido em suas idéias, ele se vê diante de duas criações suas, que parecem se mover sinistras, tal qual fantasmas, dentro de sua mente.
Vemos dois bonecos que remetem a duas das minhas personas favoritas do artista: o Thin white duke e o Scary Monster. Ao vê-los, ele se pergunta"what have you done?"
É interessante notar que não vemos as personas mais "festivas" e "solares" do artista. Não aparecem Haloween Jack ou Ziggy Stardust, mas o Duque e o Pierrot, criações que remetem a momentos mais sinistros de sua vida. Arrependimento, sim, mas também certa consciência de que ele precisa voltar a lidar com seus demônios. Porque, afinal, qual é a sua opção? Ele é um artista, e artistas precisam criar. O paradoxo ali é que a única forma de calar as vozes em sua cabeça é deixando seus demônios gritarem.
O pacto é refeito. O mundo é dele de novo. E nós, os lunáticos, mais uma vez, paramos para ouvi-lo.
Como vai ser o seu dia: Faça arte. Pro inferno com as consequências. Qual a escolha?
As pessoas falam da arte como se fosse algo descartável. Bom, veio a pandemia e mais do que nunca, é a arte impedindo que vejamos corpos caindo dos prédios, em uma macabra chuva humana de suicidas procurando uma rota de fuga. Arte é o que faz ficar aqui valer a pena.
É o que nos mantem sãos. Então, vai fundo. Boa arte, má arte. Arte também é aprendizado e técnica.
Deixa os seus demônios falarem. Porque se você tem esse impulso, se você tem essa "coisa" de fazer arte em você, por mais que você possa tentar ignorar, você sabe que está lá, cobrando atenção, querendo sair para a luz.
Não é uma escolha. Na verdade, nunca foi.
Frase do dia: "Seu medo é tão velho quanto o mundo"
Okay, senhoras e senhores. Estamos de volta para mais um episódio do seu oráculo apocalíptico ultra-pop favorito. A canção de hoje vai ser uma das complicadas de se comentar aqui e isso porque ela faz parte de um dos trabalhos conceituais de Bowie e olhar apenas esse fragmento sem levar todo o conjunto em consideração me parece meio covarde.
De qualquer maneira, falemos da faixa mais difícil de "Outside": A SMALL PLOT OF LAND
Contexto: Tudo começa em 1992. Na verdade, tudo começa uns 15 anos antes, mas para fins de concisão, vamos nos concentrar nos eventos ocorrendo no segundo ano da década de 90: Bowie estava se casando com aquela que seria a sua esposa até o final de sua vida, Iman Abdulmajid.
Na festa, entre comes e bebes e conversas soltas aqui e ali, ele reservou dois dedos de prosa para um colaborador de longa data: Brian Eno. Como os senhores sabem, os dois trabalharam juntos nos 3 álbuns que fazem parte daquela que é conhecida como a "trilogia de Berlin", sendo eles o "Low", "Lodger" e "Heroes". Eno, basicamente, foi quem evangelizou um Bowie pós Ziggy, pós Aladin Sane, pós Diamond Dogs e pós Station to Station sobre as belezas dos sintetizadores e sons eletrônicos que, salvo a fase de "rock de arena" do artista nos anos 80, seria outra companhia constante em sua produção até sua morte em 2016.
De volta ao reencontro entre ambos: entre cartas e mais cartas discutindo a situação da música nesse momento e tudo o que eles sentiam que faltava nelas, os dois começaram a esboçar certa vontade de produzir um novo trabalho juntos. Já decididos a conceber um novo disco e com a notícia de nova parceria entre ambos ganhando o mundo, a Q Magazine sugeriu ao cantor que ele escrevesse um diário de produção, que seria posteriormente publicado na revista. Bowie declinou o convite original, já que achava que a descrição do dia-a-dia no estúdio seria chata demais, mas acabou escrevendo o tal diário sob a perspectiva de um dos personagens da obra. Daí para a idéia de, de fato, criar um álbum conceitual, foi um pulo e dessa convergência de eventos, veio "Outside", décimo nono lançamento de estúdio da carreira do artista.
Como dito acima, a idéia era comentar sobre os rumos que a arte e principalmente a música tomavam nessa metade de década em que se encontrava. Não quero adentrar demais a esse respeito para não terminar com um texto quilométrico, mas o álbum descreve um mundo distópico, localizado em 1999. Nesse cenário, ocorriam os art-crimes, que eram exatamente isto: pessoas eram mortas e seus corpos eram mutilados eram vistos como um novo trending artístico socialmente aceito e reconhecido como tal. O protagonista do LP, Nathan Adler, é uma espécie de crítico de arte especializado nesta...... "nova mídia" e é quem, de fato, separa "as peças" dignas de reconhecimento e validação e o que é apenas "lixo".
A idéia de Bowie e Eno era de fato, captar o espírito da época em que este CD se inseria: 1995.
Um ano antes, o mundo viu o lançamento de vários discos clássicos que marcariam a década: o "Definitely Maybe" do Oasis, "The downard spiral" do NIN, "Grace" do Jeff Buckley, "Portrait of an american family" do Marilyn Manson, "Ready to die" do Biggie, "Illmatic" do Nas, "Parklife" do Blur, "The Holy Bible" do Manic Street Preachers, "Ill comunication" dos Beastie Boys, o clássico acústico MTV do Nirvana. É o ano, aliás, em que Kurt Cobain dá cabo da própria vida na garagem da casa em que vivia. O mainstream era aquilo: Ace of Base reinava com 3 singles no top 10 da lista dos 100 maiores do ano. Lista essa que incluía, apenas para ficarmos nos 20 primeiros, nomes como Celine Dion, Mariah Carey, Toni Braxton e Bryan Adams. Paralelo a isso, tínhamos também aquele típico mal estar de fim de século, polarizado ainda mais por, também, ser um fim de milênio. Os franceses se referem a esse fenômeno como "fin de siecle", que é esse mal estar coletivo, essa sensação de apocalipse iminente que cai sobre o mundo com a proximidade de datas cabalísticas como essas. Alguns textos que li falam que o "fin de siecle" virou mainstream de fato em 1992, na noite do Oscar em que "Silêncio dos Inocentes" levou os 5 principais troféus da premiação (melhor filme, roteiro, ator principal, atriz principal e direção).
"Outside" cria um universo que alia essa efervescência artística a essa sensação de fim iminente, numa história de tons sinistros. Caos social, espiritualidade, fascismo e arte, tanto como forma de validação desse cenário como arma contra ele.
Sobre a música: "A small plot of land" é um pesadelo sonoro de mais de 6 minutos, com uma instrumentação jazz de tempos quebrados, sons atonais de guitarra e piano, vozes etéreas (a de Bowie é só a mais notável dentre elas. Podemos ouvir algo que soa como um cântico indígena a partir dos 4 min.) combinando tudo isso num cenário infernal, fascinante e opressor ao mesmo tempo. A letra é intencionalmente dúbia: ouvimos a voz de Adler, o crítico de arte, avaliando o "objeto de art-crime" mais recente. Ele fala num tom condescendente, se apiedando daquilo que vê. No entanto, mais uma vez, o crime é um ato artístico em si, então, não sabemos de fato se sua piedade está com a pessoa que foi assassinada ou se suas palavras se referem a aquele corpo como obra. Nesse caso, o "poor dunce" da faixa seria o artista, alguém tentando se expressar artisticamente, mas sem sucesso.
Frase do dia: "Is small life so manic?". A frase parece falar sobre ambos: o corpo assassinado e o homem que o matou como forma de ganhar notoriedade. E sobre o nosso mundo em geral.
Os anos 90 foram bizarros para dizer o mínimo, quase como um rascunho do nosso mundo de 2020 e sua necessidade de super-exposição constante. Vidas inteiras transformadas em arte, em geração de conteúdo e produção non-stop. Ninguém quer ser normal, comum. "Small life".
E sim, eu sei o quanto soa hipócrita eu dizer isso no meu WEBLOG, onde eu normalmente vomito minhas intimidades em forma de posts, vídeos, podcasts e gifs animados.
Vontade de notoriedade, sempre existiu. O que torna nosso mundo notável é a quantidade de meios que temos para coletivizarmos nosso "particular".
É aqui que eu termino esse texto: eu sei que normalmente agora vem a parte em que o autor falaria da necessidade de revisar isso e que não existe nada de mal em pelo menos filtrarmos um pouco disso, reservarmos um pouco do nosso cotidiano apenas para nós mesmos.
Mas de novo: BLOG, diário virtual. Eu tenho podcast, canal no youtube, praticamente moro no twitter e meu notebook as vezes vira 24 horas ligado entre os dias, em que eu vejo a rede social do pássaro azul e outras como Instagram, e as noites, onde baixo coisa. Parte dessas, inclusive, para depois virar conteúdo para o meu blog.
Então, não crianças. Vocês que lutem. Vocês que reflitam sobre onde fica o limite entre o público e o "conteúdo para as massas". Eu? Fico aqui, tentando andar na corda bamba entre um e outro, tentando eu mesmo encontrar minhas respostas.
Bom dia, senhores. Apesar dos maus augúrios da faixa de Sexta-feira, estamos aqui, firmes e fortes.
Exceto, obviamente, pelo rapaz que fugiu para as montanhas, descrito no ultimo texto da semana passada. Continuamos torcendo por ele. #neverforget.
Enfim, primeira faixa da semana e primeira faixa daquele que é, segundo muitos, o disco mais clássico da obra Bowieana e o favorito de muitos dos fãs do cantor: o imortal "The rise and fall of Ziggy Stardust and the spiders from Mars".
A canção em questão é a unica faixa cover desse trabalho: "IT AIN'T EASY"
Contexto: Quinto LP de Bowie e o primeiro sucesso comercial do artista, "Ziggy..." é o divisor de águas de David Bowie. Onde antes o folk predominava, agora temos o rock. Onde antes, o artista cantava de cara limpa ou interpretava diversos personagens diferentes num mesmo disco, aqui, ele se entrega à uma persona em full time, fazendo aquela mescla que iria marcar sua produção artística, onde nunca temos certeza de fato onde termina o criador e começa a criatura. Não vou entrar aqui numa discussão do porquê do sucesso deste álbum, já que existem livros e mais livros cujo único foco é entender seu impacto na sociedade dos anos 70. O ponto é que o choque daquela persona em seu tom glam maior que a vida, aliado ao simples fato de que são 11 faixas absolutamente impecáveis, temática e musicalmente, tomou o mundo de assalto. Não é o primeiro grande trabalho de Bowie, de maneira nenhuma, mas foi o primeiro a cair nas graças tanto da crítica quanto do público. O resto é história.
Sobre a música: Na sexta eu disse que otimismo não era uma moeda corrente na mitologia Bowieana e aqui vemos um exemplo prático disso: a versão cover tem algumas diferenças fundamentais na letra em comparação com a original de Davies, lançada dois anos antes de "Ziggy.." ganhar vida.
Em ambas, temos um homem que se vê no campo, apreciando a beleza das coisas, a grandiloquência da natureza e as promessas de uma vida bucólica, contrastando estes com a dureza e a desesperança da vida na cidade grande e em grandes perímetros urbanos. Como eu fui um guri criado no interior, o tema me soa familiar: como, distante, a cidade parece uma utopia, onde tudo está ao alcance e todos os seus sonhos parecem perigosamente próximos. Até o momento em que você se joga, de fato, em meio à selva de concreto e percebe que a luz te seduzindo ao final do túnel era, na verdade, um trem vindo para cima de ti.
É curioso notar que esse é o segundo cover feito por Bowie do qual falamos aqui que altera a letra do original para pintar um cenário com tons menos coloridos e otimistas.
Por exemplo, na canção de Davies:
When you go up on the mountain top and you look out across the sea
And you know there’s another place perhaps where a young man could be
And you jump down to the rooftops and you look out across the town
And you know there’s a lot of strange things circulating ‘round
Já o cover:
When you climb to the top of the mountain
Look out over the sea
Think about the places perhaps, where a young man could be
Then you jump back down to the rooftops
Look out over the town
Think about all of the strange things circulating round
Em outro ponto, onde a original diz que "com paciência e compreensão", nosso herói pode vislumbrar um futuro melhor, Bowie acredita que "apenas com a ajuda do bom Deus" o protagonista do disco, Ziggy, poderá vencer seus demônios que o atormentam.
Parecem diferenças pequenas, mas elas servem para compor um personagem bem mais cínico e com uma visão bem menos positiva do que na obra que lhe serve de inspiração. O herói de Davies SABE que "existe um lugar melhor". O alien em sua missão de 5 anos, que é o narrador de "the rise...", pensa que "TALVEZ" haja um mundo onde um jovem homem possa atingir seu pleno potencial.
No verso em que cita a figura de Deus, essa inteligência superior não surge como um raio de esperança. Na canção de 70, Davies afirma que o mundo é um lugar frio e duro, mas achar seu lugar nele não é impossível e que a chave para tal compreensão se encontra dentro de cada um de nós, que paciência e reflexão são as chaves, que vencer as adversidades que a vida moderna nos apresenta é apenas uma questão de perspectiva.
Já Ziggy, num momento confessional, parece apenas admitir a própria impotência e de que nada poderá oferecer alguma luz. Nada exceto, talvez, a providência divina. Na qual, aliás, ele nem parece acreditar de fato.
Como vai ser o seu dia: Respira. A gente sabe que o mundo de 2020 é um lugar árido, cruel e assustador. Mas respira.
Não, eu não estou dizendo que o ato de você inalar oxigênio vai lhe oferecer qualquer solução.
Oh boy, não, esse navio já saiu do porto faz tempo.
Só estou dizendo isso e especificamente isso: tira alguns segundos para respirar com calma. Tudo vai continuar tão horrível como antes de você reservar esses segundos para encher seus pulmões com calma. Alguns demônios PODEM, vejam bem, PODEM (é uma possibilidade, de maneira nenhuma uma certeza) parecer menores depois de um intervalo para tentarmos uma mudança de perspectiva. Outros não.
Mas mesmo se esse for o caso, nenhum de vocês perde nada ao tirar uns minutos para respirar com calma. Afinal, está lá na faixa que discutimos hoje "Well, all the people have got their problems/ That ain't nothing new". Então.... por que não?
Frase do dia: "It ain't easy". De fato, não é nada fácil. Seja Bowie falando sobre como é difícil atingir os céus quando você se vê apenas caindo, seja em "Down in a hole", clássico do Alice in chains que diz que "Eu quero voar mas minhas asas me foram negadas", seja Jim Morrison em sua "Bird of prey" e em várias outras canções que tratam dessa aspiração básica e milenar humana de, literal e metaforicamente, ganhar os céus, o consenso entre todos eles é: não é fácil.
Okay, quando eu comecei essa série, eu não considerei o fato de que oráculos geralmente servem para oferecer alguma esperança para as pessoas e, bom, essa sensação de um futuro melhor não é moeda corrente na mitologia Bowieana.
Vejam bem: meu problema com astrologia, tarot e toda forma de oráculo é que normalmente, eles servem pra prever algo superficial. Se meu dia vai ser bom, se a pessoa amada volta em 3 dias ou não, quem é meu aliado na empresa e quem quer meu mal. E normalmente, tudo vem num tom de positividade e otimismo que me soam irreal. Tudo vai inevitavelmente dar certo. Sempre.
Eu já disse aqui inclusive, que eu entregaria meu total respeito ao primeiro oráculo que chegasse me dizendo tipo "seu dia vai ser horrível, sua família inteira vai ser tragada pela Terra e existem gigantescas probabilidades de que você seja o anti-cristo bíblico. E sua cor do dia é verde"
Bom... nesse aspecto, essa seção me soa extremamente satisfatória. A canção de hoje, por exemplo, que vai dar o norte não só de hoje mas do final de semana é KINGDOM COME. Então, senhores, fiquem em casa. Ou corram paras as montanhas.
Contexto: Faixa 8 de um dos meus LPs favoritos de David Bowie, o lendário "Scary Monsters (and super creeps)", seu décimo quarto disco de estúdio e aquele que muitos apontam como "o começo do fim" (e só pra constar, agora, aleatoriamente, começou a tocar "Ashes to ashes", a.k.a. "a música mais bonita do mundo" no youtube. Eu sei, não é uma coincidência e sim ação dos onipresentes algoritmos da plataforma, mas.... serendipitía, de qualquer forma). Seus álbuns anteriores, normalmente reunidos sob o epíteto de "a trilogia de Berlin" - "Low", "Lodger" e "Heroes" - foram um grande sucesso crítico, mas menos bem-recebidos em termos de vendas. Aqui, no entanto, temos um maior equilíbrio, o que reverteu em maior aceitação do público. Alguns textos que li, no entanto, indicam o efeito negativo disso, já que os próximos lançamentos do artista iriam se voltar mais em direção ao popular, ao rock de arena, rendendo obras menos inspiradas. "Let's dance", seu disco seguinte, seria seu campeão de vendas e, apesar de ser um álbum querido pela crítica, caminha ainda mais em direção do mainstream.
Sobre a música: A canção é, de fato, um cover de um dos ídolos pessoais de Bowie, Tom Verlaine, ex-Television e, na época, lançando seu primeiro disco solo, de onde a faixa veio por indicação do guitarrista e colaborador constante de David, Carlos Alomar. A música descreve o dia-a-dia de um homem numa rotina de trabalho massacrante. Ele quebra pedras e vai pra casa, onde implora por pelo menos uma noite de descanso, apenas para no dia seguinte, voltar à labuta.
Curiosamente, existe uma diferença entre esta versão e a original que reflete o tom geral de "Scary monsters.." em geral: enquanto a canção de Verlaine tem a frase "when the kingdom comes" no refrão, Bowie joga a frase pro final da canção, já em seus últimos momentos. A esperança do protagonista da original é uma constante, ao lado dele o tempo todo, mantendo-o de pé.
Na versão Bowieana da música, mesmo esse alívio é um luxo não disponível.
O mundo de "Scary monsters..." é um lugar hostil, fascista e cheio de vícios prontos para destruir uma alma humana. Esperança, aqui, é um item em falta.
Como vai ser o seu dia: Okay.... só reiterando: corra para as montanhas?
Não, okay, tentemos um tom mais amigável: Relaxe. Tire um dia de descanso. "Trabalhe para viver, não viva para trabalhar".....
E também, enquanto prepara a mochila para a viagem para as supra-citadas montanhas (porque, sejamos realistas...), não se esqueça de comida em lata e kit de primeiros socorros. Uma bússola seria interessante caso haja intenção de voltar para a vida em sociedade em algum momento futuro (mas não lhe culpo se não for esse o caso)
Um bom livro é a melhor companhia para a jornada. E se for com alguém e em algum momento for interpelado por um animal selvagem, jamais se esqueça: você não tem que correr mais que o animal lhe caçando. Você só precisa correr mais do que o seu amigo ao lado.