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quinta-feira, 1 de junho de 2023

Groselha on the rocks apresenta: sua oficial, perfeita e absolutamente inquestionável lista de melhores aberturas de seriados EVER!!!!!

Tudo começou quado fomos, procurando por vídeos legais, Stella e eu,  em um link de um site grande onde um influenciador fazia sua listinha de aberturas de séries de tv favoritas.

Obviamente, Stella e eu discordamos do rapaz. E aí, tínhamos dois cursos de ação que poderiam ser tomados: em um, o mais racional e o mais comum quando falamos de internet, era deixar um comentário pro dono do canal desejando sinceramente que todos os seus entes queridos morram em um incêndio.


I mean, a internet é feita disso, basicamente...

Mas aí, decidimos por um caminho menos... hã... "adolescentemente confrontacional" e decidimos nós mesmos, fazer nossa listinha.

Separei em uma playlist quase tudo que é série de tv que assistimos os últimos anos. E sim, eu tenho certeza de que haverão omissões criminosas no nosso top 10, mas, é o que deu pra fazer.

So, sem mais delongas, o top 10 oficial do Groselha on the Rocks de melhores aberturas de tv já feitas.

10 - WHAT WE DO IN THE SHADOWS



É exatamente o tipo de mood que usamos pra pautar nossas escolhas na hora de pensar essa listinha: a junção perfeita de uma abertura com imagens que encapsulam o espírito do show que estão introduzindo, com uma música que vai ficar na tua cabeça. 

Ouvimos a música de Norma Tanega enquanto vemos as fotos mostrando os séculos de vida daqueles vampiros não particularmente dotados de auto-consciência, em seus altos e baixos. 

Porque uma das graças dessa série e uma de suas piadas mais recorrentes é exatamente o quão alheios estes vampiros estão a respeito do quão ridícula é a vida deles e toda a pompa a respeito de sua condição imortal.

Todo mundo tem aquele amigo gótico meio patético, fã de Anne Rice e Nightswish, que batia cartão no Madame Satã praticamente, bate no peito por já odiar Evanescence "before it was cool" e ainda usa seu e-mail Lugosi_Draven_of_Lioncourt@gmail.com feito no começo dos 2000s, sabe?

É como se esse show fosse sobre esse seu amigo. Se ele tivesse poderes e fosse um vampiro de fato.

09 - BOARDWALK EMPIRE



Essa é uma das minhas favoritas e admito que eu tentei coloca-la em uma posição mais alta. Ela passa toda a gravitas que resume a série, narrando a vida, ascensão e inevitável queda de um gigante que construiu fama e reputação navegando acima da lei em uma época sinistra (os anos 20 e a era da prohibition, onde a produção, consumo de álcool e sua venda eram crimes) e sobrevivendo a todo tipo de coisa que jogavam contra ele. Nucky na praia, vendo as garrafas no mar a perder de vista, enquanto o tempo vira, anunciando uma tempestade.

Perfeito

08 - WHITE LOTUS



White Lotus é uma série difícil de categorizar ou mesmo descrever e sua abertura segue o mesmo caminho. É uma comédia com tons fortemente dramáticos ou um drama cômico? No final, todos podemos concordar que a idéia é rirmos daquelas pessoas ricas, presas em seu labirinto de privilégios, excessos e breguice. E, DEUS DO CÉU, como eles são bregas... 

07 - SUCCESSION



Todo mundo que tem pretensões de ter filhos deveria assistir isso aqui pra entender o estrago que um pai ruim pode fazer em suas crianças. 

06 - TWILIGHT ZONE



Falar o que? Uma das maiores e melhores séries de todos os tempos? Talvez A MAIS influente? Um marco cultural raramente igualado? E uma abertura que resume bem o pathos do show. Existe uma dimensão de estranheza e, baby, nós vamos chafurdar nela pelos próximos 20-50 minutos, não vamos?

O Hierofante Rod Serling vai nos pegar pela mão e nos mostrar a entrada, mas, uma vez lá dentro, é só a gente por nós mesmos.

05 - SIX FEET UNDER



Eu lembro que, nos extras do box de dvds da season 01 dessa aqui, tem um documentário particularmente denso a respeito do processo de criação da abertura e você pode testemunhar o profundo amor e cuidado que todos os envolvidos tiveram durante ele. Das mãos se separando no começo, passando pelo preparo do corpo para o velório, seu enterro e, ao final, a árvore sozinha no meio do campo, indicando que alguém partiu, mas que a vida segue resiliente. 

04 - THE LEFTOVERS



Okay, aqui as coisas vão soar excessivamente pessoais talvez, mas FUCKING JESUS, pensar em The Leftovers e lembrar que essa série acabou dois anos ANTES da pandemia é....algo... Porque, apesar dos motivos da morte de milhões de pessoas na vida real em virtude da COVID diferir das razões mais esotéricas que levaram ao sumiço de 2% da população da Terra na série, no final, o resultado pra quem fica é o mesmo. The Leftovers nunca foi sobre teorizar o que aconteceu e porque, mais importante, aconteceu. Mas sim sobre o vazio de quem sobrevive a uma grande tragédia. E se no texto anterior, sobre SFU, eu disse que a vida segue resiliente, aqui, somos lembrados que sim, o mundo não para nem parará de girar por causa das pessoas que se foram, mas nós temos, sim, que perdurar apesar do vazio e do vácuo e das cicatrizes deixadas depois que alguém que amamos se vai. 

Eu sempre acho curioso pensar como, enquanto víamos a série, a gente sempre via os guilty remnants, aquele "grupo/culto/o que diabos era aquilo?" que viviam para lembrar ao mundo da tragédia ocorrida e que não dava para, simplesmente, fingir que nada aconteceu e só "tocar o barco", como vilões.

E vejam bem, eles tinham métodos questionáveis, indiscutivelmente. E aí, veio o COVID. E aí NÓS nos vimos como os guilty remnants da vida real. Os "chatos" lembrando ao mundo que tinha um vírus matando gente e que o problema não iria só desaparecer porque a gente decidiu coletivamente fingir que ele não está mais lá. 

O mundo dá voltas, né? Já dizia o Badauí. 

03 - CARNIVALE



Acho que meu favorito dessa lista. É absolutamente impecável. Uma mistura do profano, do mundano e do sagrado, não coexistindo dialeticamente, mas em confronto, em processo de choque e visando mútua anulação. Um resumo perfeito do começo do século 20, onde as linhas separando homens e deuses, mundano e metafísico, ordinário e extraordinário pareciam nubladas. Carnivale é um dos mundos com maior potencial de todos que eu já vi nesses mais de 40 anos assistindo seriados e é um crime que nunca tenha existido nenhum livro ou quadrinho contando o resto da riquíssima história que Daniel Knauf concebeu pro show. 

Carnivale era um show sobre a humanidade em uma encruzilhada, tendo que decidir os rumos a serem tomados e o preço da decisão tomada recaindo sob os ombros de um profeta. Eu odeio ter que incorrer em clichês baratos, mas nesse caso não dá pra escapar: Carnivale era, de fato, uma experiência. Não apenas intelectual ou emocional, mas espiritual de fato. 

02 - GAME OF THRONES



Tá aqui sob protesto e só pra mostrar minha isenção na confecção dessa lista, porque eu particularmente preferiria incluir as aberturas épicas - melhores que o show em si, vale mencionar - de American Horror Story. E agora que eu parei pra pensar, podia ter incluído a de Twin Peaks aqui também.

E nem é birra pelo fim da série não. Eu DEFINITIVAMENTE não odeio o final de Game of Thrones tanto quanto vocês. 

Mas novamente, não se trata das minhas favoritas, mas das melhores aberturas. E, inquestionavelmente, seja plasticamente e por ser visualmente linda, seja pela música larger than life, seja pelo impacto na cultura e as 5000 referências que surgiram na época de ouro de GOT, não tem como ela não ocupar lugar merecido, pertinho do topo dessa lista.

01 - DEXTER


Aí não tem como né? Eu falei, quando brisando sobre Carnivale, a respeito da junção perfeita entre o épico e o mundano. E essa abertura aqui faz exatamente isso, mas ainda melhor. Testemunhamos o café da manhã do protagonista e a perspectiva dele fazendo as coisas mais ordinárias como se barbear, cortar uma toranja ou fatiar presunto. Mas tem algo TÃO macabro ali, né? Quase no canto do olho, como diziam em Doctor Who. 

Mesmo nos momentos mais normais do seu dia a dia, Dexter não pode ignorar seu "passageiro sombrio". E a música, que é agradável mas, aqui e ali, adota notas e tons mais sombrios. Tudo isso combinado em uma fusão perfeita de imagem e som resultando em algo que DEVERIA parecer normal e confortável e familiar, mas que esconde sombras que escapam a um primeiro olhar, mas que quando vistas, saltam aos olhos e não podem mais ser ignoradas.

Idéia incrível e execução igualmente impecável

É isso, crianças.

Concordam? Discordam? Deixem seus comentários a respeito. 

Qualquer dia desses, fazemos uma segunda lista, agora com as aberturas de séries animadas mais legais que já existiram. Eu acho que, de cabeça, consigo pensar em umas duas dezenas de potenciais candidatas para esse top 10.

E vocês?

domingo, 21 de maio de 2023

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

The book is on the table #2 - "Kaijus, Heavy Metal e consciência de classe"

 Yo dogs...

Eu sou o seu adorável host, Misunderstood Mastermind, de volta. De bom humor. 

Tava de péssimo humor quando comecei a escrever hoje cedo, devido a uma fila pavorosa, excruciante, inumana, INACREDITAVELMENTE lenta que peguei no mercadinho hoje cedo. 

E eu disse que do lado de fora do mercado estavam rolando obras na rua que envolviam, OBVIAMENTE, uma britadeira funcionando em full mode berserk? Pois é. 

Mas agora, depois de algum tempo, já estou em meu mood habitual. 

So, gibizinhos e demais coisinhas legais consumidas essa semana.

E em dose dupla. Eu prometi semana passada, lembram? Amanhã tem outra.

C'mon, eu jamais mentiria pra vocês. Bom... okay, eu totalmente faria isso, mas desta vez eu estou falando sério, okay? Talvez tenha até uma edição outta nowhere da Monster Mash vindo. Vai saber.



Anyways. Comecemos com o principal: ESSA SEMANA VOLTA DOOM PATROL.

Melhor série baseada em hqs já feita. Pau a pau com Legion, da FX. Dois exemplos de que DÁ PRA FAZER. Não precisa ser uma parada medíocre tipo as séries do Arrowverse ou os Defenders da Netflix. 

A temporada passada acabou em um cliffhanger, em consequência do final súbito das gravações em detrimento da pandemia. Dorothy Spinner indo enfrentar o Candlemaker na pocket dimension de onde os monstros que a menina cria se originam. Os trailers recentes já vieram anunciando que vai tudo ser elevado à enésima potência. DIABOS, vai ter Monsieur Mallah. Ansioso? HELL YEAH, eu tô ansioso. 

Que mais...

Ah sim.

Se não teve coluna semana passada, os culpados são Zander Cannon, Tom King e Jorge Fornés, Daniel Warren Johnson e Brandon Graham. Alguns de seus trabalhos (respectivamente Kaijumax, Rorschach, Murder Falcon/Space Mullet e King City) me levaram para um vórtex do qual eu quase não saio mais.



Kaijumax, particularmente, eu reli tudo, as 5 temporadas anteriores (que é como Cannon, autor da série, decidiu dividir os arcos. Cinco seasons de seis edições cada). Começa incrível e segue incrível até a season 4. Aí chega a season 5 e DEUS DO CÉU. Mas vamos por partes.

Kaijumax, série de, até o momento, 30 edições, da Oni Press, narra o cotidiano da ilha prisão de mesmo nome onde kaijus - sim, os monstros gigantes - são enviados para pagar pelos crimes cometidos contra a humanidade.

Ceis viram "Orange is the new black"? Ou "Oz"? Ou qualquer filme que narra o cotidiano dentro de uma prisão? Então vocês sabem o que esperar.

A arte e a premissa prometem um gibi leve, talvez uma comédia. E o humor está lá, não duvidem. mas ele vem de forma episódica e entre um rompante e outro, temos drama, tragédia e muita, MUITA dor.

Acompanhamos a trama pelos olhos de Electrogor, um kaiju que foi preso enquanto tentava sugar energia de uma usina nuclear para gerar os ovos que usa para alimentar seus filhos. Novamente, se vocês viram séries e filmes passados em penitenciárias, vocês PODEM PENSAR que sabem o que esperar. Mas nope, a série sabe te pegar de surpresa. 

Os 3 primeiros arcos mostram as idas e vindas de Electrogor e outros presos, além da dinâmica interna da ilha. Os grupos que se formam (supremacistas kaijus, cyber monstros que rejeitam a vida carnal, além dos perdidos que tentam orbitar - e talvez, faturar algum $$$$ - entre todos os grupos), a perspectiva dos "guardas" (basicamente, uma versão mais corrupta da tropa Ultra) e, em algumas situações, como é o mundo fora daquele pedaço do inferno. 

É uma história PROFUNDAMENTE divertida, não me entendam mal. Mas também é uma sátira política sobre as falhas do sistema prisional e como ele é parte de um sistema maior, feito para manter todo um grupo oprimido. As metáforas não são sutis de maneira nenhuma e, nesse caso, nem precisam ser. 

O quarto ano da série foca na ala feminina da ilha. Começa mais leve, mas, novamente, te surpreende quando tu menos espera.

Aí vem o ano 5. BOY, oh boy. "The orange mile", mostrando a ala da cadeia destinada para os monstros condenados à morte e esperando execução. Acompanhamos o julgamento de Pikadon, um dos maiores chefões do crime kaiju no planeta. Alguém de quem apenas ouvíamos falar nos números anteriores da série, sempre com um ar de horror acompanhando seu nome. E de fato, quando finalmente nos damos conta - e veja bem, era TÃO óbvio que passou batido por todo mundo - ele é, figurativa e literalmente, um monstro. Mas passamos a ver detalhes desse personagem, seu passado e quando essa carga de informação, somada ao backstore dos personagens que já conhecemos anteriormente, nos é revelada com nuances, percebemos que essa é uma história sobre empatia. Sobre como a sociedade crucifica pessoas que, pra começo de conversa, nunca tiveram uma chance pq essa mesma sociedade destinou a elas uma posição de periferia (novamente, literal e figurativamente) na sociedade. O papel deles é ser os monstros. As vítimas que cometeram o crime de tentar fugir do destino que esta mesma sociedade reservou pra eles, da forma que for. Sintomas de um mundo PROFUNDAMENTE doente. Não uma falha do sistema, mas um de seus produtos naturais. Sempre é preciso lembrar: criminalidade, pobreza, classes sociais desfavorecidas. Isto NÃO é um acidente do capitalismo. Isso É o capitalismo. É o capitalismo funcionando EXATAMENTE como deveria. 

Que esse gibi traga essas discussões ENQUANTO nunca deixa de ser um gibi divertido e que entretêm o tempo todo, é algo digno de nota. As referências quase non-stop sem nunca deixarem de soar orgânicas (sério, sem adentrar detalhes em excesso, mas vemos um musical "Hamilton style" dentro da trama só que recontando a história do Godzilla original de 54), tanto no visual dos personagens, quanto nas gírias desse grupo e até nas tatuagens que estes condenados carregam, tudo traz um pedacinho a mais de história e confere tridimensionalidade a aquele universo. A série tem momentos PROFUNDAMENTE perturbadores ao mesmo tempo que tem outros que me fizeram rir alto. 

Já está rolando a season 6 e última da série. Bate aquela sensação agridoce de ver a conclusão da trama como planejada por Cannon, mas ao mesmo tempo, ter que dizer adeus a este mundo riquíssimo, cheio de super ciência, magia negra, aliens e criaturas intra-terrenas. Um mundo de monstros e homens e sobre as linhas que separam estes dois conceitos.  

Espero alguns spin-offs mostrando outros aspectos desse mundo - bom, caso sobre algo dele depois do fim. 

E falando sobre o fim do mundo...



Ainda me mantendo nesse terreno do gibi autoral, li Murder Falcon (roteiro e arte de Daniel Warren Johnson e cores de Mike Spicer) e Space Mullet (Johnson escrevendo e desenhando).

O desenhista e roteirista é um dos "novos nomes" dos quadrinhos americanos e tem tomado a cena de sobressalto, já tendo inclusive um trabalho lançado em uma das duas majors (Wonder Woman: Dead Earth). De fato, seu roteiro e arte são... acho que "refrescantes" é a palavra. De fato, seus gibis tem uma energia punk e ele navega por temas sabendo transitar entre drama e leveza com uma graciosidade que é raro de ver. 

Murder Falcon é uma mini em 8 partes, publicada pela Image Comics, que mostra as aventuras de Jake. Ex-membro e líder de uma banda que se separou depois de uma tragédia pessoal vivida por seu frontman, seu mundo muda depois de, durante um ataque de monstros, ele encontrar Murder Falcon, uma entidade guerreira que utiliza o poder do rock como combustível e precisa não só que o rapaz volte a tocar, mas que reúna sua banda como forma de reviver outras entidades para ajudá-lo em sua missão. 

Falando assim parece uma trama leve e escapista e de fato, o gibi bebe muito de obras como o filme do Tenacious D ou jogos como Brutal Legend. Aquela coisa do PODER DO METAL (imaginem isso dito com um agudo Detonator-style). Mas ao mesmo tempo, existe um segundo nível de trama, BEM menos leve, sobre o poder da música como elemento de superação de traumas e tragédias. O quadrinho tem momentos bastante densos, emocionalmente falando e que podem tirar uma ou duas lágrimas de algum leitor incauto (nope, não falo em primeira pessoa. Nope... de forma alguma......). Exatamente por causa desses momentos, a ação é PROFUNDAMENTE empolgante, pq nos importamos com aqueles personagens. Porque sabemos do peso que Jake carrega consigo, assim como ocorre com os demais membros da sua banda, a Brooticus. Todos os personagens tem seu devido momento de brilhar sob os holofotes, e estamos falando de um grupo não particularmente pequeno. 

Pra qualquer um, esse gibi é certeza de uma boa leitura. Se você for fã de metal então, só pega algum disco clássico do gênero, coloca pra rodar com o volume no talo e apenas VAI ler Murder Falcon.


Já Space Mullet é uma graphic novel publicada pela Dark Horse em 2016 - surgida inicialmente como uma webcomic publicada por Johnson, na íntegra e gratuitamente, em seu site -  que traz temas parecidos com os de Kaijumax. Jonah e seu parceiro, o alien Alphius, são dois pilotos de uma nave de carga que vai aos trancos e barrancos, entre um trampo mal pago e outro, até que são contratados para realizar um trabalho que pode mudar a vida de ambos, ao mesmo tempo que força Jonah a reviver seu sombrio passado. Novamente, uma trama de premissa simples mas que serve de porta de entrada pra um universo muito bem elaborado e cheio de detalhes. A trama também inclui discussões sobre classes sociais, preconceito e xenofobia, abuso de poder militar e espetacularização da miséria. 

Apesar da publicação, a história ainda está disponível no site oficial da série (inclusive, o tpb que eu li contem apenas uma parte da história. Terminando esse texto, vou lá conferir o resto). 

A arte lindíssima, em tons de preto, branco e azul descreve muito bem o mundo dos personagens. Noir e melancólico. Altíssima tecnologia que convive com cantos do universo em estado de miséria. Personagens se colocando em situações que jamais deveriam estar, em primeiro lugar, se não estivessem tolhidos de qualquer outra opção como forma de garantir a própria sobrevivência. Acreditem: o título engana. A trama tem elementos que me lembraram, ao mesmo tempo, o clássico de 1969 "They shoot horses, don't they?", o anime Cowboy Bebop e sua "prima americana", Firefly. 

Outro daqueles gibis que poderiam durar pra sempre, com mundos ao mesmo tempo estranhos e tristemente familiares que causam na mesma medida, repulsa e fascínio e dos quais nos vemos querendo conhecer mais e mais. 

De Rorschach e das obras do Brandon Graham, eu falo outro dia.

Por hora, vou deixar os gibizinhos e falar das paradas que estou ASSISTINDO.


Larguei quase todas as séries de TV que via - ou melhor, coloquei todas em um hiato indeterminado - e decidi voltar pro universo dos tokusatsus. 

Leitores de longa data do blog devem lembrar que eu tive, por um tempo, uma seção fixa onde eu falava de séries japonesas desse tipo. Acabei não dando continuidade, mas decidi que era uma boa hora pra ficar em dia. Até pq, vejam bem...


Meu problema com séries em geral, é que eu tenho SERÍSSIMOS problemas de atenção. Manter minha concentração é algo complicado. Quando vejo séries com Stella, durante o final de semana, é bem mais simples. Mas sozinho, com toda a constante cacofonia da internet pra me tirar a atenção? Querer que eu me dedique a programas de tv de uma hora com 12 a 24 episódios é esperar um pouco demais de mim.

Existem exceções, mas estas só vem para comprovar a regra. 

Com tokusatsus é bem mais simples. 20 minutinhos por episódio e, em média, 50 episódios por série. 

Se eu quisesse, em uns 3 dias dava pra matar séries inteiras. Dessa forma, eu consigo enganar meu cérebro e mante-lo concentrado por 3, 4, 5 episódios de toku-shows por vez.

Uma vez decidido a ver programas do tipo, a questão era: por onde começar? 

Pensei em ver na ordem cronológica, mas não ia funcionar. Pretendo voltar para os clássicos e primeiras gerações dos Sentai, Ultras e Riders, mas por hora, fiquei com contrapartes mais recentes destas franquias.

A saber: 

Kamen Rider Zi-O

Kamen Rider Gaim

Kamen Rider Ex-Aid

Kamen Rider Wizard

Shinkenger

e Ultraman Orb. 

Vi os primeiros eps. de todas acimas, mais uma que só não curti e vou deixar pro futuro (Goseiger). 

Meio que eu adorei todas. Wizard, Gaim e Ex-Aid tem uma cinematografia linda, em um mundo vivo e cheio de cores e isso me fisgou rápido. A trama, bem legal, só contribuiu.

Zi-O também me encantou, apesar de beber com força do lore dos Riders e como eu só vi o que passou no Brasil e mais Kamen Rider Ryuki, pode ser que eu "perca a piada" aqui e ali. Mas se isso não me impediu de adorar Gokaiger, série cuja trama girava em torno de todas as séries sentai anteriores, acho que não vai ser isso que vai me fazer desgostar do show. 

Shinkenger... confesso que foi escolhida por pura aleatoriedade e, devo dizer, dei sorte. A série é visualmente bonita e a trama... acho que é melhor roteiro de todas dessas que comecei a ver. O episódio 5, por exemplo, usa a história para, através de uma trama de crescimento do líder do grupo, introduzir um dos tropes mais clássicos do gênero mas que, aqui, soa realmente surpreendente. Todo mundo, dos heróis aos vilões, exala carisma, com personalidades muito claras e bem definidas. As cenas de ação são muito legais e nem o CGI meio tosco atrapalha. Se você, como eu, é um toku-fã mancheteiro criado a base de Jaspion e Changeman, sempre quis voltar a ver seriados dessa natureza mas nunca soube por onde começar, vai na fé: Shinkenger é maravilhosa e daquelas pra fazer binge de horas e horas. 

Falo mais - COM CERTEZA - conforme for avançando. 

Por fim, Ultraman Orb. Minha primeira série Ultra da vida adulta (vi episódios da série original mas nunca fui até o fim). Até o momento? Só sei que gostei. Vi só o primeiro episódio e não tem muito nele pra tecer parágrafos e parágrafos, mas ele vem pra estabelecer a premissa e manter o interesse do público e fez as duas coisas comigo de forma muito competente. E ser uma série mais curtinha, com apenas 25 episódios, só contribui. 


É isso, crianças. Promessa paga. Amanhã tem mais. Mais curta, provavelmente, mas tem. 

The Misunderstood Mastermind is out!!!

Respect!!!

*Atualização: eu erroneamente creditei a arte de Murder Falcon a Mike Spicer, quando na real, ele foi o colorista da série que tem roteiros E arte de Daniel Johnson. Já corrigido mas ainda assim, mals aê. 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

The book is on the table #01 - "É a esperança que mata".

 Yo, dogs....

"The book is on the table #01". Esse é o nome da nova "coluna" aqui no blog, da qual eu falei semana passada. Batizada, obviamente, pela minha talentosíssima esposa, a mesma mente que deu o nome para a "Monster Mash", a mixtapezinha oficial daqui do Groselha. 

Como já dito, a idéia é adotar um formato meio "newsletter" e falar de forma meio descompromissada - mas nunca superficial - sobre as recentes leituras, filmes vistos, discos ouvidos e o que quer que eu ache interessante de compartilhar com os senhores. 

Comecemos com quadrinhos, pq, afinal, é nossa mídia favorita.


Retomei a leitura de "Gideon Falls". Tinha lido os primeiros, 4, 5 números acho, uns tempos atrás. Até cheguei a comentar sobre em uma das edições do "Sobre homens que podem voar", o podcast que fiz uns tempos atrás e que os senhores podem encontrar lá no youtube (e antes que perguntem, não penso em continuar com ele. Meio desanimado de qualquer projeto que dependa de subir em uma plataforma que se apossa daquilo que eu criei e que cria todo um conjunto de regras imbecis pra definir se eu posso ou não divulgar o que eu fiz para o máximo de pessoas possível. Não quero me preocupar com o algoritmo do youtube, ou do spotify ou qualquer coisa do tipo #Blogging4ever ). Decidi pegar o gibi de volta e.... rapaz.

Digamos que eu tenha parado a leitura anterior antes de uma edição pivotal, daquelas que mudam sua percepção da trama como um todo. Desta vez, fui até a edição 10 e .... novamente... rapaz!!!!

Normalmente, falando de gibi, é fácil vc se concentrar na trama e render todos os loas possíveis para o roteirista, negligenciando o artista que desenhou o negócio. Sei lá, deve ser coisa vinda da nossa relação com o cinema, onde creditamos o filme a uma, duas pessoas no máximo (diretor e roteirista) e esquecemos de toda a horda de pessoas, literalmente DEZENAS, que precisaram botar esforço ali para aquele projeto sair do jeito que saiu. Anyway... todos os méritos ao roteiro de Jeff Lemire mas o que torna esse gibi algo único é a arte.

Sem entrar demais no mérito da coisa pra não spoilar: o padre Willfred chega á cidadezinha de Gideon Falls, uma dessas comunidadezinhas rurais no interiorzão dos EUA. Lá, logo na primeira noite, ele tem seu primeiro contato com o black barn, um barracão negro sinistro, material de lendas - e pesadelos - locais. Ao mesmo tempo, em outro canto da cidade, vemos Norton, um rapaz recentemente liberado por um hospital local depois de um período lá em virtude de suas patologias mentais,e que possui um passado que o conecta ao macabro barracão. Novamente, sem adentrar demais, chega um ponto em que os protagonistas finalmente conseguem acesso ao black barn. Neste momento, para mostrar que eles tem acesso a níveis dimensionais diferentes do 3D, o desenhista, Andrea Sorrentino aproveita para fugir do convencional. Pensem em Promethea e seus momentos mais lisérgicos.

Algo nesse nível. Sério, é impressionante como ele adapta a própria arte para diferenciar os momentos dentro e fora do barracão negro. Eu não consigo descrever o quanto são legais essas páginas e como ele é bastante eficiente em demonstrar que aquilo que os protagonistas estão experienciando é completamente desconectado de qualquer noção de tempo e espaço que nos sejam familiares. Brilhante, absolutamente brilhante. E novamente, o roteiro de Jeff Lemire, um dos grandes nomes dos quadrinhos atuais, só ajuda. É uma trama que bebe do souther gothic, mistura com Twin Peaks, sci fi e..

Sério, só peguem pra ler. Aproveitem que a série é curta. Seis encadernados. Vinte e sete edições. Em uma tarde, vocês matam a série inteira. 

Mudando de mídia, agora falando de cinema.


So. Green Knight. Filme novo da A24. Todo mundo tava no hype depois dos trailers e posteres mostrando um filme particularmente com cinematografia de encher os olhos. Restava saber se a história iria pelo mesmo caminho. 

Na história, acompanhamos o que pode ser a "história de origem" de Sir Gawain, um aspirante a cavaleiro do Rei Arthur, e seu fatídico encontro com o Cavaleiro Verde. O gigantesco homem, meio humano meio árvore, se aproxima da corte Arthuriana nas comemorações de final de ano e propõe um jogo. Um dos cavaleiros irá atacá-lo com sua espada. Um ano depois, este cavaleiro irá até os domínios da criatura, onde receberá dela um ataque nas mesmas proporções que o que desferiu no primeiro encontro de ambos. Depois disso, cada um segue sua vida.

Gawain, tentando mostrar força, decapita o Cavaleiro Verde sem hesitar. Surpreendentemente, o gigante se levanta, pega a própria cabeça e parte, não sem antes lembrar que ele e o jovem tem um encontro, dali a 365 dias. O filme é, basicamente, Gawain indo até o castelo do Cavaleiro Verde para cumprir com sua promessa. 

Se você também se perguntou "pq demônios ele decapitou o bicho, ao invés de só encostar com a espada no rosto do monstro ou algo do tipo?", creia-me, você está no caminho de entender a mensagem do filme. 

Pensem em Amadeus, clássico longa de Milos Forman. Da mesma maneira, Green Knight TAMBÉM é uma história sobre medíocres, sobre pessoas aspirando a grandeza mas em dado momento, sendo confrontadas com a possibilidade de que elas não tenham o que é necessário para atingir tal estado. 

Todo mundo se acha o protagonista do filme, o cara que vai sobreviver ao massacre de zumbis, à invasão alienígena. Ás vezes, no entanto, a vida te lembra que, na tal invasão dos mortos vivos, você não seria o zombie-hunter über cool, matando desmorto com uma serra elétrica, mas sim, um dos mortos-vivos, rastejando sem rumo atrás da próxima dose de massa cinzenta para devorar. 

Você não seria o Negan ou o Rick. Vc seria apenas o Zumbi nº 36 que apareceu por 15 segundos durante um episódio filler e que foi morto com um headshot. 

E dói ser lembrado da própria insignificância, não? É sobre esse desespero, essa busca pela grandeza, esse tatear no escuro, sem a menor certeza de que você pode bancar tal jornada, de que talvez, apenas talvez, você não seja "tão bom assim", que o filme fala. Atmosfera belíssima, um elenco, encabeçado por Dev Patel no papel de Sir Gawain, muito bom e um roteiro eficiente, que passa o que quer passar sem ser didático demais, sem muita exposição e sabendo deixar detalhes nas entrelinhas. 

Eu li sobre o filme ser uma anti-jornada do herói alguns dias depois de vê-lo. Antes disso, no entanto, Stella comentou comigo sobre achar que o filme tinha uma mensagem ambientalista, sobre como tomamos da natureza mais do que precisamos, como pensamos que certas coisas são uma certeza quando - como as mudanças climáticas recentes nos lembram - isso não poderia estar mais distante da verdade. 

E de fato, acho que as duas leituras estão corretas e se complementam. Afinal, não existe nada mais eficiente para lembrar a humanidade da própria insignificância do que a natureza. Tipo, estamos trancados há mais de ano em casa por causa de um vírus, sabe? Um corpúsculo microscópico. Nem uma porra de um ser vivo, de fato. Ínfimo, mas gigantesco o suficiente para botar o arrogante ser humano, com seu hipotálamo altamente desenvolvido e seu par de polegares opositores, de joelhos. Ou deitado eternamente. 

A humanidade se enxerga como eterna e inevitável, até um terremoto, tsunami, uma crise viral ou uma mudança mais radical na temperatura terrestre nos botar em nosso devido lugar. 

Enfim, pra mim, é um dos melhores filmes do ano, fácil no meu top 10. Talvez, no meu top 5. E olha que o ano está bem fornido de filme. 

Estréia sabe lá deus quando, mas vocês já encontram por "meios alternativos". E de qualquer maneira, não vão ao cinema, kemosabe. Covid 19, ya know? Okay, okay, já tem gente com suas devidas DUAS doses tomadas (eu, só no fim do mês), mas mesmo assim, aproveitem que quase todo lançamento grande tá saindo também em alguma plataforma de streaming. O ponto é: vejam da forma que for. 

Um longa sobre aprender a ser herói. Ou morrer tentando.

Por fim, ainda me mantendo no audio-visual, mas agora falando de um tema do qual eu discorro bem pouco aqui no blog: animes.


Eu confesso que nem sequer sabia que Megalobox tinha uma segunda temporada.

Vi, acho que mês passado, a primeira série. Adorei, um dos meus animes favoritos da vida. 

Aí, vi alguém comentando sobre a segunda série no twitter e fui atrás. 

Tem a série inteira no Funimation. 

Pois bem: estou no episódio 4 de "Megalobox 2: Nomad" e, boy, oh boy. Já gosto mais do que da série original. 

A primeira temporada mostra a história de Joe em um mundo num futuro indeterminado. Próximo o suficiente para tudo ser reconhecível, mas distante o suficiente para mesmo o familiar soar estranho. 

Nesse mundo, as diferenças de classe social parecem ainda mais distintas. Os ricos são MUITO ricos e os pobres.... bom, vocês podem imaginar. Neste mundo, um dos esportes mais populares é o Megalobox, onde boxeadores lutam usando exo-esqueletos tecnológicos que aumentam sua força e velocidade. Prestes a acontecer o principal torneio do ano, Joe e Nambu, seu treinador, decidem adotar uma abordagem peculiar para tentar se destacar e subir no ranking de competidores: lutar sem a tal armadura. Por isso, ele fica conhecido entre os fãs como "Gearless Joe". 

O primeiro ano da série já é particularmente eficiente em estabelecer o mundo no qual ela se passa e em enfatizar a questão da guerra de classes. Não por coincidência: Megalobox é de 2018, ano em que se comemorou o 50º aniversário do clássico mangá Ashita no Joe (de Asao Takamori e Tetsuya Chiba). pra quem nunca leu, Ashita no Joe foi um mangá de boxe publicado em 68. Em seus 20 volumes, a série falava também de pobreza, de classes sociais e do esporte como meio de ascensão social.

Dizer que Ashita no Joe foi importante é eufemismo: a série teve tal impacto na faixa mais jovem da sociedade japonesa da época que suas mensagens e a imagem de seu protagonista, foram adotadas por vários grupos de esquerda em manifestações que pediam por mudanças sociais no país. 

Até hoje um mangá celebrado por sua importância, pelos temas que tratava e, não nos esqueçamos, por ser um excelente gibi de ação. Megalobox surge também como uma celebração de Ashita no Joe e de seus temas.

"então, megalobox é uma versão cyberpunk de Ashita no Joe?"

Não. E sim. E não. Ele usa temas semelhantes mas apenas como base, para falar do mundo de hoje, do mundo de AGORA.

Pode parecer estranho falar de pobreza e Japão, mas lembremos que no ano que "Ashita.." surgiu, o país ainda estava se recuperando do baque da segunda guerra. O suporte financeiro dos americanos já era uma das fontes de recuperação da nação asiática, mas o país ainda sangrava. Foi, pra mim, um choque, ao ler Ashita no Joe pela primeira vez, ver uma favela em pleno solo japonês. 

Então, Megalobox pega esses elementos e os usa para falar do mundo de hoje e a segunda temporada pisa ainda mais fundo nessas questões. A season 2 começa com um salto de 5 anos desde o ultimo episódio da temporada anterior. Neste tempo, algo profundamente traumático aconteceu e causou o afastamento de Joe das lutas de boxe. Encontramos o protagonista perdido, cruzando o país de moto, profundamente quebrado, viciado em analgésicos e distante de todos os demais personagens com os quais estávamos familiarizados. O protagonista acaba, depois de ter sua moto roubada, em um assentamento "ilegal" de uma comunidade de imigrantes.

E pelo simples fato de estarmos em 2021, vocês provavelmente já podem imaginar pra onde essa história vai. 

A série não segura as porradas. Xenofobia, preconceito de classe E contra imigrantes, são discutidos de forma clara. A fantasia de ir para um país que parece acolhedor, em busca de um futuro melhor, em contraste com a realidade de um povo que escolhe imigrantes como bodes expiatórios de toda e qualquer crise social. 

Esta comunidade não é descrita como de nenhum lugar em especial, mas o fato do tom da pele deles ser mais escuro, além da língua latina e dos costumes que remetem ao México, tornam tudo ainda mais familiar para qualquer um vivendo os tensos dias atuais. 

Esse é um ponto em que eu bato sempre: fazer arte política SEM soar proselitista é algo MUITO difícil. Um pouco de sutileza de MENOS e você termina com algo parecido com aqueles conselhos que rolavam no final dos episódios do He-Man. 

Megalobox no entanto, sabe tratar desses temas com equilíbrio. Ainda é uma história de ação, mas uma que discute um estado de direita alimentado por interesses burgueses e que escolhe imigrantes como alvos. Sem excesso de didatismo e sem deixar de ser um anime de esportes. 

Não é um reboot de Ashita no Joe. Está mais para uma reencarnação. Algo que pega as bases do original e atualiza para os problemas do planeta Terra do século XXI. O primeiro arco parece se encerrar no episódio 4. No ponto em que estou, Joe, já em processo de recuperação, decide voltar para confrontar o passado traumático do qual tentou fugir. 

Preciso dizer: em alguns momentos da série, lembrei de "Ted Lasso", série que começamos, Stella e eu, recentemente e que me peguei surpreendentemente adorando. Em um determinado momento, Ted comenta sobre como a idéia difundida na comunidade local onde ele acabou de chegar de que "é a esperança que mata" pode ser uma falácia. Segundo os locais, fã de um time de futebol da cidade que está em vias do rebaixamento na divisão que disputa, é melhor abraçar o niilismo pq, afinal, pelo menos você não se pega decepcionado quando as coisas não saírem como o planejado. 

Ted no entanto, defende que é a FALTA de esperança que mata. De fato, niilismo tem um elemento confortável. "Se nada pode ser mudado, para que tentar?". Ted defende a esperança, em um universo frio e que não dá a mínima para nenhum de nós, como um ato de rebeldia. E essa é uma crença que, confesso, eu sempre carreguei comigo. 

Se deus é um master of puppets sádico se divertindo com meu sofrimento, o mínimo que eu posso fazer é tentar achar alguma felicidade APESAR dele. 

Escapar do niilismo e do desespero é um processo, não um evento. No ponto em que estou de "Megalobox 2: Nomad", Joe começou a longa jornada de volta em direção a...algo. Disposto a resgatar a vitória - ALGUMA vitória - das soberanas e incessantes garras da derrota. 

Não sei ainda COMO ele vai fazê-lo, mas acho que vai ser fascinante estar ao lado dele durante sua odisséia. 


É isso crianças. Longa coluna essa semana. Vou tentar fazer algo mais curto semana que vem. Ou não.

Falo mais de Megalobox quando terminar o anime. E prometo posts também sobre Ashita no Joe e Ted Lasso. QUANDO, eu ainda não sei, mas eles virão. 

Ah, e fiquem espertos aqui no blog que logo, logo, devo subir Monster Mash nova. Musiquinha legal com a SEMPRE EXCELENTE™ curadoria do tio Hak, pra vocês. 

Respect!!!!

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Heels: sobre heróis e vilões.

 Não, sério, vcs tão vendo Heels?


Pq - e PRINCIPALMENTE se vocês forem fãs de pro-wrestling - vcs deveriam.

Heels é o novo show do canal Starz, criado por Michael Waldron (que já passou por Rick and Morty, Loki e é um dos co-roteiristas do próximo filme do Dr. Estranho) e que estreou há algumas semanas. 

Comecemos pelo começo: eu não tenho como enfatizar o quão complicado é fazer uma história sobre luta livre. Parece simples, não? Mas pensem comigo: qual a abordagem a ser adotada? Kayfabe full ou free? Vc vai tratar as lutas como algo real, e daí vai vir o drama da história, tal como ocorre em mangás ou histórias sobre esportes? Onde, no caso, o conflito vem de se o esportista ou time vão ou não ganhar a partida ou se destacar no esporte que pratica?

Ou não, vai tratar o wrestling de uma perspectiva mais realista, onde as lutas são o que são - scriptadas? sim. Com final pré-determinado? Sim. Fakes? VAI PRA CASA DO CA***** - e o drama vai vir de outros tipos de conflitos?

Essa segunda abordagem, obviamente, perde em ação mas ganha em drama. E foi essa a escolha que Heels fez. E que bom, veja bem. 

A primeira abordagem tem seus méritos. Tipo, o anime do Tiger Mask W, por exemplo. Ou os filmes do Santo. 

Mas o show protagonizado por Stephen Amell e Alexander Ludwig prefere adotar um olhar mais sério para esta forma de arte tão subestimada que é o wrestling profissional. 

Na trama, passada em uma cidadezinha minúscula no interiorzão americano, Jack e Ace Spade tentam manter viva a promotion de luta livre local, a Duffy Wrestling League ou DWL, uma herança do falecido pai dos dois. Apesar da companhia ser um dos orgulhos locais da pequena comunidade que ali reside, ela tenta sobreviver aos trancos e barrancos, tendo que concorrer tanto com outras pequenas promotions regionais quanto com os peixes grandes (a principal delas sendo a FWD - Florida Wrestling Dystopia - uma promotion de deathmatches em ascensão). 

É obviamente uma série sobre luta livre mas também é uma série sobre como é ser um artista relativamente pequeno tendo que disputar atenção com outros, incluindo aqueles que tem todo um aparato de uma grande companhia por trás deles. A série não segura os socos: vemos a situação de Jack e Ace tendo que dividir esforços nos ringues e em trabalhos menos glamourosos durante o dia, como, aliás, ocorre com quase todo mundo no vestiário da DWL. Ao mesmo tempo, vemos os conflitos da vida "civil", em choque com a persona maior que a vida destes performers. 

E além disto, cereja no topo do bolo, a série não hesita em abordar tópicos sobre raça e gênero que são complicados mesmo nas maiores promotions no mercado atualmente, incluindo obviamente a maior delas, a WWE. Crystal (Kelli Berglund), o par "romântico" de Ace e valet (aquela moça que acompanha o lutador pro ringue que era tão comum nos anos 80 e 90) demonstra desde o ep. de estréia interesse e talento em talvez, conseguir uma carreira no ringue. Enquanto isso, Rooster Robbins (Allen Maldonado), tem talento, carisma e é um grande lutador, mas nunca teve a posição de campeão de uma promotion por ser um homem negro.


A série é OBRIGATÓRIA pra qualquer fã dessa forma de arte. Mas se vc não curte pro-wrestling, recomendo da mesma forma. Ela é bem introdutória, usando personagens que não conhecem as "regras" desse universo em conversa com outros já "iniciados" para expor seus conceitos pro público em geral. Então, além de um excelente drama, ela também é uma ótima porta de entrada para quem já teve interesse em ver algo relacionado mas nunca soube como começar (inclusive, espertamente, todos os episódios tem como títulos conceitos dessa arte: kayfabe, swerve, cheap heat, cutting promos, etc.)


A atmosfera da série é excelente. A fotografia é maravilhosa, transmitindo a aridez daquela região, em contraste com as cores quentes e a energia do local onde rolam as lutas. O elenco me surpreendeu, admito. Confesso já ter tido certa má vontade com Stephen Amell. Má vontade esta originada do meu ódio por qualquer coisa relacionada ao Arrowverse. No entanto, admito que a aparição do ator no evento de estréia da All Elite Wrestling e sua excelente luta contra Christopher Daniels no pré show do evento começou a me fazer repensar esse preconceito. Corta pra 2021 e eis me aqui, obrigado a admitir: Amell é um excelente protagonista e aqui, ele está cercado de atores igualmente competentes. Destaque para as participações especiais: até aqui, já tivemos CM Punk atuando como um wrestler de deathmatches, na linha de Cactus Jack e do roster da GCW. 

O roteiro, que é onde mora a mágica desse show, lida com os temas já mencionados além de outros como depressão, a idéia de masculinidade no mundo atual, principalmente em um esporte como a luta livre. E claro, a dinâmica de heróis e vilões. Ou, como esses termos são usados no wrestling, Faces e Heels.

E também é sobre arte. Sobre peixes pequenos em lagos enormes com predadores rondando, o tempo todo. Sobre viver de arte e as durezas envolvidas para quem lida com isso. 

Aproveitem pra fazer binge agora, já que a série ainda está no começo (essa semana foi exibido o episódio 3). 

Eu tenho um profundo amor por essas promotions pequenas, "de quintal" como os americanos chamam, e ver uma delas representada com o devido carinho e respeito tem sido uma experiência bem interessante. Pra quem já curte o esporte ou quer passar a curtir e quer ver "como as salsichas são feitas", fica a recomendação. 

terça-feira, 13 de julho de 2021

"A vida depois da morte": a jornada final do Undertaker.



Cabei, agorinha mesmo, de fazer binge dos 5 episódios de "the Last Ride", documentário sobre a vida e carreira daquele que é, provavelmente, o maior "personagem" da história da pro-wrestling. E eu sei que hipérboles deste tipo são sempre algo perigoso, mas se você for pensar na história dessa indústria, que nos deu e continua dando continuamente performers maiores que a vida, todos empalidecem diante do Undertaker. Eu sei, The Rock é um dos rostos mais conhecidos do planeta. John Cena vai pelo mesmo caminho. Antes deles, Hulk Hogan tinha HQ, desenho e "certa carreira" cinematográfica (não entro em juízo de valor aqui). Mesmo assim, considerando a fama do pro-wrestling no mundo - e se existem momentos em que luta livre me soa como algo mega de nicho, em outros é assustador o quanto essa forma de contar histórias, misto de teatro e esporte, parece tocar todo tipo de pessoa, em maior ou menor nível - é indiscutível dizer que, se não conhecem o lore do Taker, as pessoas já viram a figura do homem de preto de expressão soturna e, ocasionalmente, olhos vazados o suficiente para que a mera menção faça certas partes da memória delas se ativar.

E isso não é pouco, de forma nenhuma. 

O doc. cobre desde 2017 até a boneyard match que ocorreu no Wrestlemania, ano passado, incluindo também cenas de arquivo e backstage. O projeto é maravilhoso, mostrando o homem, Mark Calaway, com o mesmo carinho que destina para o undead man. É uma celebração da história de uma vida, mais de 3 décadas dedicadas ao wrestling. E também a eulogia para um personagem que encontrou seu momento de, citando palavras do protagonista da série, "cavalgar em direção ao por do sol". 

Curiosamente, lembrei por diversas vezes durante os episódios, de uma entrevista com outro artista que dedicou quase toda sua existência ao personagem que o consagrou e à forma de arte que amava tanto, o palhaço Carequinha. Eu não saberia nem como começar a descrever aqui, para quem não conhece, a história de vida dele. Vou me restringir a dizer que era alguém que respirava a vida circense em um nível que transcendia seu público mais próximo, atingindo todo mundo. Eu nunca vi o carequinha no seu ambiente natural, o circo. Eu vi algumas entrevistas e participações na TV. E mesmo assim, quando você ouvia o homem falar, você conseguia absorver a gravitas e a profunda dedicação que ele tinha pela sua arte. E eu lembrei do Carequinha durante o binge watching do documentário do Taker por causa de uma declaração que ele deu e da qual eu jamais me esqueci. Com a serenidade típica de um buda, ele dizia que seu objetivo de vida, isso em um momento em que ele era entrevistado já em idade avançada e sem planos de se aposentar, era continuar entretendo as pessoas e, se possível, realizar o seu sonho de morrer na arena do circo, durante uma apresentação.

Infelizmente ele não conseguiu realizar seu sonho, morrendo em casa, em 2015. Mas eu sempre gosto de pensar que apesar disso, ele conseguiu viver da arte que ele amava até o fim dos seus dias. 

Pode parecer uma conexão estranha, um pro-wrestler americano e um palhaço brasileiro, mas quando você se lembra do elemento do kayfabe na luta livre, as semelhanças ficam mais claras. Como toda mídia, o pro-wrestling também tem suas singularidades que o separa da literatura, do cinema e de outras formas de contar histórias. Um desses elementos identificadores é exatamente o kayfabe. Tirando a semelhança física, você não espera encontrar elementos em comum entre Keanu Reeves e Neo. Ninguém espera que Tyler Durden e Brad Pitt acreditem nas mesmas coisas. Mas na luta livre, em maior ou menor tom dependendo da época em que você vive, esses limites ficam mais turvos. A WWF/WWE dava, além do salário, uma quantia de dinheiro extra para Ted Dibiase, cujo personagem nos ringues era o Million dollar man, um mega milionário, gastar pagando jantares e bebidas para estranhos, como forma de manter o personagem mesmo em seus momentos particulares. Muita gente foi aprender apenas anos depois que Undertaker e Kane não são, de fato irmãos. 

"Still real to me". Pode parecer algo menor, mas eu sempre gosto de lembrar uma frase do Pablo Villaça, no seu comentário sobre "The Wrestler", onde ele dizia que o nível de dedicação dos lutadores é algo invejável e incomparável na maioria das artes e que mesmo um ator como Laurence Olivier, que respirava a arte que o consagrou, não precisava LITERALMENTE se auto-mutilar com uma gilete para aumentar o impacto dramático. Novamente, kayfabe.

Retornando para o doc., é assustador ver a profunda entrega de Calaway para o personagem. Quem consome luta livre sabe que, ainda que isso tenha se diluído um pouco através dos tempos, o kayfabe ainda é uma força para a comunidade de fãs. Aquela linha separando realidade e ficção, o que é verdade e o que não é. O que eu quero saber e o que eu vou conscientemente ignorar para permitir que a magia continue rolando na minha frente. Realidade líquida, me apropriando mal e porcamente do conceito do Bauman.

Se vestindo de preto pq eram as cores do personagem, monossilábico, extremamente econômico quando o assunto era a vida pessoal. Mesmo em uma indústria marcada por pessoas que viveram vidas inteiras sob o véu do kayfabe, o Undertaker ainda é um caso extremamente notável. O que explica, junto com, obviamente, as habilidades in-ring e o carisma insano, a longevidade do personagem. 

Excelente documentário, mais um de uma safra de documentários maravilhosos que vi recentemente. Outros casos são "O.J.: made in america", "The Last Shot" e "the King". Respectivamente, sobre O.J. Simpson, a carreira de Michael Jordan e dos Chicago Bulls dos anos 90 e, finalmente, sobre os paralelos entre a vida de Elvis Presley e o aspecto mercurial da história recente dos EUA. 

Podem parecer exemplos díspares com apenas alguns elementos conectivos entre eles, mas um olhar mais aprofundado consegue traçar paralelos entre eles e o já mencionado palhaço Carequinha. São todas histórias reais, sobre pessoas que orbitavam em um 'uncanny valley" que borrava as linhas entre ficção e realidade, personagem e pessoa real, de carne e osso. Todas histórias reais, mas com elementos de tal epicidade que são, por si só, narrações quase fantásticas. E sobre pessoas que, com diferentes níveis de sucesso, tentavam controlar a narrativa a ponto de poderem escrever um capítulo final tão digno quanto o restante da jornada. No caso do supra-citado palhaço e do lutador que protagoniza "the Last Ride" e que motivou a existência desse texto, com direito a final feliz. O que vem depois do capítulo final de suas personas famosas, não é mais da nossa conta. 

A história e as histórias seguem. The show must go on. Rei morto, rei posto. O finado Curtis Hanson, no documentário sobre a trilha sonora de seu filme, 'Wonder boys" menciona que nós fomos sortudos demais por conseguir viver em um mundo que tinha as músicas de Bob Dylan nele. Da mesma forma, que bom que pudemos ter o Undertaker por 3 décadas em nossa vida. Que seu intérprete possa aproveitar o pós-carreira tranquilo com a família agora em sua aposentadoria. 


....e não, eu não vou fugir do clichê. Vocês depositam fé demais em mim...


...aham... e que sua criação lendária possa finalmente rumar de volta para as sombras e....you know...


sábado, 29 de agosto de 2020

05

 


"I play my part on life's stage. I tell what I can to form the perfect answer. 
But that answer cannot come before all are ready to hear, so I tell what I can to form the perfect answer. 
Sometimes my anger at the fire is evident. 
Sometimes it is not anger, really – it may appear as such, but could it be a clue? 
The fire I speak of is not a kind fire."

#FireWalkWithMe

E agora, estamos prontos para continuar de onde paramos...

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

04

 



"Even the ones who laugh are sometimes caught without an answer. 
These creatures who introduce themselves, but we swear we have met them somewhere before, yes? Look in the mirror. 
What do you see? Is it a dream, or a nightmare? 
Are we being introduced against our will? 
Are they mirrors? 
I can see the smoke. 
I can smell the fire. The battle is drawing nigh."

#FireWalkWithMe

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

03

 


"There is a sadness in this world, for we are ignorant of many things. 
Yes – we are ignorant of many beautiful things. Things like the truth. 
So sadness in our ignorance is very real. 
The tears are real. What is this thing called a tear? There are even tiny ducts – tear ducts – to produce these tears should the sadness occur. 
Then the day when the sadness comes. 
Then we ask, 'Will the sadness which makes me cry, will the sadness that makes me cry my heart out, will it ever end?' 
The answer, of course, is yes. 

One day, the sadness will end."

#FireWalkWithMe

terça-feira, 18 de agosto de 2020

02


"Sometimes ideas, like men, jump up and say, 'Hello!'
They introduce themselves, these ideas, with words – are they words? 
These ideas speak so strangely. 
All that we see in this world is based on someone's ideas. 
Some ideas are destructive, some are constructive. 
Some ideas can arrive in the form of a dream. 
I can say it again: Some ideas arrive in the form of a dream."

#FireWalkWithMe

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

00


"Welcome to Twin Peaks. My name is Margaret Lanterman. I live in Twin Peaks. I am known as the Log Lady.
There is a story behind that. There are many stories in Twin Peaks. 
Some of them are sad, some funny. 
Some of them are stories of madness, of violence. Some are ordinary. 
Yet they all have about them a sense of mystery – the mystery of life. Sometimes, the mystery of death. The mystery of the woods. The woods surrounding Twin Peaks. 
To introduce this story, let me just say it encompasses the all – it is beyond the "fire", though few would know that meaning. 
It is a story of many, but begins with one – and I knew her. 
The one leading to the many is Laura Palmer. 
Laura is the one."

#firewalkwithme

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Go West, monkey king

Eu caçando essa joça feito um filho da puta em tudo que é site de torrent e esquina bucaneira internet afora e descubro que tem a série, na íntegra (53 episódios) no canal oficial da China Huace....
Bom, não vou reclamar (mais do que já fiz): se quiserem ir ver a série chinesa contando as histórias de Su Wukong, o macaco rei, e sua entourage rumo ao oeste, é só dar play no vídeo abaixo (tem que ativar as legendas em inglês) e irem lá na página da série no youtube atrás do resto.....

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

"Risco é parte do jogo": "Gunning for hits" e "Ballers" S01

“If you are playing the game without wounds, you are not playing the game, you are watching the game. If you are playing the game with wounds, you are not playing the game, you are mastering the game”

Yo...eu tenho tanto amor quanto qualquer pessoa dotada de algum bom senso por frases motivacionais. Ou seja, muito pouco. But again yo: Se vcs lerem a frase acima com o devido cuidado, vão perceber que o autor fala de JOGAR o jogo e se aperfeiçoar. Mas nada garante que vc vá GANHAR o jogo apenas pq vc joga bem. 
Also: manjam aquela frase sobre salsichas e política? Eu botaria arte nesse bolo também. E é sobre isso que as duas paradas maneiras que eu vi e li recentemente giram em torno. Livros, jogos, gibis, séries, essas paradas que falam sobre coisas geralmente focam nos heavy gamers. Obras sobre artistas focam, obviamente, nos artistas, nos músicos, nos pintores, nos escritores. Obras sobre esportistas? Nos jogadores e, quando muito, nos técnicos.
Mas quem conhece um pouquinho as paradas, sabe que esses "jogos" tem dois lados. O legal, que recebe os holofotes e os bastidores, o lado atrás das cortinas. E é disso que ambas as obras das quais falo nesse post vão se focar. Onde as fucking salsichas são feitas.


Tomemos "Gunning for hits", por exemplo e a indústria da música. Temos o artista, compositor e o resto de sua banda. Uma vez que eles conseguem um contrato - escrito por um advogado - eles estão financeiramente ligados à uma gravadora. Gravadora essa que tem um diretor e vários setores, de marketing até a parte de produção musical em si, passando pelo já citado setor legal, a parte de logística dos shows, etc., etc., etc. A história começa em 1987 onde, até o pescoço nessa cadeia produtiva, Martin Mills é um caçador de talentos, o cara que fazia o meio de campo entre os artistas e a gravadora. No começo da trama, ele está tentando fechar um contrato com a banda Stunted Growth, liderada por Billy e, alguns diriam, Diane, sua namorada e manager. Paralelo a isso, o lendário Brian Slade, estrela dos anos 70, mas que parece ter atingido certa falência criativa, está em busca de um novo contrato com alguma major. Quando todos esses personagens se juntam, o resultado é caos, puro e simples.
Also, Mills pode ter certas sombras no passado que vão ter que ser resgatadas no meio desse clusterfuck. Fim do resuminho, podemos ir pra parte que interessa: Que gibi foda. QUE GIBI FODA.
Dois motivos simples: roteiro e arte. :-)
Obviedades à parte: O texto da minissérie é de Jeff Rougvie e aqui eu faço uma pausa. O cara pode ser um quadrinista sem muitos títulos no catálogo, mas seu expertise no assunto desse gibi, música e os meandros da indústria musical, vem dos anos e anos dedicados à ela. Entre os diversos papéis que exerceu nessa área - incluindo produção e talent manager, tal qual o protagonista da hq -, ele tem uma passagem pela Rykodisc's onde atuou na obtenção de direitos de material clássico para posterior remasterização pro lançamento em cds. Nisso, ele lidou com o acervo de bandas como Meat Puppets, Devo, Dead Can Dance, Elvis Costello, Bootsy Collins, Mission of Burma, os cds de comédia de Bill Hicks e...... 16 dos discos clássicos de não outro senão DEUS em pessoa. O que me leva, obviamente a aquilo que me fez prestar atenção nesse gibi, num primeiro momento, antes de saber de tudo isso sobre arte, texto e os cacetes...


Familiar? Pois é. Brian Slade é DEUS em pessoa. E isso nem é disfarçado, não apenas pq Moritat, o artista responsável pelos desenhos de Gunning for Hits concebeu o personagem com as feições de vcs-sabem-quem, mas pq o nome, Brian Slade foi inspirado do clássico Velvet Goldmine, filme de 1998 de Todd Haynes que narra as aventuras de um jornalista musical na caça de um artista  britânico desaparecido a anos que tem esse nome.
Foto do rapaz


Familiar? Esse filme tb tem o Ewan Mcgregor atuando como Iggy Pop Curt Wilde, parceiro de Slade e que.....como direi..... fazia um monte de coisa com o cara. Incluindo arte. 
So.... anyways, falei do roteiro, voltemos ao traço de Moritat: a arte do cara é tão bonita mas, além disso, TÃO refrescante. Tipo, uma versão mais fanzinão punk do traço Tex Avery de Kyle Baker, as expressões oscilam entre o minimalista e, quando a trama pede, o larger than life. E os rostos são tão distintos uns dos outros, um treco tão raro em gibis serializados. 
Considerando seu passado, não é surpresa nenhuma que Rougvie desfila toneladas de detalhes sobre as engrenagens da indústria fonográfica americana e como as grandes majors funcionam e, de novo, tudo é novo e único e tem aquela capa ultra-pop que vc em obras tipo Wicked + Divine e Sandman, sabe? Esse é um gibi que eu consigo fácil ver fugindo do gueto do fã de quadrinhos e atingindo aquele pessoal cool que vai pra balada na Augusta e lê Vertigo de tempos em tempos. O roteiro abraça os "horrores" da indústria num nível literal, equilibrando a trama sobre música com os elementos sórdidos do passado de Mills. A conclusão é incrível, onde os dois elementos que constroem essa história (crônica sobre a indústria musical + thriller) colidem de forma perfeitamente harmoniosa. Fiquei animadaço com o anúncio do final da sexta e ultima edição, prometendo uma nova série nesse mesmo universo, mas mudando o gênero. As guitarras e baterias dão lugar aos mics, deejays, ritmo e poesia e mano, considerando que eu tenho, talvez, ouvido mais rap do que rock ultimamente, já fico no aguardo ansioso pela sequência. 



"'Cause the players gonna play, play, play, play, play
And the haters gonna hate, hate, hate, hate, hate"
Taylor Swift, "Shake it off"

Ainda sobre os bastidores de uma indústria de entretenimento gigante, saímos da música e vamos para o esporte: Devorei essa semana os 10 episódios da primeira temporada de "Ballers", série da HBO protagonizada por Rock "The Dwayne" Johnson e Rob Corddry como gerentes financeiros de grandes atletas do futebol americano. The Rock aqui é Spencer Strasmore, ex jogador de futebol profissional que se aposenta depois de um acidente durante um jogo que acabou com a carreira de um dos membros do time adversário e passa a ser financial manager de atletas dessa indústria, junto com seu parceiro, Joe Krutel, ambos funcionários da Anderson Financial, comandada pelo linha dura Brett Anderson. O programa vai mostrar o dia a dia de ambos lidando com as criaturas instáveis que são os atletas em ascensão do esporte número um dos EUA, entre eles Ricky Jarret e Vernon Littlefield.


Além deles temos também personagens como Charles Greane, ex jogador de sucesso que se aposentou mas pode estar planejando um retorno aos campos e Reggie, amigo pessoal de Vernon e rêmora que orbita ao redor dele o responsável pelas finanças do colega até a chegada de Spencer. Molecada jovem com fama e uma tonelada de dinheiro, obviamente acabam fazendo muita merda e os episódios mostram Spencer e Joe pulando de crise em crise. O tom é de comédia com pitadas de drama. O drama é realmente tocante e a comédia....sério, ri alto várias vezes durante a temporada. 
A série me lembra uma versão de luxo (ou seja, uma versão HBO) de shows como "House of Lies" ou "Black Monday", mas melhor (apesar de, ao contrário das duas acima citadas, ter a falha de não trazer Don Cheadle no elenco). Ainda é uma série claramente voltada pro público masculino, trazendo os vícios típicos de um produto desse tipo (carrões, muita balada maior que a vida, um monte de mina nua ou de traje curto) mas com uma boa cota de subversões desses clichês (as mulheres da série transcendem os clichês de serem apenas interesses sexuais ou antagonistas, como ocorre em alguns casos de programas do tipo). 


Ainda tem muito daquilo de fantasia masculina de riqueza e poder, mas tem alguns elementos dramáticos em que assuntos como saúde mental e toxicidade masculina são trazidas pros holofotes, quase como um mea culpa do programa, usando tais tropes enquanto os desconstrói de leve.
Gostei bastante, apesar de achar que o final da temporada termina um pouco feliz demais. 
Vou continuar vendo com certeza e falo mais conforme for avançando.
E caso alguém esteja se perguntando: sim, The Rock consegue convencer que aquela montanha de músculos é, de fato, alguém trabalhando de terno e gravata numa empresa do ramo financeiro. 
E isso não é pouca coisa. :-)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Doom Patrol s01e15: "Ezekiel Patrol" - "When the shit goes down ya better be ready"


So....this is it.... the end.
O fucking final.
Curioso pensar que agora, enquanto escrevo esse texto encerrando a série de recaps cobrindo o show, eu não consigo me lembrar qual foi o gatilho que desencadeou meu interesse inicial no programa. 
Eu lembro de ler comentários, aqui e ali, lembro de ter asco da idéia de assistir Doom patrol por causa da associação com a série dos Titans, uma das piores coisas que resultaram desse casamento entre tv e quadrinhos (e vejam bem, eu vi aquele desastre que foi a season 2 de Demolidor). Eu lembro de ver as pessoas erradas elogiando o show (o tipo de gente que ainda vê Arrow e  que curtiu Defensores e que vai bater palma pra qualquer coisa com o selo "nerds" pq esse é o parâmetro que elas usam pra se definirem como indivíduos). Mas aí, eu tenho vaga lembrança das pessoas certas elogiando o show. E começaram boatos sobre Flex Mentallo e Danny, the Street. E as pessoas certas começaram a falar mal do show (as mesmas descritas 4 linhas acima). E aí alguém mandou uma comparação com Legion. E quando eu vi, eu estava fisgado. 
O piloto foi bem decente. "Vamos ver qual é que é".
Quinze episódios depois, eis-me aqui, dotado daquela perspectiva que o tempo nos dá, capaz agora de olhar pra temporada de estréia da série à uma dimensão de distância, tal qual o próprio Mr. Nobody faz. E minha opinião dessa história, agora dotado da ciência de pra onde os roteiristas queriam ir e tals?
Eu gostei............ em partes. 
Partes do final funcionaram perfeitamente em mim. Uma parte dele, uma particularmente grande, devo dizer, não muito. Primeiramente, lidemos com o fallout do ep. anterior: como tencionava o Mr. Nobody, o time foi completamente destruído. Larry e Rita terminam morando juntos, num arremedo de vida "normal". Cliff segue aos trancos e barrancos. Jane procura alívio em drogas, completamente entorpecida em seu safe space. Ciborgue continua  no bom combate, mas em uma escala menor, menos "JLA" do que a que ele pretendia no começo da série. E é isso. Até que a força das circunstâncias - e um karaoke particularmente tosco de Eugene - reúnem aquelas pessoas em uma ultima missão de resgate para Niles, o patriarca proscrito daquele grupo. And way we go...



Okay, agora que estamos aqui, um pequeno desvio na rota: afinal, sobre o que diabos é essa série? O que ela quis passar? Qual a mensagem dela? E como esse final funciona dentro desse macro-tema que, supostamente, percorreu cada um de seus quinze capítulos?
Acho que o momento que posso usar como melhor referencia pra começar a responder essa pergunta ocorre bem no comecinho de "Ezekiel Patrol" quando Morden, vitorioso e com sua obra prima completa, indaga um destroçado Niles: "Como é se sentir um ninguém?"
De certa forma, eu consigo encapsular a série inteira nessa pergunta. Doom Patrol sempre foi sobre little people, gente quebrada, reagindo aos mandos e desmandos de gente poderosa. Os nazistas de Fuchstopia, os religiosos da ordem do livro não escrito, o Bureau of Normalcy. Faces diferentes representando a mesma coisa: braços da ordem estabelecida como a conhecemos (exército, religião, estado) impondo sua vontade sobre o "povinho". A Doom Patrol nada mais era do que esse mesmo povinho, ciente do próprio poder, decididos a derrubar esse "sistema" (a escolha de palavras aqui não foi aleatória) em prol de algo melhor pq, afinal, TEM que haver algo melhor.



A Patrulha original e o episódio passado no underground da Jane nada mais são do que o time lidando com as consequências da ação dessas mesmas forças do poder estabelecido em gente como eles próprios. Os restos mortais da ação do establishment, voltando pra morder o pé de seus algozes. O que nos traz ao suposto nêmesis do show, o big black hat, o grande vilão. Mr. Nobody. Mas lembremos que no mundo dos quadrinhos, normalmente o arqui-inimigo do super herói é um reflexo distorcido dele mesmo. De um lado temos Superman, do outro Luthor, ambos funcionando como visões do potencial da humanidade, bom e ruim. De um lado temos o Homem Aranha, do outro temos Norman Osborn, ambos cientistas com uma mente prodigiosa, diferentes apenas em virtude do que decidem fazer com suas habilidades.
De um lado Xavier, do outro Magneto. Batman e Coringa. David Dunn e Mr. Glass. Neo e Agente Smith. E por aí vai. Morden, é, ele ´próprio, também um "little people", uma pessoa que nem a gente, na base da pirâmide social, um boneco de marionete nas mãos de quem detêm o real poder. E como nos quadrinhos, seu masterplan não envolve dominar o mundo, mas tal qual o trickster que é, revelar a verdade diante dos olhos que fogem dela, doa a quem doer. E essa verdade é que o inimigo do grupo estava mais perto dele do que eles imaginavam. Vem a revelação final e todos esses vilões são reunidos na forma de uma figura simbólica, um fantasma na vida daquelas criaturas: a figura do pai abusivo. Pq afinal, o que é o estado fascista além de um gigantesco pai que acredita que sabe o que é melhor pros seus filhos e vai lembra-los disso a base de muita opressão e violência? E afinal, uma parte substancial da dor dos 5 membros do time vem, em parte, do fato de serem maus pais (Cliff, Larry e Rita, que na posição de mentora, foi uma mãe ruim de todas as meninas que "aproximou" do produtor abusivo com o qual trabalhou. E não coincidentemente, o principal trauma que ela vivenciou, consequência direto disso, é relacionado com uma gravidez indesejada) ou de serem filhos de maus pais (Jane, caso mais claro. Silas não foi um mau pai, mas um que tomou algumas decisões particularmente infelizes e que resultaram em um abismo emocional entre ele e Victor).  Os dois piores monstros da série, Niles e o pai da Jane, tem a força que tem e fazem o estrago que fazem pq simbolizam o cisma primordial (o momento em que o que nossos pais querem e o que nós, enquanto indivíduos, queremos, vão em direções opostas) e, como consequência, o ato de rebeldia primordial (quando verbalizamos essa oposição pela primeira vez). Vc, meu ímpio maldito lendo isso, teve seu primeiro momento como indivíduo autônomo e independente quando, pela primeira vez, se distanciou da obediência cega aos pais, quando vc decidiu se afastar das crenças deles. Acontece com todo mundo. Mas é doloroso. Pq os pais, sejam eles indivíduos humanos ou instituições sociais, não gostam de desobediência e eles costumam deixar bem clara sua desaprovação quando contrariados. E, spoiler alert: Eles detêm o poder. Físico e financeiro. E emocional. Nem todo pai é um fascista em potencial. Pessoas diferentes entendem os filhos de formas diferentes, mas mesmo o hippie mais partidário da "auto-gestão" vai deixar claro, ainda que de forma passiva, o desapontamento com sua prole quando esta declara crença em algo que vai contra as deles próprios. E esse é o momento em que pessoas se definem como pessoas. Por isso a cisão é tão dolorosa. E isso com pais normais. agora, imaginem o quanto isso é amplificado quando vc se vê sob controle de um pai abusivo?






Essa é a situação da Patrulha nesse episódio. O que nos traz ao ponto que eu não gostei da história. 
O final. Não os eventos que ocorrem dentro do quadro, aquilo foi pura empatia do grupo para alguém em situação de risco, precisando de ajuda. Aliás, esse é o momento mais catártico de "Ezekiel patrol", quando, contrariando o que seria de se esperar, eles decidem agir como grupo e resgatar a filha de Niles. Essa catarse vem por este ser o primeiro momento deles, como um time em que todos ali tem autonomia real sobre o próprio destino. 
Não os eventos dentro do quadro, pq aquilo foi awesome.
Mas o final mesmo, a cena que encerra o episódio. Aquele sorriso trocado entre os personagens e seu mentor. Pq todas as cisões do tipo vistas na série, foram definitivas e brutais. Jane matando os nazistas, o grupo descriando o DeCreator, a surra que o agente Jones leva e a posterior destruição do Bureau pelas...hã...angry butts.... E claro, a pior de todas, a vitória de Jane e Kay sobre seu pai abusador. Todas foram vitórias indiscutíveis e sem disfarce, momentos em que o band aid foi puxado de uma vez e sem dó. E aí termina o ep. e só faltou a piada final, estilo episódio do He-Man, com todo mundo rindo junto. Pq, não nos esqueçamos, independente das motivações de Caulder, ele foi um monstro que arruinou as vidas de DOIS times da Doom Patrol, que pretendia, caso a atual formação não desse certo, abandona-los como um projeto falho e tentar de novo e de novo e de novo, até ser bem sucedido. Não é o tipo de coisa que se perdoa com 5 minutos de conversa e meia duzia de sessões de terapia coletiva. Um dos riscos de se reverter a situação do grupo ao status original é cair na glamourização da dor com a série deixando implícito que as tragédias impostas ao time pelo seu ex-protetor são responsáveis pela paz de espírito que eles encontraram no decorrer do programa, o que seria algo desastroso. O preço disso talvez seja perder a brilhante atuação de Timothy Dalton no show, mas, hey, cortar o cordão umbilical é sempre um processo tenso. Não seguir adiante seria desrespeitoso com toda a jornada que experienciamos junto com aquelas pessoas. Se o plano for manter Niles numa potencial - e ainda incerta - season 2, vão ter que gastar o devido tempo explicando como - e SE - a relação entre tais sujeitos foi posta em ordem. Não que eu ache isso possível, mas....





Mas vou tentar ser copo meio cheio aqui: aquilo, no final,  foi só uma cena e, no máximo, o time deve continuar a manter laços com o chief por causa do futuro da jovem Dorothy. Mas de forma distante, com a relação entre eles sempre com uma falha, como um cicatriz que nunca desaparece. E apenas pq aqueles indivíduos decidiram que é o que querem pra eles. pq agora, eles se percebem (pra quem pensou que eu não enfiaria a palavrinha percepção em algum lugar do texto final sobre o show, tomem essa) como criaturas donas da própria narrativa, literal e metaforicamente falando.  As feridas estão abertas e duvido que se fechem. Mas o processo de cura começou, o que já é algo. A cena entre Jane, Dorothy e Niles dá sinais de que a retomada de laços não é impossível. O final de "Ezekiel patrol" é o doloroso e hesitante primeiro passo de um longo trabalho e de uma longa e tortuosa jornada. Mas ainda assim, um primeiro passo e, afinal, toda viagem, independente de sua natureza, duração e dos riscos envolvidos, começa com um.





- Sobre o episódio em si: tivemos Danny, the street, tivemos Ezekiel, tivemos Flex, ainda que só indiretamente e tivemos Admiral Whiskers. Não tinha como não ser épico. Sobre os dois kaijus do ep, inclusive: falei acima sobre fascismo e o simbolismo pra este que rola por toda a série e não consegui não enxergar os dois monstros como facetas desse conceito que, inclusive, não é estranha pra ninguém nos dias atuais.




Mr. Nobody usou Danny e Ezekiel o quanto pode e os empoderou, até que eles, grandes demais, voltaram pra morder a mão que os alimentou. Whiskers, um animal associado frequentemente à doença e lixo (white trash?). Ezekiel idem. Ambos abraçaram o fanatismo religioso e a opressão como formas de vingança contra "tudo isso que tá aí". Parasitas usando fé e raiva como ferramentas de se agigantarem diante do mundo, de ganhar um poder que não merecem e que jamais conseguiriam de outra forma, rancorosos pela própria insignificância. Familiar?




- A cena da Jane no seu safe space, completamente letárgica, me lembrou o encerramento de Paranoia Agent. O anime, de autoria de Satoshi Kon, é igualmente cabeçudo e cheio de simbolismos. Recomendo com força.




- Larry parece o que está em melhor situação no começo do episódio, mas roteiro e direção  encontram uma forma bem elegante de mostrar que o personagem se encontra no mesmo estado emocional que seus colegas: o local onde ele vai pra liberar o negative man, onde a casa em que ele e Rita moram fica, é quase idêntico ao safe space da Jane. Não é uma coincidência que a ação e a retomada de poder começa pros dois no momento em que eles dão as costas pra esse lugar. No more hiding. 
- Achei curioso que Mr. Nobody pode redefinir a realidade via narração pq se encontra numa dimensão acima ao dos personagens da série. Ele, por sua vez, vive no white space das hqs. Posso estar lendo demais aqui, mas vejo isso como um sarcástico lembrete de que os gibis são a fonte original dessas histórias e que por mais que o live action faça um bom trabalho de adaptação e por mais que tecnologia de cgi avance e evolua, ainda é uma experiencia secundária. A fonte original ainda são os quadrinhos, o local de real poder daqueles personagens, onde não existem restrições orçamentárias, leis da física a serem respeitadas ou contratos de ator a serem rediscutidos. Papel, tinta e mentes criativas. E o céu é o limite.
- É isso. O final não foi perfeito pra mim, mas foi, indiscutivelmente, muito bom. Pra onde vamos agora, não tem como saber. Hey, nem a season 2 do show ainda é uma certeza. Aliás, nem o futuro da porra da plataforma de streaming para a qual o seriado foi criado é uma certeza. Se houver uma season 2, voltaremos a ela. Senão, foi um bom final, redondinho e cheio de potencial, uma boa história sobre as dores de se virar adulto, de se sobreviver às porradas da vida e de se permitir mudar e adaptar. Evolve or die. A merda sempre vai vir, seja em doses homeopáticas, seja como um tsunami que periga nos engolir. Quando ela vier, como muito bem versaram os membros do Cypress Hill na canção que fecha o ep. e, por sua vez, a temporada inicial da série, o melhor é estar pronto. 


A seguir: Doom Patrol, o gibi. 
And also.... Legion. 

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