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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Maratona "Missão: Impossível" - Parte 2

Mission Impossible IV - Ghost Protocol (2011)



Okay, sigamos adiante. Depois doanterior, confesso que as expectativas foram lá pra cima e eu estava ansioso com esse. Vi o logo da Bad Robot no começo e achei que JJ iria repetir seu papel como diretor então, que agradável surpresa foi ver o nome de Brad Bird aparecer como executor dessa função. Pra quem não ligou nome a pessoa, Bird dirigiu os dois "Os Incríveis", o clássico "Gigante de Ferro" e, cereja no topo do bolo, meu desenho favorito da Pixar, Ratatouille (surpreendendo a absolutamente ninguém. Afinal, o que sou eu senão um Anton Ego wannabe?). 
Em sua missão, encontramos Ethan e sua equipe envolvidos numa operação de interceptação de um extremista nuclear conhecido apenas como "Cobalto" que, de acordo com a intel coletada pelos superiores do agente, está em vias de obter os códigos nucleares do acervo russo. Obrigados a invadir o Kremlin, os white hats vêem tudo ir pro espaço ao descobrirem que, como diria o Almirante Ackbar, it's a mothafucking trap. Sem o apoio do governo e sem todo o acervo da IMF, os agentes vão ter que se virar, sozinhos, pra salvar o mundo. 
Ainda tô digerindo M:I 4, mas já venho com algumas certezas: melhores cenas de ação da franquia até agora, ainda que eu não tenha certeza se todas foram bem utilizadas em prol da história ali sendo contada. A fuga de Hunt da prisão é intensa as hell assim como a insana sequência Homem-Aranha-style no Barj Hotel.



O mesmo pode ser dito da cena na tempestade de areia e de toda a action scene final, naquele estacionamento do inferno. Pra não dizer, no entanto, que deixei isso passar: o que me tirava um pouco da experiência era pensar que sequências insanas de ação envolviam o vilão que é..... um professor de física. I mean..... Man... okay, ele era um militar anteriormente e, afinal, o sujeito passou anos atuando com o exército russo e não existe forma disso não deixar marcas. Mas ele tava saindo na porrada com Ethan fucking Hunt. Puxou os limites um tiquinho além do aceitável.
Inclusive, falando nisso: eu não sou o chato que fica "ah, que filme mentiroso" nesse tipo de longa pq, convenhamos, suspensão de descrença é uma parada adaptável e flexível. Mas, CARALHO, como demônios o sujeito não apenas sobrevive mas sai andando de boa de um acidente como o sofrido pelo vilão quando bate, em alta velocidade, DE FRENTE, no carro pilotado pelo protagonista, tb indo à milhão? Bom, pelo menos, no final, eles usam isso da extrema eficiência dos air bags dos veículos árabes como plot point. 
Hendricks é suíço, país aliado dos ianques, mas, ainda assim, é válido apontar que esse é o primeiro momento da franquia em que o vilão NÃO é um rogue agent americano ou um nativo da terra do Tio Sam. 
Do time das aventuras anteriores, volta apenas Benji Dunn, o cara de TI, agora promovido à agente de campo. Além dele, os heróis contarão tb com a agente Jane Carter e o "analista", William Brandt.
Nem voi mais dizer que "gostaria que o time voltasse nas próximas incursões cinematográficas da franquia" pq isso nunca acontece. Bom, vale mencionar a rápida aparição de Luther ao final. 
Diria que é um tiquinho inferior que o anterior, mas bem divertido, anyway. Eu devo ter berrado umas duas vezes durante ele e em nenhum momento mais alto do que quando o gadget do nosso herói falha enquanto ele tá escalando o hotel saudita (spoiler alert: eu tenho medo de altura).



Tudo isso dito, é bem menos denso em termos de metáforas que M:I 3. Interessante ver o IMF tendo que impedir o juízo final com recursos limitados. O vilão é, tipo, o típico bad guy "vamos destruir o mundo pra que algo bom surja no lugar" que o evil man do ep. anterior - o melhor vilão da franquia até aqui - não era. O que que isso diz, né? Fazendo uma leitura extra-obra, vale lembrar que "Ghost Protocol" é de dezembro de 2011 e, 7 meses antes, o presidente Obama anunciava a eliminação de Osama Bin Laden no Pakistão pelas tropas americanas. Nesse ponto o M:I IV já, obviamente, tinha terminado as gravações e provavelmente já estava em fase de pós-produção, mas é  curioso imaginar como esse detalhe pode ter afetado o tom da obra. E, caso esse evento extrínseco não tenha, hipoteticamente, a afetado em nada, ainda assim é interessante como Bird carrega mais nos tons de preto e branco, diminuindo o lance de tons de cinza que vimos em Missão Impossível: III. Ali, um ato de tortura desencadeia uma série de eventos sinistros na vida dos personagens. Aqui, temos uma cena off câmera da agente Carter torturando alguém e...nada. Já no começo, a fuga de Ethan da prisão russa envolve a soltura de vários presos e uma cena longa de um agente penitenciário sendo espancado pelos criminosos e a história mostra isso como uma casualidade que não pede nem um segundo de reflexão. Mais auto-consciência mereceu a frase extremamente cheesy do herói quando supostamente concluiu sua missão, outro momento que me catapultou pra fora da aventura. Sério, aquele "Mission accomplished" foi ridículo nível aquela sketch sobre M:I 2 envolvendo Ben Stiller no MTV Movie Awards de 2000

Sério, vcs tem que ver isso...


"This mission ...got a hell more "impossibler'" 

Also, se o final do filme anterior já deixou um gosto ruim em mim, o twist final aqui.... man..... pra que??? Continuo achando meio covarde negar ao personagem de Tom Cruise sua cota de danos emocionais permanentes. Okay, é uma trama fantástica, larger than life, I get it. Mas ao mesmo tempo, se eles querem abraçar as trevas do mundo real, como indicava o longa da série dirigido por JJ Abrams, soa meio falso dar dois passos para trás e tentar se reconectar com o puro escapismo. 
Novamente, tem suas falhas, mas é uma aventura divertida, com cenas de ação de tirar o folego e uma cinematografia absolutamente linda, como de praxe.

Mission Impossible V - Rogue Nation (2015)



Okay, so, a Shield tem a Hydra, o MI-6 do 007 tem a Spectre e a IMF ganha seu arqui-inimigo.
Se o quinto filme da franquia abraçava esses elementos da mitologia James Bondiana de super-espionagem, nesse aqui eles incorporam esses tropes com força. Solomon Lane é um vilão bondiano em essência, só faltando o gato branco no colo.
A história abre com uma subversão da clássica cena de briefing do Ethan, já colocando as cartas na mesa e dando uma idéia do quanto, em tese, a escala vai ser levantada.
So.....ele cumpre essa promessa de forma eficiente?

Hã..... em partes. Primeiramente, tirando da frente de uma vez: novamente, o vilão não soa tão assustador quanto Owen Davian, antagonista do 3º "Missão: Impossível". Não adianta apenas botar alguém na tela falando que "ele é o pior de todos" e tals se, de fato, a trama não faz o devido trabalho em conceder a esse personagem a devida gravitas.


Não que Lane seja um personagem ruim, de maneira alguma. Ele, inclusive, segue a escola Davian de manter a calma em todos os momentos, quase nunca levantar a voz. E achei curioso a escolha de roupas do personagem, remetendo - se intencionalmente ou não, vcs que digam - a Steve Jobs?
Na trama, Ethan se vê frente a frente com uma espécie de anti-IMF, conhecida como "The Syndicate" (inclusive, se vcs se lembram, mencionada no final do anterior). Responsável por diversos crimes que somam centenas de vítimas inocentes, incluindo o assassinato de um chanceler alemão (segunda melhor sequência de ação aqui).
Todos os elementos clássicos da cinessérie estão aqui, mas confesso que esse filme não clicou tanto comigo. Não me entendam errado: ele é absolutamente lindo. As cenas em Marrocos são de encher os olhos de tão bonitas. A infiltração, subvertendo a tendência de M:I em subir em prédios progressivamente mais altos, dessa vez envolve uma instalação subterrânea e, eu confesso, eu pensei em prender a respiração por toda a sequencia, apenas pra ver se eu conseguia. Obviamente não durei nem 30 segundos.
A perseguição de carros foi algo digno do selo Dominic Toretto de qualidade. E finalmente, FINALMENTE, Missão Impossível ganha uma personagem feminina cujo talento não envolve seduzir o vilão. Ilsa.....oh, by the way, quando ela aparece num primeiro momento, eu achei que fosse a Julia, a ex-esposa do agente Hunt... precisei olhar no wikipedia pra ter certeza de que não era.
Anyways, Ilsa é extremamente independente, sempre um passo adiante do protagonista E do vilão e eu fico feliz em saber que ela volta pro próximo episódio. Até pq, do M:I prévio pra este, a ÚNICA personagem que não volta do time de aliados do herói, é a agente Carter. Não que eu esteja reclamando, vejam bem, Ilsa é uma personagem bem mais legal. Inclusive, finalmente, tb, a série tem um time fixo. Brandt, Benji e Luther voltam pra livrar a cara do líder do time, aqui e ali, quando necessário. Benji principalmente tem um puta destaque na história, com Brandt funcionando, novamente, como a balança moral nos momentos em que o personagem de Tom Cruise chega perigosamente perto de passar dos limites (ainda que, como muito bem lembra Luther, o colaborador mais antigo dele, esse é um dos talentos que faz o espião tão eficiente). 



Mencionei essa dicotomia entre as dúvidas do personagem de Jeremy Renner e o de Ving Rhimes pq dá pra fazer uma conexão entre esse elemento e o grande tema dessa narrativa: expiação. Atonement. Tanto os heróis, quanto os vilões, e considerando que é uma história de duplos e reflexos invertidos, isso não deixa de ser algo elegante por parte do roteiro, tem esse elemento de ter que lidar com pecados passados ou serem fruto de tais. A IMF é desmontada no começo do longa, por causa de todo o fallout (Foreshadow!!!!!) das missões anteriores. De fato, quando o agente Hunley diz que uma parte substancial do sucesso da Impossible Mission Force vem da sorte absurda de Ethan, ele não está errado. De fato, o filme comprova isso na cena da infiltração submarina. O personagem principal da história é, de fato, um apostador, um gambler, apostando cada vez mais alto e, como os senhores sabem, não há sorte que dure para sempre. O que, sendo chato, só reforça aquilo que eu disse de que a Julia tinha que ter morrido na terceira incursão cinematográfica de M:I. De fato, a sorte dos white hats não pode durar pra sempre e uma perda dessa magnitude conferiria certa credibilidade à trama
Mas enfim, Ethan padece disso tb, puxando os limites num nível que leva mesmo seus colegas de time a questionarem se ele só não está confiante demais. Normalmente esse tipo de dinâmica soa falsa nesse tipo de história, e vc consegue antecipar de longe que é apenas os autores tentando nos enganar, mas confesso que aqui, as dúvidas de Brandt me pareciam críveis a ponto de eu questionar se ele não iria, de fato, entregar o líder do time para evitar um desastre maior.
E, por fim, os vilões, como já ocorreu antes na franquia, são fruto de homens no poder excessivamente confiantes, achando que podem injetar certo controle dentro da estrutura criminal mundial e pagando caro por isso. Como eu disse, um conto sobre ajuste de contas de todos os lados.
Não sei se Lane reaparecerá nos próximos longas, mas vai ser um desperdício se não o fizerem, já que a série finalmente tem seu Blofeld. Faltou se concentrarem um tiquinho mais em tridimensionalizar o personagem, o que pode ser resolvido com seu retorno e mais tempo de tela.



Até pq gostaria bastante de ver retomarem esse tema da linha cinzenta separando Solomon de Ethan e o quão, por mais fundamentalmente diferentes, eles - e suas respectivas organizações - guardam semelhanças assustadoras.

Mission Impossible VI: Fallout (2018)




Confesso que estava achando que ia terminar essa maratona num tom meio negativo, tipo "é legal, mas....". Essa percepção foi reforçada depois que vi que Christopher McQuarrie iria repetir seu papel na direção como fez em "Rogue Nation".
Bom...... eu estava errado.



O terceiro ainda é meu favorito e, sejamos francos, houveram pelo menos dois momentos em que MI: 6 me perdeu (falo deles mais adiante) mas o saldo final não só é positivo como, agora com a perspectiva geral desses dois episódios, esse e o anterior como parte de uma história só, minha impressão sobre o 5º filme melhorou bastante. Fallout se passa 2 anos depois dos eventos de M:I 5 e traz a IMF tendo que lidar com uma organização surgida a partir dos restos do Syndicate, desmantelado com a prisão de Solomon Lane. Esse grupo, conhecido como "os apóstolos" está em vias de obter acesso a uma carga de plutônio roubado e cabe ao grupo detê-los. Nessa missão, Luther é feito refém e o protagonista tem que tomar uma decisão e arcar com os custos dela.
As cenas de ação vinham escalando desde o inicio cinematográfico da franquia, em 96 e aqui elas atingem a perfeição. Não dá nem pra escolher: do resgate de Lane, passando pela cena da invasão ao bar, a perseguição e aquela sequência completamente insana do helicóptero no final, tudo é feito pra deixar o publico tenso até o limite e funcionando à perfeição nesse sentido. A trama tb tem alguns shout outs interessantes para momentos prévios da série, incluindo a cena em que Ilsa tenta repetir uma estratégia utilizada com Ethan no anterior. Um aceno interessante pros fãs de longa data (ou mesmo os que conheceram M:I a partir de Rogue Nation)



Bom, o último episódio - até o momento - e o "fallout" (sorry) dos eventos dos últimos 4. Julia ganha um adeus digno, a relação da IMF com o governo americano parece ter todas as arestas devidamente aparadas, Lane termina preso mas vivo, e isso é importante. O time ganha seu rosto aparentemente definitivo, com Ilsa agora em suas fileiras (o agente Brandt não voltou pq Jeremy Renner tava ocupado com o outro projeto mais famoso dele, vcs sabem....). Tudo termina bem....e eu estou de boa com isso.
Vcs sabem que meu maior problema com a franquia, desde o final de M:I 3 é como a série blinda o personagem de Tom Cruise. Final da primeira temporada de 24 horas custou a vida da esposa de Jack Bauer e meia dúzia de traumas permanentes nele e na filha. Cinco filmes depois e nada de realmente sinistro aconteceu com Hunt. Sim, ele perdeu aliados, mas, regras do jogo. E a situação com Julia nunca havia ficado realmente clara. Além disso, ele seguia apostando cegamente na sua habilidade de, de fato, sair de situações impossíveis. A trama acentua o quanto isso de irresponsável o personagem carrega, novamente o colocando em choque com os próprios aliados mas, ao final, Luther, Ilsa e Benji seguem atrás dele, por mais desesperado e fora de controle que seja seu tom de voz, entregando o quanto ele funciona na base do improviso (não que isso seja necessariamente ruim, mas, novamente, ele é um apostador e ninguém dá sorte em 100% dos casos). Mas ao final, naquele discurso da agente Sloane, eu consegui entender o ponto em que as pessoas contando essa história pretendiam chegar.



De certa forma, McQuarrie pega algumas dessas dúvidas que eu tinha com relação aos rumos destes longas e usa "Missão Impossível 5" e o "6" para tecer sua tese: Sim, o M:I 3 aconteceu e escolhas difíceis foram feitas, escolhas essas que traziam forte carga de tons de cinza. Tortura, ameaças, limites foram ultrapassados. Ao invés, no entanto do diretor abraçar essa escuridão como o tom reinante, ele decide usar esse episódio como um cautionary tale, como uma história de aviso, uma "darkest timeline", do mesmo jeito que vemos aqui em M:I 6 pelo menos em dois momentos, cenas que servem pra mostrar o que aconteceria se decisões diferentes tivessem sido tomadas. Como eu disse acima, essas cenas - todo o cenário falso para enganar Deebruke e aquela cena da fictícia - e trágica - cena de resgate de Lane - são o momento em que o real toca a franquia. Então, pq elas não foram a tônica adotada pela série, de fato? Pq isso é uma via de mão dupla.
Eu disse no artigo anterior que esse momento de "olhar pro abismo" de Missão: Impossível era uma jornada sem volta, mas esqueci que o abismo te olha de volta e a perspectiva copo meio cheio aqui é que se os demônios dentro desse hipotético buraco podem te mudar ao olhar pra ti, vc tb pode afetá-los com o seu olhar. Esses filmes - e esse acima de todos - é um grande estudo a respeito do quão férreas são as convicções de Hunt e, de forma fascinante, como um herói menos pós-moderno, mais próximo da visão clássica do herói, funcionaria no contexto das histórias de ação pós 9/11, quase como se o Ethan que vemos aqui fosse o de "M:I" ou de "M:I 2". Com sua cota de traumas e cicatrizes, pq é impossível esquecê-los, mas mais conectado com o que o personagem tem de mais essencial.
Eu sempre digo que uma de minhas histórias favoritas do Superman, um dos meus personagens favoritos, tipo, ever é "Superman vs Aliens".



É um gibi histórico? Não.
É um clássico? Não.
Então, pq funciona comigo? Pq é um daqueles momentos em que temos as convicções básicas do Superman, um herói solar clássico, arquetípico, sendo testadas no ambiente mais infernal possível. Da mesma forma que foi na saga "Our worlds at war", outra saga da DC feita pra botar a fortitude moral do ultimo filho de Krypton sob pressão (e sim, achei curioso que um dos vilões aqui é vivido pelo homem que interpretou Kal-El no malfadado "Man of Steel" de 2013, em que o personagem toma decisões bastante questionáveis e que é frequentemente citado em discussões sobre o papel da figura do herói num contexto como o atual)
O desespero na voz de Ethan do qual eu falei no texto anterior, não tá lá pra indicar a falta de controle do personagem, mas a necessidade de filtrar quase todos os cenários possíveis para encontrar aquele único no qual nenhuma vida inocente é perdida e, convenhamos, na nossa realidade de heróis "Edgy", isso é uma afirmação corajosa pra caralho. Confesso que naquela cena envolvendo uma policial francesa no local e hora errados, eu imaginei que o personagem fosse sentar um tiro nela "em prol do bem maior". A questão é exatamente essa: o termo "casualidade de guerra" não existe em seu vocabulário. Não existem "baixas aceitáveis". Decidir entre a vida de um e a de milhões não é uma escolha.


E é isso que é colocado sob prova nesta missão: essa missão em si não existiria caso o líder da IMF tivesse executado Solomon quando a oportunidade surgiu. E das palavras do vilão em si:

Lane: "Did you ever stop and ask yourself who's giving you the orders or why? When everyday the master you serve is one step closer to ending the world."
Hunt: "Strange accusation coming from a terrorist."
Lane: "Terrorists are schoolboys, desperate for attention. Hoping to shape public opinion trough fear. I don't care in the least what people think or feel. In my experience they don't do either for very long."
Luther: "I suppose that justifies bombing factories or bringing down civilian aircraft."
Lane: "You see the end as clearly as I do, Ethan. Governments the world over are descending into madness. The Syndicate was created to tear them down. Brick by brick."
"The Syndicate was civilizations last hope! A chance to smash the old world order. That hope is gone now because of you and your pathetic morality. You should have killed me, Ethan. The end you always feared, it's coming. It's coming. And her blood will be on your hands. The fallout. For all your good intentions."

Temos diversos casos ficcionais em que o personagem com as melhores intenções termina tão morto quanto qualquer minion do vilão e isso pq intenções e morais não param balas, espadas ou armas de qualquer tipo. No final, boas intenções tb podem ser tão nocivas quanto seu oposto. Ned Stark usava as boas intenções como um escudo num contexto de corrupção. No final, sua superioridade moral não o salvou da decapitação. As boas intenções do Batman não servem de muita coisa pra cada parente e/ou ente querido de alguém morto pelo Coringa. Alguém poderia dizer que o agente Hunt é um zealot, um fanático, da mesma forma que Lane, seu reflexo invertido, e esta seria uma alegação difícil de ser negada. O longa e a série tomam suas posições mas não necessariamente validam o lado do herói como a verdade absoluta. Radicalismo, num mundo como o descrito pelo líder do Syndicate no diálogo acima é uma resposta compreensível. Lembremos que esse é o primeiro filme da franquia pós-Obama. As filmagens começariam em 2015, mas uma disputa salarial entre Cruise e a Paramount levaram à uma interrupção em sua produção com os dois lados chegando a um acordo apenas no final de 2016. E o que rolou nesse ano, meus queridos ímpios? Que outro acontecimento histórico aconteceu aqui e que iria afetar, intencionalmente ou não, a forma como perceberíamos essa história?


Yep. do mesmo jeito que funciona com Batman e Coringa, Clark e Luthor, Peter e Norman, o agente Hunt e Solomon Lane são personagens submetidos à traumas e condições muito semelhantes mas que desenvolveram ideologias extremamente opostas como forma de superá-los e seguir adiante.

Lane: I helped my government killed many innocent people and more, so much more. Killing to keep things as they were. And now I'm killing to bring about change.

É preciso entender que o que norteia os dois opostos aqui é o fanatismo. Lane acredita na sua causa e que sacrificar vidas é válido pra salvar os que sobrarem. Ethan acredita em proteger todos. Mesmo as mortes de vilões são mantidas no número mínimo possível. Pra ele, proteger o indivíduo e a santidade da vida constituem a base daquilo que ele faz e, mais ainda, valida sua missão e todos os sacrifícios feitos. É esse conjunto de valores que confere sentido a toda sorte de bizarrices as quais ele voluntariamente, e esse ponto é importante, se submeteu.

Lane: Your mission, should you choose to accept it... I wander, Ethan, did you ever choose not to?

Claro que esse é um conto pós Guantánamo, pós Abu Ghraib. Vai saber quantas missões "Jack Bauer style" Hunt recusou, quantas missões que envolviam tortura e a derrubada de governos estrangeiros - muitos deles, aliados - ele ignorou no decorrer da vida. As mesmas missões as quais Lane aceitou por acreditar naquela mesma base de idéias patrióticas que abastecem seu adversário. O ponto de Lane, por mais extremo que seja, é balançar as estruturas das crenças do oponente e ele o faz brilhantemente: lembremos que a missão desses agentes e, indo mais além, da maioria dos protagonistas de filmes de ação, não é combater o mal, mas manter o status quo funcionando.



Por isso que os super heróis do MCU passam mais tempo enfrentando monstros e uns aos outros do que, por exemplo, indo atrás dos milionários corruptos e dos governantes servindo a interesses sinistros. O papel do herói é parar as influências externas e garantir nosso "direito" de corromper e destruir o mundo nós mesmos. Citando o Superman novamente: lembrem-se que enquanto Luthor usava os buracos da lei para benefício próprio, Kal-El não relou um dedo nele. Quando ele, enlouquecido, botou uma armadura e saiu por aí tocando o terror, aí sim, um limite foi cruzado. Como anarquista que sou, reconheço na raiva de Lane a minha própria, apesar dos métodos escrotos que ele resolveu utilizar pra trazer "igualdade" ao mundo, nesse aspecto, portanto, me aproximando mais dos ideais humanitários do agente Hunt.


Os roteiristas e o diretor têm a elegância de apresentar os dois pontos de vista e deixar que nós cheguemos a nossas próprias conclusões e isso é bem interessante. Sim, Lane é um vilão, ele é mau pra caralho, ao final ele está disposto a matar um bando de inocentes incluindo doentes e médicos. Ele é o responsável por liberar vírus em áreas populosas e eliminar homens, mulheres e crianças em prol de uma causa, isso não é sutil de maneira nenhuma. Mas a raiva dele, essa sim soa honesta, é a raiva de um norte-americano com um presidente como Trump, de um brasileiro sob o comando daquela aberração fascista que nos lidera. Os métodos podem ser errados mas a gênese da sua crença é perfeitamente relacionável pra gente, imersos que estamos nesse contexto de merda em que nos enfiamos (jesus do céu, I mean, existem campos de concentração nos EUA em 2019).
A escolha adotada pelo filme como "a certa" não é nos mostrada como definitiva, mas apenas como a que, hoje, naquela situação, funcionou, como funcionou nos 5 anteriores. Vimos o que aconteceu, no M:I 3 quando Hunt cruzou as linhas que o aproximaram de Solomon e o que isso quase lhe custou. Hoje, e só por hoje, tudo terminou bem, o que, novamente, é uma postura bem corajosa por parte dos criadores de "Fallout". Governos corruptos devem ser derrubados mas o que esta obra e a partir dessa leitura, a saga como um todo afirma é que temos que ter cada vida, individualmente, como parâmetro e que qualquer estrutura construída a partir do sangue de inocentes tem bases frágeis. Essa é uma verdade universal? Não.
Mas aqui funcionou, o mundo foi salvo e só os vilões foram mortos e por hoje, isso é o que basta.
Um excelente ponto de conclusão e final de ciclo para a série como um todo, antes de um novo começo para a franquia. Dois novos eps. já foram anunciados - ambos com McQuarrie na direção, uma excelente notícia - e, interessante tb é notar que eles vão ser produzidos de forma conjunta e lançados com um ano de diferença entre um e outro, respectivamente em 2020 e 2021. Confesso que depois dessa sexta aventura, estou realmente ansioso em ver o diretor americano continuar com sua macro-trama, principalmente agora que estou tranquilo em vê-lo confortável na função e com algo a dizer, não apenas a respeito desse universo, mas sobre o nosso mundo e os rumos perigosos que ele vem tomando.
Termina aqui, por enquanto, essa seção de artigos, mas podem esperar que com certeza estarei aqui pras próximas missões da Impossible Mission Force. "Should his lider choose to accept".
Mas quando é que ele não o fez, né? :-)

Meu ranking

Mission: Impossible 3
Mission: Impossible Fallout
Mission: Impossible 5 - Rogue Nation
Mission: Impossible
Mission: Impossible 2
Mission: Impossible 4 - Ghost Protocol

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Maratona "Missão: Impossível" - Parte 1


So, Pq? Bom.... pq não?
E afinal, com 6 filmes na conta, a maioria deles sendo muito bem vista pela crítica, acho que a saga protagonizada por Tom Cruise já cravou seu lugar na cultura pop, certo? E são filmes de espião. Como diria Sterling Archer, o que é mais cool do que ser um espião? So..... here we go...

Mission Impossible (1996)




Algum tempo atrás eu revi toda a franquia Fast & Furious com meu sobrinho de 15 anos (na verdade, ele é irmão de Stella, portanto, seria meu cunhado. Mas eu chamo ele de sobrinho pq quando eu penso num garoto de 15 anos de idade muito gente boa, a última coisa que me vem a mente é a imagem de um "cunhado". Cunhado pra mim é aquele agregado de família nível Agostinho Carrara) e essa revisita à franquia narrando as missões do crew liderado por Dominic Toretto veio à memória enquanto via a primeira incursão cinematográfica de M:I já que, tal qual ocorre ali, aqui tb, tudo que vc precisa saber não apenas sobre esse longa mas sobre todo esse novo universo no qual a gente, como espectador, está imergindo pela primeira vez, tá ali, nos primeiros 5 minutos de projeção. Agentes espionando gente. Alta tecnologia. Máscaras que emulam perfeitamente o rosto humano. Tudo ali, preparando o terreno pros eventos a seguir. E sim, o filme subverte muito disso antes da metade, mas não vamos nos adiantar.
A obra narra as aventuras da equipe liderada por Jim Phelps e que conta com Ethan Hunt como agente de campo, Jack como cara do TI, Clare como............ ou não?
Né?



Pq aí, como eu disse, em 30 minutos, Brian De Palma tira o chão de baixo dos pés do público, matando quase todo o time de espiões white hat. Resta apenas Ethan que acaba descobrindo que foi acusado de ser um agente duplo infiltrado no serviço secreto norte-americano. O resto é basicamente o agente tentando livrar a cara e capturar os responsáveis.
Supondo que vcs sejam como eu, alguém que nunca viu a série de Tv que inspirou a cine-franquia, e que vieram aqui apenas atrás de um filme de ação maneiro, preciso dizer: Mission Impossible sobreviveu muito bem ao tempo. Achei que fosse ver apenas um filmão sessão da tarde, mas ele se sustenta bem. A direção é competente, o roteiro, apesar de convoluto como seria de se esperar desse tipo de história, não se perde em nenhum momento. Visualmente, a obra continua linda. A cena passada dentro da sede da CIA continua belíssima.
Uma das minhas curiosidades em conhecer a franquia foi ver como o imaginário americano mudou em todo esse tempo, já que o primeiro M:I já tem 23 anos de idade passando por uma América pré e pós 11 de Setembro e com tudo que veio nesse período. Isso posto, não me escapou o fato de que toda a trama do longa gira em torno de um rogue agent que decidiu vender segredos pq, basicamente, não tinha mais o que fazer depois do fim da guerra fria. Vejam bem: Mil novecentos e noventa e seis, 5 anos antes das torres gêmeas virem abaixo. Clinton é eleito pro seu segundo mandato. A gente tá no meio daquele estado de Pax Americana, aquele período entre a dissolução da URSS e o ataque ao WTC em que os EUA reinavam absolutos no topo da montanha, aquele falso período de tranquilidade que, pra geração que nasceu e cresceu no final dos anos 80, parecia que ia durar pra sempre, salvo pequenas crises ocasionais, aqui e ali (96 foi o ano do estouro da bolha do ponto com, o país do tio Sam ainda estava enfiado em crise com o Iraque e Taiwan e, cereja no topo do bolo, esse foi o ano em que vimos a prisão do Unabomber). Nesse estado de "paz perpétua" qual a necessidade de um espião? Quem iria querer espionar a América? Quem era, de fato, ameaça ao país? E pq os donos do planeta teriam qualquer interesse em espionar nações alheias que não representavam qualquer perigo, manjam? Nesse mundo de pujança perpétua, um agente como Phelps não tinha mais lugar por representar uma nação em paranóia que, de acordo com a fantasia alimentada na época, não existia mais. Não é um acidente que, ao procurar por um inimigo, a nação americana do filme é obrigada a olhar pra dentro.



O próximo é o ultimo da série antes do 9/11 e, não apenas, tem um hiato de 6 anos entre esse e o terceiro. Vai ser fascinante olhar como um mundo pós Al-Qaeda vai afetar as missões de Ethan Hunt.
Por hora, no entanto, vale dizer que o longa de De Palma é muito legal, extremamente competente em estabelecer as regras daquele mundo e as cenas de ação sobrevivem bem ao teste do tempo (a do túnel dá uma agonia absurda. E hey, primeira vez na vida que eu vi uma representação remotamente realista de gente andando em cima de um trem).

Mission Impossible II (2000)




"Honouring their saints by setting them on fire. Let's you know what they think of saints, doesn't it?"




So, se o anterior foi mais cabeçudo, ainda que uma trama de ação, esse é o seu irmão mais novo e waaaaaaaaaaaaaaaaay mais cool. De novo, o preâmbulo que abre M:I 2 serve como introdução para as novas regras que vão valer pra esse longa: toda a tecnologia e gadgets maneiros que faziam parte do acervo disponível ao time dos mocinhos no primeiro Missão: Impossível agora tb fazem estão nas mãos dos evil guys o que acrescenta um nível a mais de paranóia na trama (e isso dos heróis e vilões usando máscaras é muito bem utilizado no decorrer da obra). O nível da ameaça tb cresce. Se no anterior, tudo girava em torno de agentes corruptos e Ethan tentando salvar a própria pele, aqui temos o destino de um país inteiro girando em torno do sucesso das ações dos membros da Impossible Mission Force (que, agora, ganha um nome oficial de fato). Os vilões: outro rogue agent que vem acompanhado de uma das piores e mais diabólicas entidades existentes na face da terra, a indústria farmacêutica norte-americana. Esse eu lembro de ter visto na época (lá por final de 2000. Não tinha cinema exceto por UMA sala lá em Avaré, então eu tinha que esperar os filmes saírem em VHS e DVD), inclusive acho que ainda tenho a revista SET com matéria de capa sobre o longa. Ainda se mantem bom, apesar de pesar a mão em alguns momentos e alguns probleminhas, a maioria ignorável. Plasticamente, o longa-metragem é lindo.



John Woo, né? Tudo é menos sutil e mais grandiloquente nesse aqui, o que tem seus méritos. Achei elegante  tirar 20 minutos de suas duas horas pra introduzir decentemente a personagem da Nyah e a cena em si, intercalando a apresentação de flamenco e os dois personagens na sua "dança" de aproximação ficou muito legal (percebam como os passos de dança e a música se adaptam à velocidade da ladra se infiltrando na mansão). O problema é que eles meio que mentem pra gente, né? A primeira idéia é que Ethan está montando um time pra resgatar informações sobre um item chamado Chimera (que, posteriormente saberemos se tratar de um vírus mortal, tipo, uma mega gripe) e precisa da moça por suas habilidades como ladra, quando, na real, o lance é que ela teve uma relação amorosa com o rogue agent e vilão de M:I 2, Sean Ambrose. Ou seja, 20 minutos nos dando a impressão de que ele vai se concentrar no cérebro da guria, quando na real, o foco vai ser em atrair o agente traidor com seus "charmes femininos". Hey, falem o que quiserem de Fast and Furious mas desde o primeiro ep. da franquia, a Letty tá lá, sujando as mãos e queimando combustível, sendo tão badass quando os caras do time. Nyah é bem importante pra história, mas passa a maior parte dela no papel de "dama em perigo". Uma pena. Also, certos plotholes que me incomodaram, o maior deles sendo COMO CARALHOS ETHAN VAI PRAQUELE JOQUEI CLUB PRA PASSAR INFORMAÇÃO PRA NYAH SEM NENHUMA MASCARA, CONSIDERANDO QUE AMBROSE CONHECIA O ROSTO DELE?
Bom, pra citação á F&F não ficar solta: aqui tb temos um lore em desenvolvimento. Volta Luther, o "cara do TI" do episódio anterior, acompanhado do australiano Billy Baird, o "cara dos transportes" do time.



Isso posto, nos concentremos no positivo: a ação. O diretor chinês é um mestre nesse tipo de filme e não deixa nada a dever aqui. Por ser um conto sobre espiões, a obra toma seu tempo, com paciência, antes de deixar as balas voarem, afinal, é sobre gente que trabalha nas sombras e de forma stealth. Mas quando começa, benzadeus. A sequência dentro do laboratório é um festival de chumbo voando (inclusive com uma evolução da cena da corda do primeiro "Mission: Impossible"). E claro, a catártica parte final de M:I 2, incluindo a mega famosa  "justa de motos".
Shout outs tb para a ponta de luxo de Anthony Hopkins como o novo superior do agente Hunt.
Curioso tb notar certa presciência do longa, já que o executivo da corporação bioquímica responsável por todo esse clusterfuck é estranhamente parecido com Donald Trump.
Falei do filme quanto obra. Continuando a minha jornada pela franquia enquanto a situo como uma construção típica do seu tempo, temos de volta o lance dos EUA olhando pra dentro atrás de seus filhos perdidos e, junto disso, certo elemento de fin de siecle, daquele mal estar típico de períodos de fim de século e/ou milênio em que coletivamente esperamos pelo fim do mundo. Woo usa desse elemento e brinca com ele: primeiro com a idéia do vírus letal, algo meio bíblico, como a mão de Deus vindo do nada pra nos extinguir como espécie. Segundamente, com os elementos mitológicos, Quimera e Belerofonte, esse simbolismo religioso típico de histórias brincando com esse trope do fin de siecle. Podemos ver tb um outro elemento típico da mitologia grega, a crítica à húbris e ao desejo tipicamente humano de se igualar aos deuses na figura do doutor Nekhorvich, criador do vírus e de seu antidoto. Em nenhum momento ele é retratado como um individuo ruim, mas é aquilo da estrada do inferno e de boas intenções. Por ultimo, sacada inteligente que o lance do vilão não é soltar o vírus no mundo por motivos de dominação mundial ou qualquer porra do tipo. O lance dele é vender de volta o antídoto da bagaça pra empresa que o criou mas, antes, soltar o vírus numa área populosa da Austrália e investir nas ações da companhia, sabendo que, únicos proprietários da cura pra essa doença, o preço dos seus papéis na bolsa vai subir horrores. Pior que um traidor e um psicopata? Um uber-capitalista. Junto da mão onipresente de Deus, Ethan e a IMF tem como adversários, tb, a mão invisível do mercado.
Enfim, cool pra cacete, longe de ser perfeito e um tantinho inferior ao anterior, mas ainda assim bem divertido (e com uma trilha sonora boa pra cacete).

Missão Impossível III (2006)




"You can always tell someone's character by the way they treat those they don't need to treat well."

Como vcs viram, nos dois textos acima, eu venho tentando situar cada filme dentro do período específico em que eles surgiram, o que eles querem dizer, qual a motivação secundária que motivou sua existência (pq a primeira é sempre $$$). Bom....ainda bem que eu adotei essa abordagem pq, jesus do céu. Eu imaginei que os atentados contra o WTC deixariam suas marcas na franquia, considerando que ela gira em torno de espionagem, mas eu achei que viria de forma sutil.
Well. Nope. Sutileza é pros fracos. O que JJ Abrams faz aqui é quase terapia coletiva em forma de cultura pop. Catarse, pura e simplesmente. Um pouco MENOS sútil e teríamos visto Ethan Hunt enfiar uma bala na cabeça de Bin Laden.
O terceiro filme da franquia já abre com um flashfoward (JJ Abrams, afinal, pq, como diria um sábio, "somente os tolos são escravizados pelo espaço tempo") mostrando o vilão da vez, Owen Davian ameaçando matar a esposa de Hunt caso ele não devolva o mcguffin oficial desse longa, algo chamado "the rabbit's foot". As quase duas horas restantes explicam como diabos chegamos até ali: depois de uma missão de reconhecimento mal sucedida que resultou na captura de uma agente, Ethan, agora um professor treinando novos operativos, decide voltar a campo atrás dela, o que vai leva-lo a um ponto de colisão com o já citado Davian, um traficante de armas extremamente perigoso.
"M:I 3" tem duas metades distintas. Na primeira, temos um vislumbre do que geralmente esperamos desse tipo de aventura: alguma tragédia e dificuldade mas o "final" mostra os white hats bem sucedidos, o bad guy capturado  e tudo na santa paz de Deus, com direito a cena com todo mundo de óculos escuro, cooler than being cool, andando de barco em um cenário paradisíaco na Itália.



Então, do nada.....vem a tragédia. Um avião. Explosões. Destroços e fumaça pra caralho. Tiroteio não discriminando quem é alvo de fato e quem é só vítima no fogo cruzado. Violência estúpida, sem aviso, sem explicação. Pessoas desesperadas correndo tentando salvar os inocentes e fazendo o máximo de contenção de danos que a situação permitir. O pós 2000 com seus terroristas e mass shootings derrubou as portas da quarta parede e invadiu o universo de M:I. E nada vai ser novamente como antes. Mission Impossible 3 é, antes de tudo, um filme sobre expiação, sobre reparação. Feridas existem e estão abertas e uma hora, isso iria voltar pra morder os pés de todos ali. E nenhuma hora é melhor que agora: Hunt tem que pagar por achar que pode ter uma vida normal e ser um agente ao mesmo tempo. Paga pela húbris também: Toda a segunda metade do longa não aconteceria se eles não estivessem tão confortáveis e arrogantes com o aparente sucesso da missão a ponto de aparecem de cara limpa e usando os próprios nomes na frente de Davian. E não esqueçamos do momento em que ele tortura o vilão. O agente permitiu que os tons de cinza da vida real o atingissem. Ele convidou o mundo pra dentro daquele universo e, uma vez lá dentro, tal qual um vampiro, não tem como mandá-lo de volta.  O infiltrado dento da IMF (evitando spoilar isso), por sua vez, paga por achar que controlar os demônios que vc solta pelo mundo é algo possível indefinidamente, do mesmo jeito que o governo dos EUA do nosso mundo aprendeu, a duras penas há 18 anos, que se vc alimentar e soltar uma fera no mundo, as vezes elas voltam pra devorar a mão que lhe deu comida.  A trama, pros fãs de quadrinhos lendo esse texto, me lembrou um dos arcos clássicos recentes do Batman, "War Games", onde o morcego comete exatamente o mesmo erro: decide botar alguém subordinado a ele como líder do crime organizado de Gotham, tentando ter algum controle sobre aquele mundo. Até que dá merda. Nem ele conseguiu. E ele é o fucking Batman. As mentiras e os pecados passados voltam com força pra atormentar o time de protagonistas e boy, oh boy, as escalas nunca estiveram tão altas.
Primeiramente, falemos da ação: atipicamente, o filme não vai naquele crescendo de stealth, como nos anteriores e, antes de 15 minutos, já temos uma cena bem legal envolvendo o resgate da agente Farris. Obviamente, o ponto alto é a cena da ponte, por nos pegar de surpresa. No final, temos a invasão ao prédio onde o Rabbit's foot está e achei esperto da parte de Abrams que, sabendo que seria dificílimo fazer algo que superasse a invasão do prédio do longa anterior, ele decidiu subverter isso e nem tentar: ao invés de nos mostrar os pormenores do roubo, a ação se concentra no antes e principalmente, no depois. Pegar o objeto não foi complicado. O difícil vai ser escapar com vida.



Falemos de Davian: jesus do céu, Philip Seymour Hoffman era um monstro, né? Cacete. Eu passei a gostar um pouco menos do vilão do filme anterior depois de ter visto esse aqui. Percebam como tudo que Sean Ambrose tinha de histriônico, Davian tem de sutil. Raramente levantando a voz pq sabe que não precisa. Perpetuamente em controle da situação. Calculista as hell. Na cena em que ameaça matar Julia, mantem o tom sempre baixo pq ele não é um personagem de cinema querendo impressionar o público. Ele não é um palestrante tentando impressionar as pessoas ao redor. Ele é um homem, em uma sala com 3 pessoas e seu interlocutor está imediatamente na sua frente. Ele só precisa se fazer ouvido. E mesmo quando ele levanta a voz, é mais como consequência as reações de Hunt do que da necessidade de se fazer dramático. Poucos atores saberiam passar tanto de forma tão sutil e Hoffman era um desses mestres na arte que praticava. Quando ele revela que sabe o nome do agente, sério, eu senti um calafrio.



O ator faz tanta falta, né? Principalmente nos dias atuais, em que arte é tão necessária como forma de conforto pra nos fazer esquecer o quanto o mundo anda estúpido e embrutecido e ignorante. 
Voltando: a trama não era um mar de rosas antes da cena na ponte, já que a morte da agente Farris é mostrada com uma brutalidade e riqueza de detalhes absurda. Mas dá pra dizer que o tom era o tipo de coisa que se esperava. A partir daquele ponto, no entanto, o paradigma muda e o tom é sombrio. O trauma é permanente, o desespero, marcado inclusive nos cortes rápidos, nos filtros de cor passando uma impressão de opressão, claustrofobia e tensão. Algo se perdeu, potencialmente pra sempre. 
O que nos traz a minha ÚNICA crítica: Julia tinha que ter morrido no final.
Desculpem, eu sei que eu sou tipo "No fun Hak", o cara que gosta de, como diria Maristela, "filme desgracento". Ou como diria a mãe dela, "... que faz mal pra alma". Eu sou o cara que trouxe pra dentro de casa obras como "Hotel Rwanda", "Dear Zachary", "O túmulo dos vaga-lumes", "The act of killing" e outras pérolas da miséria, daquelas que te deixam mal pra sempre, causando verdadeiras cicatrizes emocionais. Mas vejam bem e me digam se eu estou errado: É UM FILME SOBRE PERDAS, sob o efeito que o 11 de Setembro teve no imaginário coletivo. É o primeiro longa da série que abertamente cita grupos terroristas árabes como potenciais inimigos, é sobre pecados passados e sobre reconhecê-los e pagar por eles. De que forma isso combina com Hunt terminando casado e feliz, com todo mundo rindo e ceninha "final do He-Man", sabe? Um monte de gente perdeu entes queridos naquele dia e nenhum deles era um vilão usando máscara. A perda é permanente. Os efeitos dela também. Achei meio covarde e, de certa forma, desonesto devolver a moça pro protagonista. Eu entendo que ele já tinha visto uma pessoa querida morrer no começo da história e talvez, fosse too much, principalmente pq vc não pode aleijar emocionalmente o herói da sua franquia, franquia essa que deve durar por mais uma dezena de continuações. E afinal, vc quer que as pessoas saiam com algum alivio do cinema. Entendo, vejam bem. Demandas de ser uma obra de arte mainstream. Mas ainda assim, fico pensando o quanto Missão Impossível 3 poderia ter sido mais corajoso e, vejam bem, honesto com o trauma representado.



Tudo isso posto, ainda é meu favorito da franquia até agora. O primeiro era cerebral. O segundo, uma aventura adolescente, massavéio pra cacete. Esse terceiro é o ponto em que a franquia fica adulta e abraça as sombras do mundo real. Em M:I 2, vc podia aparecer na frente do criminoso psicopata sem temer retaliações pq era apenas cool fazer isso. Agora não. Os riscos estão mais altos. Atos tem consequências e vai ser interessante, caso mantenham esse tom (e seria um erro não fazê-lo), ver como esse diálogo entre ficção e mundo real vai afetar o resto da série. Ah, um ultimo toque: senti falta do Billy e seu sotaque australiano. Tomara que o atual time, formado por Ethan, Zhen, Declan, Luther (LU-THEEER!) e Benji, se mantenha nas próximas missões.

Por hoje é isso, ímpios.
Volto ainda essa semana com a parte 2 e final dessa maratona, cobrindo a segunda metade da franquia. 

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